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Teoria nº 17: Tribunal da Internet

hyan_amorim

Conteúdo da publicação

Segunda-feira, 23 de março de 2026

Meu celular apita sem parar. Quando olho, são dezenas de mensagens de ódio direcionadas a mim. Há também ameaças de morte. A maioria vem de fãs do Augusto Prado, dizendo que eu vou pagar pelo que fiz a ele.

— Como esse cara pode fazer isso? Que idiota — diz a subchefe, revoltada.

— Chefe, divulgue as imagens das câmeras de segurança — sugere um dos garçons. — Dá pra ver e ouvir toda a verdade.

— Infelizmente, vou ter que fazer isso — digo, pensativo. — O Augusto falou coisas terríveis... e isso pode acabar com a carreira dele.

— Ele devia ter pensado nisso antes de sair espalhando mentiras — rebate a subchefe, indignada.

De repente, gritos começam a vir de fora do restaurante.

— Justiça! Justiça! — ecoam vozes em coro.

— Isso não é nada bom — diz um dos garçons, olhando pela vidraça. — Tem um monte de gente lá fora.

Vou até a janela e vejo um grupo de cerca de dez pessoas. Alguns seguram barras de ferro.

— Você vai pagar pelo que fez ao Augusto! — grita uma mulher revoltada ao me ver.

— Gente como você não devia existir entre nós — diz um homem, começando a caminhar na minha direção.

— Eu não sei por que ele disse aquilo, mas é mentira — digo, firme, apesar do medo. — Eu não fiz nada com ele. Na verdade, foi ele quem tentou me agarrar à força.

— Vamos calar esse viado para sempre! — grita o homem, apontando a barra de ferro para mim.

Meu sangue gela. Eles vão me agredir. É isso mesmo?

— O chefe é a verdadeira vítima! — grita um dos garçons. — Ele não tentou agarrar ninguém!

— Nós vamos provar tudo com as imagens das câmeras de segurança e mostrar quem é o verdadeiro assediador — afirma a subchefe.

Meu corpo treme. Não consigo dizer mais nada. As pessoas começam a se aproximar. Eles não querem saber da verdade. Só querem alguém para atacar.

— Vem, chefe — diz a subchefe, segurando minha mão com força. — Vamos nos esconder na cozinha até a polícia chegar.

Todos corremos. A porta é trancada às pressas.

— A polícia está a caminho — diz um dos garçons, com o celular na mão.

Do lado de fora, os gritos aumentam. Logo, começam a chutar a porta.

— Abre logo essa porta! — berram, enquanto os impactos ecoam pelo ambiente.

Consigo vê-los através do vidro. Os olhos estão cheios de ódio. Minhas pernas falham, e eu caio de joelhos no chão.

— Não se preocupe, chefe — diz a subchefe, firme. — Nós não vamos deixar ninguém machucar você.

Todos se posicionam à minha frente.

Então ouço o estalo seco da porta cedendo.

— Saiam da frente! — grita o homem.

— Se quiserem machucar o chefe, vão ter que passar por cima de mim primeiro — diz um dos garçons, firme, posicionando-se à minha frente.

De repente, escuto o som das sirenes da polícia.

— A polícia tá aí! Vamos embora! — grita um deles, desesperado.

O grupo tenta recuar, mas antes que consigam fugir, a polícia bloqueia a porta.

— Parados! — escuto a voz autoritária de um policial.

Ouvir a voz da polícia me traz um grande alívio, e não consigo conter as lágrimas.

— Já passou, chefe — diz a subchefe, abaixando-se para me abraçar.

Logo, todos se aproximam e me envolvem em um abraço coletivo, como se quisessem garantir que eu estava seguro.

O grupo é preso e levado para a delegacia. Depois de me acalmar, estou agora em frente ao computador, procurando as filmagens daquele dia.

Augusto Prado, você vai se arrepender por ter inventado essas mentiras. Eu vou mostrar a todos a verdade.

Depois de um tempo procurando, finalmente encontro o arquivo.

Dou play.

— Meu Deus... — murmura um dos funcionários, levando a mão à boca.

Na tela, Augusto aparece claramente alterado.

— Quem você pensa que é para me rejeitar? Pessoas como eu não recebem "não" como resposta — diz Augusto, com arrogância.

— Olha isso... ele tá se achando dono do mundo, — comenta outro, indignado.

— Pois eu vou ser o primeiro — respondo no vídeo, mantendo a postura. — Eu não tenho vontade nenhuma de sair com o senhor.

Augusto aperta a mandíbula.

— Por acaso você estava falando sério naquele dia? — provoca. — Você prefere sair com aquele doutor quatro-olhos em vez de mim?

— Que cara nojento... — rosna a Subchefe.

— Sim — respondo, sem pensar duas vezes. — E, como eu disse naquele dia, eu não saio com pessoas que se acham melhores do que as outras.

— E quando eu sair daqui, vou me encontrar com o doutor Martins — acrescento, firme.

Augusto ri, sem humor.

— Você só pode estar brincando... ou é maluco. Como prefere sair com aquele cara? Eu sou perfeito. Tenho um corpo que faz qualquer um suspirar.

—  Que cara Arrogante  — diz um dos garçons, balançando a cabeça.

— Antes de me envolver com o Joel, eu só me envolvia com pessoas como você — digo no vídeo, pensativo. — Padrões arrogantes que se acham melhores do que os outros.

Encaro Augusto com firmeza.

— E eu não vou deixar que você diminua o doutor Martins. Ele não é feio e muito menos inferior a você.

— Não acredito que isso seja verdade — diz Augusto, incrédulo. — Você não pode estar interessado naquele doutor.

— Estou, sim — respondo, sem hesitar.

O silêncio na sala é pesado.

Respiro fundo no vídeo antes de completar:

— Agora, por favor, vá embora. Eu preciso fechar o restaurante.

O olhar de Augusto escurece.

— Olha aqui... ninguém me rejeita — diz ele, furioso, segurando meus ombros com força.

— Você está me machucando. Me larga! — digo, tentando me soltar.

— Desgraçado... — grita a Subchefe, com ódio.

— Você vai aceitar sair comigo — ele insiste, tentando se aproximar do meu rosto.

— Não! — respondo, desviando.

— E vai ser eu quem vai te rejeitar quando eu me cansar de você — diz ele, segurando meu rosto com brutalidade.

— Socorro! — grito, desesperado, ao ver seu rosto se aproximar do meu.

— Chefe, esse vídeo é perfeito para provar a verdade. Todo mundo vai ver que o senhor mudou em relação ao doutor Martins — diz a subchefe.

Pego meu celular e respiro fundo antes de começar a gravar.

— Oi, gente. Sei que está todo mundo pensando o pior de mim — digo assim que inicio a gravação.

Respiro fundo mais uma vez.

— Este é o meu primeiro pronunciamento depois de tudo o que aconteceu.

— Em relação às coisas que eu disse ao doutor Martins, não há desculpa para o que fiz. Eu fui horrível com ele. Logo depois do ocorrido, me arrependi profundamente, fui procurá-lo e pedi perdão.

— O Joel me ensinou muitas coisas. Aprendi que o amor não é só aparência física. E não, eu não estou dizendo que o doutor é feio. O doutor Martins é lindo por dentro e por fora — digo, com um sorriso carinhoso.

— Confesso que antes eu era arrogante, sim. Mas hoje eu evoluí e me tornei uma pessoa melhor graças ao doutor Martins — completo.

— Quanto ao Augusto Prado, vou deixar que vocês vejam por conta própria — digo, apontando o celular para a tela do computador. — Vejam o que realmente aconteceu e tirem suas próprias conclusões.

Antes de encerrar, dou play no vídeo.

Depois de terminar a gravação, publico o vídeo em todas as minhas redes sociais.

— Você foi incrível, chefe — diz a subchefe, me abraçando.

Logo em seguida, todos os meus funcionários se aproximam e me abraçam em conjunto.

Meu vídeo viraliza em questão de minutos, e logo começo a receber diversas mensagens de apoio. As pessoas já não estão mais me atacando.

— Chefe, estão detonando o Augusto Prado nas redes sociais — diz a subchefe, mexendo no celular.

— Bem feito para ele. Agora que lide com as consequências dos próprios atos — comenta um dos garçons.

— Tá bom, pessoal, vamos seguir em frente. Precisamos limpar toda essa bagunça que os vândalos fizeram — digo, levantando-me. — Daqui a pouco o pessoal chega para colocar a nova vidraça.

Começamos a arrumar tudo. De repente, escuto o barulho de carros parando em frente ao restaurante. Quando vou ver, me assusto: são carros de repórteres. Muitos deles.

Assim que me veem, se aglomeram ao meu redor. Todos querem uma entrevista. A pergunta é sempre a mesma: se eu vou denunciar Augusto Prado por assédio.

São tantas câmeras e luzes apontadas para o meu rosto que mal consigo manter os olhos abertos.

Não aguentei a pressão dos repórteres. Eles estavam em todos os lugares: no restaurante, na frente do meu condomínio... Acabei fugindo para o interior, para a casa da minha avó. Joel aproveitou e veio comigo para ver minha avó e minha irmã. Agora estamos todos diante delas.

— A senhora não mudou nada, continua linda — diz Joel, olhando para minha avó.

— Obrigada, meu filho — responde minha avó, toda tímida. — Você continua o mesmo de sempre.

— Não acredito que você finalmente conquistou o senhor gelo — provoca minha irmã.

— Não exagera, né — digo, incrédulo.

— Tá, agora mudando de assunto... por que você não me contou o que aquele ator fez com você? — pergunta minha avó, me encarando com firmeza.

— Se eu tivesse contado, vocês iam me obrigar a denunciá-lo — respondo.

— E seria o certo — diz minha irmã, arqueando uma sobrancelha.

— Eu só queria evitar toda essa dor de cabeça — digo, com a voz cansada.

— Está bem, meu filho. Mas, por favor, não nos esconda uma coisa dessas de novo — pede minha avó.

— Sim, vovó — respondo, de cabeça baixa.

Terça-feira, 24 de março de 2026

É de manhã, e estamos voltando para a cidade. Conforme o carro de Joel se aproxima da ponte que atravessa o rio, meu peito começa a apertar. Levo a mão ao rosto e cubro os olhos, como se isso pudesse afastar o medo.

— Já vai passar, amor. Estamos quase atravessando — diz Joel, tentando me acalmar.

De repente, um impacto violento atinge o carro.

— O que foi isso?! — Joel grita, desesperado, tentando manter o controle do volante.

O carro derrapa e bate com força na barreira de proteção da ponte. O metal se parte, e parte do carro fica pendurada para fora, sobre o vazio.

— Haaaagh! — solto um grito puro de pânico.

— Amor, você está bem? Se machucou? — pergunta Joel com a voz trêmula.

Ergo o olhar e vejo a água logo abaixo. O rio parece se mover, sua água é escura e profunda. As lembranças do barco dos meus pais vêm como um soco no peito: o casco rachando, a água invadindo, os gritos.

— A... a água... — murmuro, com a voz falhando.

Joel segura meu rosto com firmeza, me obrigando a encará-lo.

— Amor, escuta. Pela porta de trás. Vamos sair por ela. — Ele respira fundo. — Você consegue, estrela da cozinha.

Fecho os olhos, tentando controlar a respiração. Meu corpo inteiro treme.

Começo a me arrastar para o banco de trás.

— Estou logo atrás de você, amor — diz Joel.

Engatinho até o banco traseiro, abro a porta e consigo sair do carro.

— Joel — digo, esticando a mão para ele.

De repente, ouço o barulho do carro se aproximando em alta velocidade. O impacto vem logo em seguida. O carro bate com força no veículo de Joel, empurrando-o para frente.

— Joel, sai daí! — grito, em desespero, tentando puxá-lo.

Mas é tarde demais.

O carro avança e despenca da ponte, levando Joel consigo.

— JOEL! — grito com todas as forças que ainda me restam.

O carro simplesmente dá ré... e vai embora.

Vejo o carro cair de lado na água.

— Ariel, chama ajuda! — grita Joel, apavorado, enquanto o veículo começa a afundar.

— Socorro! — corro para o meio da pista. — Alguém me ajuda!

Olho em volta. Não passa ninguém. A estrada está completamente deserta.

— Ariel, socorro! — a voz de Joel ecoa, cada vez mais fraca.

— Joel! — grito, correndo de volta para a beira da ponte.

O carro afunda ainda mais. Joel se debate na água.

— Aguenta firme! Eu... eu tô indo! — digo, mesmo sem acreditar nas próprias palavras.

Dou um passo à frente, tentando me atirar no rio.

Mas meu corpo não obedece.

Minhas pernas travam. Meu peito aperta. O ar parece desaparecer. É como se a água me puxasse apenas com o olhar.

Joel se debate mais uma vez... e começa a afundar.

Ele está se afogando.

Ele some.

As imagens do barco dos  meus  pais  afundando invadem minha mente com violência. A água engolindo tudo. O desespero. A impotência.

Minhas pernas tremem tanto que mal consigo ficar de pé.

Eu não consigo.

Eu não consigo entrar na água.

#romanceviral

Thoughts

  • Tiao

    A subchefe segurando a mão dele e o garçom parado na frente da porta. Patrão que tem funcionário assim fez alguma coisa certa.

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  • PatriciaNeves

    O carro que deu ré e foi embora não foi acidente nenhum. Alguém sabia que eles iam atravessar aquela ponte de manhã, e eu boto o Augusto nessa conta, ou alguém pago por ele.

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