Terça-feira, 07 de abril de 2026
De repente, a porta do quarto se abre com cuidado. O doutor Prado entra discretamente, quase sem fazer barulho.
— Parece que ele finalmente dormiu — diz, em voz baixa, aproximando-se da cama.
— Sim... — respondo, passando a mão com carinho pelos cabelos de Joel. — Tomara que, quando ele acordar, não esteja mais com dor de cabeça.
O doutor Prado observa a cena por um instante, pensativo.
— Ariel, venha. Vou mandar servir lasanha para todos — diz ele, em tom calmo.
Hesito.
— Acho melhor eu esperar o Joel acordar... aí descemos juntos — respondo, sem tirar os olhos dele.
— Você ainda não comeu nada desde que chegou. Deve estar com fome — insiste o doutor Prado.
— Não estou com fome, senhor — digo automaticamente.
No mesmo instante, meu estômago ronca alto, me entregando.
Ele arqueia uma sobrancelha.
— Seu estômago diz outra coisa — rebate, com um leve sorriso. — Venha. O Joel pode ficar sozinho por alguns minutos.
Lanço um último olhar para Joel, relutante.
— Está bem... senhor — cedo, por fim.
Saio da cama com cuidado, ajeito um travesseiro sob a cabeça dele e sigo o doutor Prado até o jardim.
O ambiente está iluminado, e não demora para a lasanha ser servida. O cheiro é irresistível. Mesmo sem vontade, começo a comer... e percebo que estou faminto. Como rápido, quase sem saborear, ansioso para voltar logo.
— Doutor Martins, você melhorou? — pergunta um dos físicos.
Levanto o olhar.
Meu coração dispara.
Joel está vindo em nossa direção.
— Como você tá, cara? — pergunta Wei, preocupado.
— A dor de cabeça passou? — acrescenta Rafael.
— Amor, você...
— Eu estou bem, pessoal. Não se preocupem — diz Joel, aproximando-se. Há algo diferente na voz dele... mais fria, distante. — Depois desse cochilo, estou revigorado — completa, beliscando minha bochecha.
Forço um sorriso, mas algo não encaixa.
— Foi mal, cara. Eu chutei a bola com muita força — diz Henrique, claramente arrependido.
— Relaxa — responde Joel, sentando-se ao meu lado com naturalidade.
Mas não é natural.
Não para mim.
Observo cada detalhe. O olhar, o tom de voz, os gestos...
Joel está estranho.
Frio.
Distante.
Como se... não fosse ele.
— Boa tarde a todos — diz um homem ao se aproximar.
— O professor Gerson finalmente chegou! — comemora um dos físicos.
Alguns minutos depois, preciso ir embora. Já está na hora de abrir o restaurante.
Me despeço de Joel... ou pelo menos tento.
Até o beijo de despedida é frio.
Vazio.
Saio com o peito apertado.
E, durante todo o caminho até o restaurante, uma única coisa não sai da minha cabeça:
Joel não está agindo como ele mesmo.
Quarta-feira, 08 de abril de 2026
Acordo ainda sonolento e, quase no automático, pego o celular. Meu coração já se aquece, esperando ver a mensagem de sempre.
O "bom dia" dele.
Mas... nada.
Franzo a testa.
Peraí... o quê?
Nenhuma mensagem?
Isso não faz sentido. Joel sempre manda mensagem primeiro... sempre.
Respiro fundo, tentando me acalmar.
Provavelmente ele ainda está dormindo.
Com um pequeno sorriso, começo a digitar:
— Bom dia, doutor. Mesmo longe, você continua sendo o melhor lugar onde meus pensamentos descansam.
Envio a mensagem, imaginando a reação dele.
Não demora.
A mensagem é visualizada quase imediatamente.
Então ele já estava acordado.
Meu coração dá um pulinho... mas logo se aperta.
— Bom dia.
Só isso.
Fico imóvel por alguns segundos, encarando a tela.
— Peraí... o quê? — murmuro, incrédulo, sentando na cama. — Ele... ele me mandou um "bom dia" seco?
Isso não é o Joel.
Não pode ser.
Engulo em seco e tento de novo:
— Vem tomar café comigo. Vou fazer algo bem gostoso.
Fico olhando a tela, esperando... esperando...
A resposta chega.
— Já tomei café. Fica para a próxima.
Como assim?
Ele nunca recusaria um café comigo.
Nunca.
O que está acontecendo?
Os minutos passam... viram horas.
E nada.
Nenhuma mensagem.
Nenhum "senti sua falta".
Nenhum "o que você está fazendo".
Nada.
A angústia cresce dentro de mim.
— Oi? — escrevo, hesitante.
Ele visualiza.
E não responde.
Meu coração afunda de vez.
— O que está acontecendo com esse nerd...? — sussurro, sentindo um nó na garganta.
O dia inteiro passa assim.
E o Joel... não manda mais nada.
Fico encarando a tela, como se ela fosse me dar alguma resposta.
Será que isso... é por causa daquela bolada?
Será que aquela bolada... fez ele parar de me amar?
Já é noite. Estou no restaurante, mas minha mente está longe dali.
Joel.
Eu não consigo parar de pensar nele.
Meu peito está apertado desde de manhã.
— O doutor Martins e o doutor Prado acabaram de chegar — avisa o garçom, entrando na cozinha.
— Sério? — digo, já me movendo antes mesmo de terminar a frase.
Corro até a porta e espio pelo vidro.
E lá está ele.
Joel.
Mas... tem algo errado.
Levo um susto.
Ele está sem óculos.
— O doutor Martins está um pouco estranho — comenta o garçom, ao meu lado.
— Está mesmo... — respondo, quase em um sussurro, sem tirar os olhos dele.
De repente, Joel se levanta e segue em direção ao banheiro.
— Eu vou ao banheiro — aviso, já abrindo a porta.
Caminho rápido pelo salão. Entro no banheiro quase ao mesmo tempo que ele.
— Ei, a gente precisa conversar — digo, antes que ele entre em uma das cabines.
Joel se vira para mim, com uma expressão neutra demais.
Fria demais.
— E sobre o que seria? — pergunta, confuso, se aproximando.
— Por que você está desse jeito? — questiono, direto.
Ele franze levemente a testa.
— Desse jeito como? — rebate.
— Tão frio... distante... — digo, tentando controlar a voz. — E cadê os seus óculos?
— Ah... — ele dá um meio sorriso. — Estou usando lentes agora. É mais prático.
— Não entendo toda essa estranheza. É normal usar lentes — acrescenta ele, ainda com aquele tom leve... como se nada estivesse acontecendo.
— Eu não ligo se você usa lentes ou óculos — digo, sentindo a voz falhar. — Eu só quero saber por que está me tratando com tanta frieza.
Joel me encara.
Por alguns segundos, ele realmente parece... confuso.
— Eu estou fazendo isso? — pergunta.
— Está — respondo, sem hesitar.
O silêncio pesa entre nós.
Então ele suspira.
— Desculpa, Ariel... — começa, passando a mão pelo cabelo. — Eu sei que você é uma pessoa incrível, mas... desde que acordei, estou me sentindo estranho.
Sinto meu coração acelerar.
— Eu não te mandei mensagem porque... não senti saudade — continua ele, com convicção. — Meu coração não aquece quando penso em você. E mesmo agora... aqui, na sua frente...
Ele hesita.
Mas continua.
— Eu não estou sentindo nada.
Meu mundo para.
— Isso quer dizer o quê...? — pergunto, com a voz trêmula.
Ele me olha.
— Eu não te amo, é isso — diz Joel, sem nenhum pingo de empatia.
O que eu mais temia realmente aconteceu.
A bolada mexeu com os neurônios dele.
O que eu devo fazer agora?
Será que, com outra bolada bem na cara, ele voltaria a me amar?