Segunda-feira, 04 de maio de 2026
O fogo começa a se espalhar rapidamente, e eu ainda estou assimilando tudo o que aconteceu. Augusto matou o próprio pai... e nos deixou para trás, eu e Ariel, para morrer. Esse cara está completamente louco.
— Por aqui — digo, pegando a mão de Ariel.
Corremos até a pequena porta. O cadeado ainda não está fraco o suficiente para se romper, mas eu preciso tentar. Pego um pedaço de ferro e começo a bater com força no cadeado.
— Ai, meu Deus... eu não quero morrer — diz Ariel, desesperado.
O calor aumenta a cada segundo. Olho para trás e vejo as chamas se aproximando. Bato com ainda mais força, ignorando a dor nos braços, até que, finalmente, o cadeado se rompe e cai no chão com um estrondo metálico.
— Você conseguiu... — diz Ariel, começando a tossir. O laboratório já está tomado pela fumaça.
Abro a porta rapidamente. Do outro lado, há um pequeno corredor escuro.
— Vai, amor. Você primeiro — digo, tossindo.
Ariel se abaixa e começa a engatinhar pelo corredor estreito. Vou logo atrás. Engatinhamos o mais rápido que conseguimos, tossindo sem parar, enquanto a fumaça invade o espaço atrás de nós. Meus pulmões ardem.
Finalmente, chegamos a outra porta.
Ariel a empurra.
Nós pulamos para fora.
— Conseguimos... — diz ele, ainda tossindo, enquanto a fumaça escapa pela abertura atrás de nós.
Uma luz fraca surge por uma brecha. Caminho ao lado de Ariel e toco na superfície: é uma porta de madeira. Nós a abrimos, e a luz invade tudo de uma vez.
É o jardim da mansão.
Estamos no porão.
— Estamos no jardim da mansão — digo, enquanto subimos apressados as escadas.
— Amor, o que a gente vai fazer? O Augusto matou o próprio pai, e a polícia vai pensar que foi você — diz Ariel, desesperado.
— Não se preocupe com isso — digo, firme.
— Mas por que você não parece nem um pouco preocupado? Tipo... você vai ser acusado de assassinato — insiste Ariel, com a voz trêmula.
— O Augusto cometeu um erro terrível — respondo, mantendo a calma. — Acho que o doutor Prado não explicou tudo sobre a Fórmula Reflex.
— Como assim? — questiona Ariel, confuso.
— A Fórmula Reflex não altera tudo — explico. — Ela muda apenas a aparência superficial: rosto, pele, estrutura muscular. Mas não consegue modificar o que realmente identifica uma pessoa.
— O que você quer dizer com isso? — pergunta ele, atento.
— Impressões digitais não mudam — continuo. — O mesmo vale para as unhas e cabelo.
Ariel me encara por alguns segundos, assimilando tudo. Aos poucos, o desespero em seus olhos começa a dar lugar ao alívio.
— Então... ele não vai conseguir jogar isso nas suas costas? — sussurra.
— Não — respondo, com convicção. — Ele pode ter usado o meu rosto... mas nunca poderia se tornar eu de verdade.
Escuto o barulho de sirenes vindo da rua. Os portões da mansão se abrem rapidamente, e os carros do Corpo de Bombeiros entram em alta velocidade. Uma grande quantidade de fumaça sai da mansão, enquanto os funcionários correm para fora, em pânico.
— Parece que o fogo se espalhou — digo, observando a mansão ser tomada pela fumaça.
— Vamos sair daqui — diz Ariel, tossindo, enquanto me puxa pela mão.
Saímos discretamente e, em poucos segundos, já estamos na rua.
— Ariel! — escuto a voz do Wei.
Viro o rosto e vejo Wei e Rafael correndo em nossa direção. São os nossos amigos. Um aperto forte invade meu peito — senti tanta saudade deles.
— Ariel, eu preciso te contar uma coisa — diz Rafael, puxando-o levemente pelo braço.
— Está tudo bem — responde Ariel, sorrindo, enquanto se solta. — Esse aqui é o verdadeiro Joel.
— Joel... é você mesmo? — pergunta Wei, incrédulo, aproximando-se devagar.
— Sou eu, sim — respondo, com um sorriso sincero.
Wei e Rafael pulam em cima de mim em um abraço apertado.
— Ariel, então a sua teoria estava errada — diz Rafael, ainda me segurando.
— Que teoria? — pergunto, confuso.
— Eu achei que você tinha ficado frio por causa daquela bolada que levou no rosto — diz Ariel, com um sorriso sem graça.
— Sério? — digo, surpreso. — Me conta um pouco dela.
— Na minha teoria, seus sentimentos por mim tinham sido bloqueados por causa da pancada — explica Ariel, envergonhado. — Mas agora vejo que isso não faz o menor sentido.
— Nenhuma bolada vai mudar o que eu sinto por você — digo, firme, puxando Ariel pela cintura. — Mesmo que eu perca a memória... eu ainda vou continuar te amando, mesmo sem te conhecer.
— Você é mesmo o meu doutor — diz Ariel, confiante, aproximando o rosto do meu.
— Ou almas gêmeas... — comenta Wei. — Ei, olha aquilo ali.
— Quem foi que morreu? — pergunta Rafael, chocado.
Viro o rosto e vejo um corpo sendo levado na maca, coberto por um saco preto.
— Pobre doutor Prado... — diz Ariel, com a voz carregada de tristeza.
— Aquele é o doutor Prado? — grita Wei, assustado.
— Infelizmente, sim — respondo, de cabeça baixa.
Quarta-feira, 06 de maio de 2026
Quando reencontrei meus pais, não consegui conter as emoções. Não pude contar o que realmente aconteceu comigo, já que a NASA ordenou que o caso fosse abafado. Pedi desculpas a eles pelo meu comportamento nos últimos tempos.
— Eu senti tanta falta de vocês — digo, emocionado, ainda agarrado aos meus pais.
— Você fala como se tivesse viajado e só voltado agora — diz minha mãe, fazendo carinho nas minhas costas. — Não se esqueça de que foi você que se afastou da gente.
— Ainda bem que você caiu em si — diz meu pai, alarmado. — Você parecia um psicopata, sem nenhum pingo de empatia.
— Desprezou os próprios pais e ainda terminou com o namorado — acrescenta.
— Como eu já disse, senhor, tudo isso foi por causa da bolada que ele levou na cabeça — diz Ariel, com convicção. — A pancada bloqueou as emoções dele por um tempo.
— Me desculpem mesmo... eu fui um idiota com vocês — diz Joel, de cabeça baixa. — Obrigado por não desistirem de mim.
— Nós te amamos, filho. Nunca desistiríamos de você — diz minha mãe, me abraçando.
— Nunca — diz Ariel, também me abraçando.
Ser abraçado pelas três pessoas que eu mais amo neste mundo é realmente muito bom. Fico triste por não poder contar a verdade, mas, infelizmente, o assunto sobre a fórmula REFLEX é extremamente confidencial.
Quinta-feira, 07 de maio de 2026
O laudo pericial finalmente saiu e confirmou o que eu já esperava: as digitais encontradas no corpo do doutor são do Augusto, não minhas. Ele cavou a própria cova. Agora está sendo procurado pela polícia pelo assassinato do próprio pai.
O corpo do doutor Prado ainda não foi liberado para o velório. Sei que ele armou tudo contra mim, mas não consigo sentir raiva. Mesmo depois de tudo o que fez, ainda o admiro muito... e quero me despedir dele.
Agora estou junto com os outros físicos. Pedi desculpas pelo meu comportamento, principalmente ao Henrique.
— Eu realmente sinto muito, doutor Montenegro — digo, com arrependimento na voz. — Eu fui um idiota.
— Que bom que você voltou ao normal, doutor Martins — diz Henrique, me olhando. — A gente já estava quase chamando um padre para te exorcizar.
— Mas a culpa foi sua, doutor Montenegro. Foi você que deu aquela bolada na cara do Joel — diz Rafael, passando os braços pelos meus ombros. — Deixou ele maluquinho... ainda bem que não foi irreversível.
— Até parece que foi isso — diz um dos físicos, desconfiado. — O doutor Martins está escondendo alguma coisa.
Olho para todos os físicos, e eles me encaram com desconfiança.
Eu, Wei e Rafael nos entreolhamos. Precisamos fazer de tudo para que a teoria da bolada na cabeça continue sendo o motivo do meu comportamento nos últimos tempos.
Sexta-feira, 08 de maio de 2026
É de manhã. Fomos visitar a avó e a irmã do Ariel. Depois disso, ele me fez um pedido que me deixou surpreso: queria ir à praia.
Agora estamos descalços, com os pés afundados na areia. Caminhamos de mãos dadas. Olho para Ariel e percebo que ele encara o horizonte em silêncio. Lágrimas escorrem lentamente por seu rosto.
— Não acredito que finalmente consegui vir aqui — diz Ariel, fechando os olhos. O vento bate em seu rosto, bagunçando seus cabelos.
— Você finalmente superou seus traumas — digo, orgulhoso.
— Sim — responde Ariel, abrindo os olhos e sorrindo. — Vem — acrescenta, me puxando em direção à água.
— Não se esqueça de que eu não sei nadar — digo, enquanto ele me arrasta. A água já chega à minha cintura.
— Acha mesmo que eu vou deixar você se afogar? — provoca Ariel, beliscando minha bochecha.
— Eu poderia muito bem me afogar agora... só para você ter que fazer respiração boca a boca em mim — digo, abraçando-o por trás.
Rimos juntos e brincamos na água por um bom tempo, deixando o som do mar levar embora tudo o que ficou no passado.
É de tarde, e estou no laboratório testando um equipamento que acabou de chegar. De repente, alguns homens aparecem e acenam do lado de fora da porta de vidro.
— Com quem vocês gostariam de falar? — pergunta Wei, enquanto abre a porta.
— Eu gostaria de falar com o doutor Martins — diz um dos homens, olhando para mim. Sinto um arrepio na espinha.
— Sou eu — respondo, com a voz trêmula, aproximando-me.
— Podemos conversar a sós, doutor Martins — diz o homem, sem desviar o olhar. — É um assunto particular.
— Vamos tomar um café — diz Rafael, puxando Wei para fora.
— Qual é o assunto? — pergunto, assim que ficamos sozinhos.
— É sobre a fórmula REFLEX — diz o homem, sério, encarando-me. — Estou encarregado de apagar qualquer evidência... inclusive a mente das pessoas que sabem sobre a fórmula.
— Apagar? — pergunto, engolindo em seco.
— Sim — responde ele, tirando um aparelho do bolso. — Quero que me diga quantas pessoas sabem sobre a fórmula REFLEX.
— Esse aparelho é capaz de zerar a mente de qualquer indivíduo — acrescenta, erguendo o dispositivo.
— O nosso pessoal já está à procura do Augusto Prado. Assim que o encontrarmos, vamos apagar a memória dele — diz o outro homem, sério, em um tom quase intimidador.
— Acha mesmo que isso vai ser necessário? — pergunto, receoso.
— Só não vamos apagar a sua memória agora porque você é necessário para nós — diz o homem, apontando o aparelho na minha direção.
— Esse negócio é seguro? — pergunto, desviando do aparelho que ele estava apontando.
— Infelizmente, ele não apaga memórias específicas. O apagamento é geral — responde o outro homem, friamente.
Apagamento geral da memória? Se eles descobrirem que Wei, Rafael e Ariel sabem, vão apagar a memória deles... Ariel... vão apagar a memória do meu amor.