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Teoria nº 20: Emoções Reprimidas

hyan_amorim

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Quinta-feira, 09 de abril de 2026

É de manhã. Acabei de coar o café e estou conversando com o Wei sobre o comportamento estranho do Joel, que ontem estava um pouco frio e distante.

— Eu nunca o vi assim — diz Wei, incrédulo.

De repente, alguém bate à porta.

— Falando nele? — digo, indo até a porta. — Cara, você vai demorar a morrer? A gente estava... — acrescento enquanto abro a porta, mas levo um susto. Não é o Joel. É o pai do Wei.

— Senhor Chen! — digo, assustado.

— Bom dia — diz o senhor Chen, entrando.

— E aí, cara, você finalmente acabou o trabalho com o doutor Prado? — pergunta Wei, da cozinha.

— "E aí"? — repete o senhor Chen, incrédulo. — Que vocabulário mais informal.

— Papai... — diz Wei, chocado ao ver o pai. — Por que não me disse que estava vindo para o Brasil?

— Eu sou seu pai. É você quem me deve satisfações — rebate ele.

— Sente-se, senhor — digo, puxando a cadeira.

— Vocês dois ainda estão brincando de morar juntos? — pergunta o senhor Chen, incrédulo, enquanto se senta. — Você já tem 31  anos, filho. Já era para estar casado.

— Querer, eu quero... — diz Wei, frustrado, de cabeça baixa. — Mas as mulheres sempre fogem de mim antes mesmo de eu tocar no assunto.

— Por isso estou aqui. Como sempre, tenho que resolver as coisas por você — diz o senhor Chen.

— O que o senhor quer dizer? — pergunta Wei, confuso.

— Encontrei uma noiva ideal para você. Ela te conhece e admira o seu trabalho. Tenho certeza de que vão se dar bem — diz o senhor Chen.

— Sério? — diz Wei, animado. — Como é o nome dela?

Ouvir isso dói no meu coração, mas não entendo o porquê. Eu deveria estar feliz pelo meu amigo.

— O nome dela é Li Maya. O pai dela é um velho amigo meu de negócios — diz o senhor Chen.

— Mas será que ela vai gostar de mim? — pergunta Wei, receoso.

— Ela é microbiologista e acabou de se mudar para a cidade. Na verdade, tudo isso foi a pedido dela. Foi ela quem pediu ao pai para arranjar um encontro com você — explica o senhor Chen.

— Conte mais — diz Wei, animado.

— Vocês vão almoçar juntos hoje, ao meio-dia. Organize-se no laboratório para sair nesse horário — diz o senhor Chen.

Posso estar sendo egoísta, mas não quero que ele se case. O fato do Wei se casar está me deixando louco.

— Está bem, papai. Vou me organizar então — diz Wei, animado, enquanto se levanta. — Vamos logo para o laboratório, precisamos nos adiantar — acrescenta, correndo para o banheiro.

— Quanto a você, rapaz, trate de encontrar outro lugar para morar — diz o senhor Chen, levantando-se. — Assim que o Wei ficar noivo, a Maya pretende vir morar aqui com ele. — Ele caminha até a porta e completa: — Não dá para morarem os três juntos, não é?

Não demora muito para irmos ao laboratório. Wei fica contando os minutos até o meio-dia. Quando dá 11h30, ele sai correndo.

Estou conversando com o Ariel pelo celular, e ele não está nada bem. Por isso, vou almoçar com ele.

— Amigo, o Joel não me ama mais! — diz Ariel, com a voz trêmula, enquanto me abraça.

— Ariel, se acalme. Não se precipite — digo, ainda chocado com o que ele me disse.

— Não estou me precipitando. Foi o próprio Joel que me disse — responde Ariel, segurando o choro.

— O quê? — grito, incrédulo.

— Ele falou que não sente mais a minha falta e que o coração dele não aquece quando está ao meu lado — diz Ariel, com a voz trêmula.

— Ele enlouqueceu de vez depois daquela bolada — digo, ainda sem acreditar.

— Acho que a bolada fez o Joel parar de me amar — diz Ariel, desesperado.

— Talvez, com a pancada, os sentimentos dele tenham sido trancados — digo, pensativo.

— Já sei o que vou fazer! — diz Ariel, levantando-se de repente. — Se eu der uma bolada bem na cara dele, talvez ele volte ao normal — acrescenta, esperançoso.

— Acho que isso não vai dar certo! — digo, alarmado.

— Vai sim. E você vai me ajudar — afirma Ariel.

Os olhos do Ariel estão brilhando. Meu Deus... ele está mesmo decidido a dar essa bolada no Joel.

Volto ao laboratório e me deparo com o Wei. Ele está todo sorridente.

— Pela sua cara, foi perfeito, né? — digo, incrédulo.

— Cara, acho que estou apaixonado. Ela é linda e muito fofa — diz Wei, todo bobo.

— E ela gostou de você? — pergunto, apreensivo.

— Ela está totalmente na minha. É a primeira vez que uma mulher não boceja quando eu falo sobre mim — diz Wei, animado.

Olho para ele e... nossa, ele está apaixonado. E o melhor: é amor correspondido. Ele finalmente achou sua metade da laranja. Mas por que eu não estou me sentindo bem com essa ideia?

Estou incomodado com o fato de ele dormir com outra pessoa além de mim. Peraí... eu estou com ciúme? É isso mesmo? Não. Eu não posso estar com ciúme do Wei. Só estou carente, afinal, não estou namorando ninguém.

— Bom, acho melhor começar a empacotar minhas coisas, então — digo, pensativo.

— Peraí... que papo é esse? — diz Wei, incrédulo.

— É a realidade. Você vai querer morar com sua noiva — respondo.

— Não diz isso, cara — diz Wei, com a voz triste.

— É verdade. Você vai se casar e vai precisar de privacidade com a sua mulher — digo, de cabeça baixa.

— Mas a gente mora junto desde a faculdade — diz Wei, alarmado.

— Acho que chegou o momento de a gente seguir caminhos diferentes — digo, olhando para ele.

Wei apenas me encara, chocado, e depois desvia o olhar, focando no equipamento à sua frente.

— Vamos dar início ao teste — diz Wei.

Então começamos a testar o equipamento. Wei não toca mais no assunto. Conversamos apenas sobre o experimento, e ele fica um pouco distante.

Eu entendo. O fato de não morarmos mais juntos também me abala. Moramos juntos há doze anos. Começamos quando entramos na faculdade de Física.

É de noite, e o Ariel me mandou mensagem. Ele está vindo com o Joel. O plano é simples — e completamente insano: o Joel deve levar uma bolada na cara assim que passar pelo corredor.

Não acho isso uma boa ideia. De forma alguma. Mas o Ariel, de algum jeito, conseguiu me convencer a participar dessa maluquice. Agora estou escondido atrás de uma planta enorme, segurando uma bola de futebol como se fosse um experimento científico mal supervisionado.

Observo atento e logo vejo o Joel e o Ariel se aproximando. Respiro fundo e começo a calcular.

Distância aproximada: oito metros.

Ângulo ideal: quarenta e cinco graus.

Força aplicada: suficiente para gerar uma velocidade inicial capaz de atingir o alvo... sem matar ninguém, espero.

Se eu considerar a equação do movimento oblíquo — desprezando a resistência do ar, porque né, isso aqui já é loucura demais — a trajetória está perfeita. Se eu chutar nessa direção, a bola vai acertar em cheio o rosto do Joel. Bem no mesmo ponto onde ele levou a última bolada.

Vou acreditar na teoria do Ariel: essa pancada vai religar as emoções dele. Ciência não explica tudo... mas vai que.

Faço o cálculo final na cabeça e espero o momento exato.

— Vai, bola... traz meu amigo de volta ao normal — murmuro antes de dar uma bicuda digna de um artigo científico mal-intencionado.

Como planejado, a bola acerta em cheio o rosto do Joel. O impacto é tão preciso que chega a ser assustador. Ele é lançado para trás e cai no chão.

Corro imediatamente até eles. Joel está desacordado.

— Você chutou com muita força! — diz Ariel, desesperado. — Amor! — acrescenta, sacudindo o Joel.

— Vish... ele apagou mesmo — digo, apreensivo, ao ver o Joel com a língua meio caída para fora. — Talvez eu tenha errado na variável "força aplicada".

— Amor, por favor, reage! — implora Ariel. — Vamos levá-lo ao hospital!

— Ai... minha cabeça... — murmura Joel, com dificuldade.

— Você está bem? — pergunta Ariel, ajudando-o a se sentar.

— Foi tão rápido que eu nem vi o que me atingiu — diz Joel, incrédulo, levando a mão ao rosto.

— É que... tinha uns meninos jogando bola aqui no corredor — digo, sem graça, coçando a nuca.

— E o que você está sentindo? — pergunta Ariel, ansioso. — Acha que mudou alguma coisa?

Joel estreita os olhos e nos encara.

— Isso foi coisa de vocês dois, né? — diz, desconfiado.

— Não! Jamais! — responde Ariel rápido demais, desviando o olhar.

— Eu devia mandar prender vocês dois por tentativa de assassinato — diz Joel, incrédulo, enquanto se levanta com cuidado.

— Desculpa, amor... — diz Ariel, com a voz trêmula. — Eu estava desesperado. Eu precisava testar isso, ver se funcionaria.

— Eu tô indo pra casa — diz Joel, seco.

— Mas a gente não ia jantar juntos? — pergunta Ariel, segurando a mão dele.

— Perdi a vontade — responde Joel, puxando a mão de volta. — Amanhã a gente se vê — acrescenta antes de ir embora.

Observo o Joel se afastar pelo corredor.

— O plano deu errado — diz Ariel, frustrado.

— Eu avisei que não era uma boa ideia — digo, cruzando os braços.

Ariel suspira fundo e me encara.

— Quer jantar comigo? — pergunta.

— Quero sim. Estou morrendo de fome — respondo, apertando o estômago.

— Então vamos — diz Ariel, colocando o braço sobre meu ombro. — Bora chamar o Wei.

— Bora só nós dois mesmo — digo, pensativo.

— Ué, por quê? — Ariel pergunta, confuso.

— Tem uma coisa que eu preciso conversar com você — respondo.

Seguimos para o apartamento do Ariel. Não demora muito, já estamos sentados à mesa, comendo em silêncio por alguns minutos.

— Rafael... o que eu vou fazer? — diz Ariel, com a voz trêmula. — Essa frieza do Joel tá acabando comigo.

— Você tem que trazer esse amor de volta — digo, com firmeza.

— E como eu vou fazer isso? — pergunta ele, aflito.

— O que o Joel fez por você nesses últimos anos? — questiono.

Ariel pensa por alguns segundos.

— Ele foi insistente... e nunca desistiu de mim — responde, por fim.

— Então é isso — digo, com convicção — É exatamente isso que você precisa fazer agora. Conquistá-lo de novo. Aquecer o coração dele.

Os olhos de Ariel brilham levemente.

— Você tem razão... — diz, esperançoso. — Se eu trouxer de volta os sentimentos do Joel, talvez o antigo eu dele volte também.

— Eu espero mesmo que dê tudo certo — digo, abrindo um pequeno sorriso.

No fundo, torço para que dessa vez não precisemos de mais nenhuma teoria maluca... nem de bolas voando em direção a rostos inocentes.

De repente, meu celular toca. É o Wei. Simplesmente coloco no silencioso e viro o aparelho para baixo.

— Você não vai atender? — pergunta Ariel, chocado.

— Não — respondo, desviando o olhar.

— O que você queria me contar? — insiste. — É sobre o Wei? É por isso que você não queria que ele viesse?

Respiro fundo, sentindo o peito apertar.

— Eu sou bi — digo, firme, apesar do nó na garganta.

— O quê? — Ariel diz, chocado, quase se engasgando.

— Desculpa por nunca ter te contado — acrescento, abaixando a cabeça.

— Ei... está tudo bem — diz Ariel, segurando minha mão com cuidado.

As palavras pesam, mas já não dá mais para segurá-las.

— Hoje eu me dei conta de que tenho sentimentos românticos pelo Wei — confesso.

— Ai, meu Deus... — murmura Ariel, incrédulo. — Tem mais alguma coisa chocante que eu ainda não saiba?

Não consigo segurar. As lágrimas começam a cair.

— A gente estava tendo uma amizade colorida... e eu nem sei ao certo quando comecei a gostar dele — digo, chorando. — Eu fui um idiota. Como eu pude me apaixonar pelo meu melhor amigo?

— Tá tudo bem, Rafael — diz Ariel, me abraçando com força. — Ninguém escolhe por quem vai se apaixonar.

Agarro-me a ele, como se fosse meu único apoio.

— Ele vai se casar, Ariel — digo, com a voz falhando. — É minha obrigação, como amigo, ficar feliz por ele... mas eu não consigo. — Aperto o abraço. — Por favor, não me ache um ser humano horrível.

— Você não é uma pessoa ruim — responde Ariel com firmeza. — Você só está apaixonado.

Apaixonado...

Logo pelo Wei.

Eu só queria que tudo voltasse a ser como antes. Talvez, se eu levasse uma bolada na cara... talvez esses sentimentos se trancassem de novo. Sentimentos que nunca deveriam ter escapado.

#romanceviral

Thoughts

  • paginadobrada

    O senhor Chen mandando o Rafael arrumar outro lugar pra morar foi recado com endereço certo. Pai que fala assim na porta já desconfia de alguma coisa entre os dois.

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  • lelezinha

    Eita, o Rafael fazendo conta de ângulo escondido atrás da planta kkkk e ainda errou justo na força. Física aplicada direto na cara do Joel

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