Segunda-feira, 23 de março de 2026
Meu celular apita sem parar. Quando olho, são dezenas de mensagens de ódio direcionadas a mim. Há também ameaças de morte. A maioria vem de fãs do Augusto Prado, dizendo que eu vou pagar pelo que fiz a ele.
— Como esse cara pode fazer isso? Que idiota — diz a subchefe, revoltada.
— Chefe, divulgue as imagens das câmeras de segurança — sugere um dos garçons. — Dá pra ver e ouvir toda a verdade.
— Infelizmente, vou ter que fazer isso — digo, pensativo. — O Augusto falou coisas terríveis... e isso pode acabar com a carreira dele.
— Ele devia ter pensado nisso antes de sair espalhando mentiras — rebate a subchefe, indignada.
De repente, gritos começam a vir de fora do restaurante.
— Justiça! Justiça! — ecoam vozes em coro.
— Isso não é nada bom — diz um dos garçons, olhando pela vidraça. — Tem um monte de gente lá fora.
Vou até a janela e vejo um grupo de cerca de dez pessoas. Alguns seguram barras de ferro.
— Você vai pagar pelo que fez ao Augusto! — grita uma mulher revoltada ao me ver.
— Gente como você não devia existir entre nós — diz um homem, começando a caminhar na minha direção.
— Eu não sei por que ele disse aquilo, mas é mentira — digo, firme, apesar do medo. — Eu não fiz nada com ele. Na verdade, foi ele quem tentou me agarrar à força.
— Vamos calar esse viado para sempre! — grita o homem, apontando a barra de ferro para mim.
Meu sangue gela. Eles vão me agredir. É isso mesmo?
— O chefe é a verdadeira vítima! — grita um dos garçons. — Ele não tentou agarrar ninguém!
— Nós vamos provar tudo com as imagens das câmeras de segurança e mostrar quem é o verdadeiro assediador — afirma a subchefe.
Meu corpo treme. Não consigo dizer mais nada. As pessoas começam a se aproximar. Eles não querem saber da verdade. Só querem alguém para atacar.
— Vem, chefe — diz a subchefe, segurando minha mão com força. — Vamos nos esconder na cozinha até a polícia chegar.
Todos corremos. A porta é trancada às pressas.
— A polícia está a caminho — diz um dos garçons, com o celular na mão.
Do lado de fora, os gritos aumentam. Logo, começam a chutar a porta.
— Abre logo essa porta! — berram, enquanto os impactos ecoam pelo ambiente.
Consigo vê-los através do vidro. Os olhos estão cheios de ódio. Minhas pernas falham, e eu caio de joelhos no chão.
— Não se preocupe, chefe — diz a subchefe, firme. — Nós não vamos deixar ninguém machucar você.
Todos se posicionam à minha frente.
Então ouço o estalo seco da porta cedendo.
— Saiam da frente! — grita o homem.
— Se quiserem machucar o chefe, vão ter que passar por cima de mim primeiro — diz um dos garçons, firme, posicionando-se à minha frente.
De repente, escuto o som das sirenes da polícia.
— A polícia tá aí! Vamos embora! — grita um deles, desesperado.
O grupo tenta recuar, mas antes que consigam fugir, a polícia bloqueia a porta.
— Parados! — escuto a voz autoritária de um policial.
Ouvir a voz da polícia me traz um grande alívio, e não consigo conter as lágrimas.
— Já passou, chefe — diz a subchefe, abaixando-se para me abraçar.
Logo, todos se aproximam e me envolvem em um abraço coletivo, como se quisessem garantir que eu estava seguro.
O grupo é preso e levado para a delegacia. Depois de me acalmar, estou agora em frente ao computador, procurando as filmagens daquele dia.
Augusto Prado, você vai se arrepender por ter inventado essas mentiras. Eu vou mostrar a todos a verdade.
Depois de um tempo procurando, finalmente encontro o arquivo.
Dou play.
— Meu Deus... — murmura um dos funcionários, levando a mão à boca.
Na tela, Augusto aparece claramente alterado.
— Quem você pensa que é para me rejeitar? Pessoas como eu não recebem "não" como resposta — diz Augusto, com arrogância.
— Olha isso... ele tá se achando dono do mundo, — comenta outro, indignado.
— Pois eu vou ser o primeiro — respondo no vídeo, mantendo a postura. — Eu não tenho vontade nenhuma de sair com o senhor.
Augusto aperta a mandíbula.
— Por acaso você estava falando sério naquele dia? — provoca. — Você prefere sair com aquele doutor quatro-olhos em vez de mim?
— Que cara nojento... — rosna a Subchefe.
— Sim — respondo, sem pensar duas vezes. — E, como eu disse naquele dia, eu não saio com pessoas que se acham melhores do que as outras.
— E quando eu sair daqui, vou me encontrar com o doutor Martins — acrescento, firme.
Augusto ri, sem humor.
— Você só pode estar brincando... ou é maluco. Como prefere sair com aquele cara? Eu sou perfeito. Tenho um corpo que faz qualquer um suspirar.
— Que cara Arrogante — diz um dos garçons, balançando a cabeça.
— Antes de me envolver com o Joel, eu só me envolvia com pessoas como você — digo no vídeo, pensativo. — Padrões arrogantes que se acham melhores do que os outros.
Encaro Augusto com firmeza.
— E eu não vou deixar que você diminua o doutor Martins. Ele não é feio e muito menos inferior a você.
— Não acredito que isso seja verdade — diz Augusto, incrédulo. — Você não pode estar interessado naquele doutor.
— Estou, sim — respondo, sem hesitar.
O silêncio na sala é pesado.
Respiro fundo no vídeo antes de completar:
— Agora, por favor, vá embora. Eu preciso fechar o restaurante.
O olhar de Augusto escurece.
— Olha aqui... ninguém me rejeita — diz ele, furioso, segurando meus ombros com força.
— Você está me machucando. Me larga! — digo, tentando me soltar.
— Desgraçado... — grita a Subchefe, com ódio.
— Você vai aceitar sair comigo — ele insiste, tentando se aproximar do meu rosto.
— Não! — respondo, desviando.
— E vai ser eu quem vai te rejeitar quando eu me cansar de você — diz ele, segurando meu rosto com brutalidade.
— Socorro! — grito, desesperado, ao ver seu rosto se aproximar do meu.
— Chefe, esse vídeo é perfeito para provar a verdade. Todo mundo vai ver que o senhor mudou em relação ao doutor Martins — diz a subchefe.
Pego meu celular e respiro fundo antes de começar a gravar.
— Oi, gente. Sei que está todo mundo pensando o pior de mim — digo assim que inicio a gravação.
Respiro fundo mais uma vez.
— Este é o meu primeiro pronunciamento depois de tudo o que aconteceu.
— Em relação às coisas que eu disse ao doutor Martins, não há desculpa para o que fiz. Eu fui horrível com ele. Logo depois do ocorrido, me arrependi profundamente, fui procurá-lo e pedi perdão.
— O Joel me ensinou muitas coisas. Aprendi que o amor não é só aparência física. E não, eu não estou dizendo que o doutor é feio. O doutor Martins é lindo por dentro e por fora — digo, com um sorriso carinhoso.
— Confesso que antes eu era arrogante, sim. Mas hoje eu evoluí e me tornei uma pessoa melhor graças ao doutor Martins — completo.
— Quanto ao Augusto Prado, vou deixar que vocês vejam por conta própria — digo, apontando o celular para a tela do computador. — Vejam o que realmente aconteceu e tirem suas próprias conclusões.
Antes de encerrar, dou play no vídeo.
Depois de terminar a gravação, publico o vídeo em todas as minhas redes sociais.
— Você foi incrível, chefe — diz a subchefe, me abraçando.
Logo em seguida, todos os meus funcionários se aproximam e me abraçam em conjunto.
Meu vídeo viraliza em questão de minutos, e logo começo a receber diversas mensagens de apoio. As pessoas já não estão mais me atacando.
— Chefe, estão detonando o Augusto Prado nas redes sociais — diz a subchefe, mexendo no celular.
— Bem feito para ele. Agora que lide com as consequências dos próprios atos — comenta um dos garçons.
— Tá bom, pessoal, vamos seguir em frente. Precisamos limpar toda essa bagunça que os vândalos fizeram — digo, levantando-me. — Daqui a pouco o pessoal chega para colocar a nova vidraça.
Começamos a arrumar tudo. De repente, escuto o barulho de carros parando em frente ao restaurante. Quando vou ver, me assusto: são carros de repórteres. Muitos deles.
Assim que me veem, se aglomeram ao meu redor. Todos querem uma entrevista. A pergunta é sempre a mesma: se eu vou denunciar Augusto Prado por assédio.
São tantas câmeras e luzes apontadas para o meu rosto que mal consigo manter os olhos abertos.
Não aguentei a pressão dos repórteres. Eles estavam em todos os lugares: no restaurante, na frente do meu condomínio... Acabei fugindo para o interior, para a casa da minha avó. Joel aproveitou e veio comigo para ver minha avó e minha irmã. Agora estamos todos diante delas.
— A senhora não mudou nada, continua linda — diz Joel, olhando para minha avó.
— Obrigada, meu filho — responde minha avó, toda tímida. — Você continua o mesmo de sempre.
— Não acredito que você finalmente conquistou o senhor gelo — provoca minha irmã.
— Não exagera, né — digo, incrédulo.
— Tá, agora mudando de assunto... por que você não me contou o que aquele ator fez com você? — pergunta minha avó, me encarando com firmeza.
— Se eu tivesse contado, vocês iam me obrigar a denunciá-lo — respondo.
— E seria o certo — diz minha irmã, arqueando uma sobrancelha.
— Eu só queria evitar toda essa dor de cabeça — digo, com a voz cansada.
— Está bem, meu filho. Mas, por favor, não nos esconda uma coisa dessas de novo — pede minha avó.
— Sim, vovó — respondo, de cabeça baixa.
Terça-feira, 24 de março de 2026
É de manhã, e estamos voltando para a cidade. Conforme o carro de Joel se aproxima da ponte que atravessa o rio, meu peito começa a apertar. Levo a mão ao rosto e cubro os olhos, como se isso pudesse afastar o medo.
— Já vai passar, amor. Estamos quase atravessando — diz Joel, tentando me acalmar.
De repente, um impacto violento atinge o carro.
— O que foi isso?! — Joel grita, desesperado, tentando manter o controle do volante.
O carro derrapa e bate com força na barreira de proteção da ponte. O metal se parte, e parte do carro fica pendurada para fora, sobre o vazio.
— Haaaagh! — solto um grito puro de pânico.
— Amor, você está bem? Se machucou? — pergunta Joel com a voz trêmula.
Ergo o olhar e vejo a água logo abaixo. O rio parece se mover, sua água é escura e profunda. As lembranças do barco dos meus pais vêm como um soco no peito: o casco rachando, a água invadindo, os gritos.
— A... a água... — murmuro, com a voz falhando.
Joel segura meu rosto com firmeza, me obrigando a encará-lo.
— Amor, escuta. Pela porta de trás. Vamos sair por ela. — Ele respira fundo. — Você consegue, estrela da cozinha.
Fecho os olhos, tentando controlar a respiração. Meu corpo inteiro treme.
Começo a me arrastar para o banco de trás.
— Estou logo atrás de você, amor — diz Joel.
Engatinho até o banco traseiro, abro a porta e consigo sair do carro.
— Joel — digo, esticando a mão para ele.
De repente, ouço o barulho do carro se aproximando em alta velocidade. O impacto vem logo em seguida. O carro bate com força no veículo de Joel, empurrando-o para frente.
— Joel, sai daí! — grito, em desespero, tentando puxá-lo.
Mas é tarde demais.
O carro avança e despenca da ponte, levando Joel consigo.
— JOEL! — grito com todas as forças que ainda me restam.
O carro simplesmente dá ré... e vai embora.
Vejo o carro cair de lado na água.
— Ariel, chama ajuda! — grita Joel, apavorado, enquanto o veículo começa a afundar.
— Socorro! — corro para o meio da pista. — Alguém me ajuda!
Olho em volta. Não passa ninguém. A estrada está completamente deserta.
— Ariel, socorro! — a voz de Joel ecoa, cada vez mais fraca.
— Joel! — grito, correndo de volta para a beira da ponte.
O carro afunda ainda mais. Joel se debate na água.
— Aguenta firme! Eu... eu tô indo! — digo, mesmo sem acreditar nas próprias palavras.
Dou um passo à frente, tentando me atirar no rio.
Mas meu corpo não obedece.
Minhas pernas travam. Meu peito aperta. O ar parece desaparecer. É como se a água me puxasse apenas com o olhar.
Joel se debate mais uma vez... e começa a afundar.
Ele está se afogando.
Ele some.
As imagens do barco dos meus pais afundando invadem minha mente com violência. A água engolindo tudo. O desespero. A impotência.
Minhas pernas tremem tanto que mal consigo ficar de pé.
Eu não consigo.
Eu não consigo entrar na água.