Quinta-feira, 09 de abril de 2026
É de manhã. Acabei de coar o café e estou conversando com o Wei sobre o comportamento estranho do Joel, que ontem estava um pouco frio e distante.
— Eu nunca o vi assim — diz Wei, incrédulo.
De repente, alguém bate à porta.
— Falando nele? — digo, indo até a porta. — Cara, você vai demorar a morrer? A gente estava... — acrescento enquanto abro a porta, mas levo um susto. Não é o Joel. É o pai do Wei.
— Senhor Chen! — digo, assustado.
— Bom dia — diz o senhor Chen, entrando.
— E aí, cara, você finalmente acabou o trabalho com o doutor Prado? — pergunta Wei, da cozinha.
— "E aí"? — repete o senhor Chen, incrédulo. — Que vocabulário mais informal.
— Papai... — diz Wei, chocado ao ver o pai. — Por que não me disse que estava vindo para o Brasil?
— Eu sou seu pai. É você quem me deve satisfações — rebate ele.
— Sente-se, senhor — digo, puxando a cadeira.
— Vocês dois ainda estão brincando de morar juntos? — pergunta o senhor Chen, incrédulo, enquanto se senta. — Você já tem 31 anos, filho. Já era para estar casado.
— Querer, eu quero... — diz Wei, frustrado, de cabeça baixa. — Mas as mulheres sempre fogem de mim antes mesmo de eu tocar no assunto.
— Por isso estou aqui. Como sempre, tenho que resolver as coisas por você — diz o senhor Chen.
— O que o senhor quer dizer? — pergunta Wei, confuso.
— Encontrei uma noiva ideal para você. Ela te conhece e admira o seu trabalho. Tenho certeza de que vão se dar bem — diz o senhor Chen.
— Sério? — diz Wei, animado. — Como é o nome dela?
Ouvir isso dói no meu coração, mas não entendo o porquê. Eu deveria estar feliz pelo meu amigo.
— O nome dela é Li Maya. O pai dela é um velho amigo meu de negócios — diz o senhor Chen.
— Mas será que ela vai gostar de mim? — pergunta Wei, receoso.
— Ela é microbiologista e acabou de se mudar para a cidade. Na verdade, tudo isso foi a pedido dela. Foi ela quem pediu ao pai para arranjar um encontro com você — explica o senhor Chen.
— Conte mais — diz Wei, animado.
— Vocês vão almoçar juntos hoje, ao meio-dia. Organize-se no laboratório para sair nesse horário — diz o senhor Chen.
Posso estar sendo egoísta, mas não quero que ele se case. O fato do Wei se casar está me deixando louco.
— Está bem, papai. Vou me organizar então — diz Wei, animado, enquanto se levanta. — Vamos logo para o laboratório, precisamos nos adiantar — acrescenta, correndo para o banheiro.
— Quanto a você, rapaz, trate de encontrar outro lugar para morar — diz o senhor Chen, levantando-se. — Assim que o Wei ficar noivo, a Maya pretende vir morar aqui com ele. — Ele caminha até a porta e completa: — Não dá para morarem os três juntos, não é?
Não demora muito para irmos ao laboratório. Wei fica contando os minutos até o meio-dia. Quando dá 11h30, ele sai correndo.
Estou conversando com o Ariel pelo celular, e ele não está nada bem. Por isso, vou almoçar com ele.
— Amigo, o Joel não me ama mais! — diz Ariel, com a voz trêmula, enquanto me abraça.
— Ariel, se acalme. Não se precipite — digo, ainda chocado com o que ele me disse.
— Não estou me precipitando. Foi o próprio Joel que me disse — responde Ariel, segurando o choro.
— O quê? — grito, incrédulo.
— Ele falou que não sente mais a minha falta e que o coração dele não aquece quando está ao meu lado — diz Ariel, com a voz trêmula.
— Ele enlouqueceu de vez depois daquela bolada — digo, ainda sem acreditar.
— Acho que a bolada fez o Joel parar de me amar — diz Ariel, desesperado.
— Talvez, com a pancada, os sentimentos dele tenham sido trancados — digo, pensativo.
— Já sei o que vou fazer! — diz Ariel, levantando-se de repente. — Se eu der uma bolada bem na cara dele, talvez ele volte ao normal — acrescenta, esperançoso.
— Acho que isso não vai dar certo! — digo, alarmado.
— Vai sim. E você vai me ajudar — afirma Ariel.
Os olhos do Ariel estão brilhando. Meu Deus... ele está mesmo decidido a dar essa bolada no Joel.
Volto ao laboratório e me deparo com o Wei. Ele está todo sorridente.
— Pela sua cara, foi perfeito, né? — digo, incrédulo.
— Cara, acho que estou apaixonado. Ela é linda e muito fofa — diz Wei, todo bobo.
— E ela gostou de você? — pergunto, apreensivo.
— Ela está totalmente na minha. É a primeira vez que uma mulher não boceja quando eu falo sobre mim — diz Wei, animado.
Olho para ele e... nossa, ele está apaixonado. E o melhor: é amor correspondido. Ele finalmente achou sua metade da laranja. Mas por que eu não estou me sentindo bem com essa ideia?
Estou incomodado com o fato de ele dormir com outra pessoa além de mim. Peraí... eu estou com ciúme? É isso mesmo? Não. Eu não posso estar com ciúme do Wei. Só estou carente, afinal, não estou namorando ninguém.
— Bom, acho melhor começar a empacotar minhas coisas, então — digo, pensativo.
— Peraí... que papo é esse? — diz Wei, incrédulo.
— É a realidade. Você vai querer morar com sua noiva — respondo.
— Não diz isso, cara — diz Wei, com a voz triste.
— É verdade. Você vai se casar e vai precisar de privacidade com a sua mulher — digo, de cabeça baixa.
— Mas a gente mora junto desde a faculdade — diz Wei, alarmado.
— Acho que chegou o momento de a gente seguir caminhos diferentes — digo, olhando para ele.
Wei apenas me encara, chocado, e depois desvia o olhar, focando no equipamento à sua frente.
— Vamos dar início ao teste — diz Wei.
Então começamos a testar o equipamento. Wei não toca mais no assunto. Conversamos apenas sobre o experimento, e ele fica um pouco distante.
Eu entendo. O fato de não morarmos mais juntos também me abala. Moramos juntos há doze anos. Começamos quando entramos na faculdade de Física.
É de noite, e o Ariel me mandou mensagem. Ele está vindo com o Joel. O plano é simples — e completamente insano: o Joel deve levar uma bolada na cara assim que passar pelo corredor.
Não acho isso uma boa ideia. De forma alguma. Mas o Ariel, de algum jeito, conseguiu me convencer a participar dessa maluquice. Agora estou escondido atrás de uma planta enorme, segurando uma bola de futebol como se fosse um experimento científico mal supervisionado.
Observo atento e logo vejo o Joel e o Ariel se aproximando. Respiro fundo e começo a calcular.
Distância aproximada: oito metros.
Ângulo ideal: quarenta e cinco graus.
Força aplicada: suficiente para gerar uma velocidade inicial capaz de atingir o alvo... sem matar ninguém, espero.
Se eu considerar a equação do movimento oblíquo — desprezando a resistência do ar, porque né, isso aqui já é loucura demais — a trajetória está perfeita. Se eu chutar nessa direção, a bola vai acertar em cheio o rosto do Joel. Bem no mesmo ponto onde ele levou a última bolada.
Vou acreditar na teoria do Ariel: essa pancada vai religar as emoções dele. Ciência não explica tudo... mas vai que.
Faço o cálculo final na cabeça e espero o momento exato.
— Vai, bola... traz meu amigo de volta ao normal — murmuro antes de dar uma bicuda digna de um artigo científico mal-intencionado.
Como planejado, a bola acerta em cheio o rosto do Joel. O impacto é tão preciso que chega a ser assustador. Ele é lançado para trás e cai no chão.
Corro imediatamente até eles. Joel está desacordado.
— Você chutou com muita força! — diz Ariel, desesperado. — Amor! — acrescenta, sacudindo o Joel.
— Vish... ele apagou mesmo — digo, apreensivo, ao ver o Joel com a língua meio caída para fora. — Talvez eu tenha errado na variável "força aplicada".
— Amor, por favor, reage! — implora Ariel. — Vamos levá-lo ao hospital!
— Ai... minha cabeça... — murmura Joel, com dificuldade.
— Você está bem? — pergunta Ariel, ajudando-o a se sentar.
— Foi tão rápido que eu nem vi o que me atingiu — diz Joel, incrédulo, levando a mão ao rosto.
— É que... tinha uns meninos jogando bola aqui no corredor — digo, sem graça, coçando a nuca.
— E o que você está sentindo? — pergunta Ariel, ansioso. — Acha que mudou alguma coisa?
Joel estreita os olhos e nos encara.
— Isso foi coisa de vocês dois, né? — diz, desconfiado.
— Não! Jamais! — responde Ariel rápido demais, desviando o olhar.
— Eu devia mandar prender vocês dois por tentativa de assassinato — diz Joel, incrédulo, enquanto se levanta com cuidado.
— Desculpa, amor... — diz Ariel, com a voz trêmula. — Eu estava desesperado. Eu precisava testar isso, ver se funcionaria.
— Eu tô indo pra casa — diz Joel, seco.
— Mas a gente não ia jantar juntos? — pergunta Ariel, segurando a mão dele.
— Perdi a vontade — responde Joel, puxando a mão de volta. — Amanhã a gente se vê — acrescenta antes de ir embora.
Observo o Joel se afastar pelo corredor.
— O plano deu errado — diz Ariel, frustrado.
— Eu avisei que não era uma boa ideia — digo, cruzando os braços.
Ariel suspira fundo e me encara.
— Quer jantar comigo? — pergunta.
— Quero sim. Estou morrendo de fome — respondo, apertando o estômago.
— Então vamos — diz Ariel, colocando o braço sobre meu ombro. — Bora chamar o Wei.
— Bora só nós dois mesmo — digo, pensativo.
— Ué, por quê? — Ariel pergunta, confuso.
— Tem uma coisa que eu preciso conversar com você — respondo.
Seguimos para o apartamento do Ariel. Não demora muito, já estamos sentados à mesa, comendo em silêncio por alguns minutos.
— Rafael... o que eu vou fazer? — diz Ariel, com a voz trêmula. — Essa frieza do Joel tá acabando comigo.
— Você tem que trazer esse amor de volta — digo, com firmeza.
— E como eu vou fazer isso? — pergunta ele, aflito.
— O que o Joel fez por você nesses últimos anos? — questiono.
Ariel pensa por alguns segundos.
— Ele foi insistente... e nunca desistiu de mim — responde, por fim.
— Então é isso — digo, com convicção — É exatamente isso que você precisa fazer agora. Conquistá-lo de novo. Aquecer o coração dele.
Os olhos de Ariel brilham levemente.
— Você tem razão... — diz, esperançoso. — Se eu trouxer de volta os sentimentos do Joel, talvez o antigo eu dele volte também.
— Eu espero mesmo que dê tudo certo — digo, abrindo um pequeno sorriso.
No fundo, torço para que dessa vez não precisemos de mais nenhuma teoria maluca... nem de bolas voando em direção a rostos inocentes.
De repente, meu celular toca. É o Wei. Simplesmente coloco no silencioso e viro o aparelho para baixo.
— Você não vai atender? — pergunta Ariel, chocado.
— Não — respondo, desviando o olhar.
— O que você queria me contar? — insiste. — É sobre o Wei? É por isso que você não queria que ele viesse?
Respiro fundo, sentindo o peito apertar.
— Eu sou bi — digo, firme, apesar do nó na garganta.
— O quê? — Ariel diz, chocado, quase se engasgando.
— Desculpa por nunca ter te contado — acrescento, abaixando a cabeça.
— Ei... está tudo bem — diz Ariel, segurando minha mão com cuidado.
As palavras pesam, mas já não dá mais para segurá-las.
— Hoje eu me dei conta de que tenho sentimentos românticos pelo Wei — confesso.
— Ai, meu Deus... — murmura Ariel, incrédulo. — Tem mais alguma coisa chocante que eu ainda não saiba?
Não consigo segurar. As lágrimas começam a cair.
— A gente estava tendo uma amizade colorida... e eu nem sei ao certo quando comecei a gostar dele — digo, chorando. — Eu fui um idiota. Como eu pude me apaixonar pelo meu melhor amigo?
— Tá tudo bem, Rafael — diz Ariel, me abraçando com força. — Ninguém escolhe por quem vai se apaixonar.
Agarro-me a ele, como se fosse meu único apoio.
— Ele vai se casar, Ariel — digo, com a voz falhando. — É minha obrigação, como amigo, ficar feliz por ele... mas eu não consigo. — Aperto o abraço. — Por favor, não me ache um ser humano horrível.
— Você não é uma pessoa ruim — responde Ariel com firmeza. — Você só está apaixonado.
Apaixonado...
Logo pelo Wei.
Eu só queria que tudo voltasse a ser como antes. Talvez, se eu levasse uma bolada na cara... talvez esses sentimentos se trancassem de novo. Sentimentos que nunca deveriam ter escapado.