Aqui no Diário aberto, Às lembranças também gira em torno de ausência e do que permanece depois que algo muda, em prosa poética. Combina bem com esta teoria.
Teoria nº 21: Distância Necessária
Pensamento
Aqui no Diário aberto, Às lembranças também gira em torno de ausência e do que permanece depois que algo muda, em prosa poética. Combina bem com esta teoria.
Conteúdo da publicação
Sexta-feira, 10 de abril de 2026
Não dormi direito porque o Rafael dormiu na casa do Ariel ontem. Passei a noite inteira me virando na cama. É a primeira vez, em doze anos, que durmo sozinho, sem o Rafael ao meu lado — tirando o tempo que passei no espaço, mas isso não conta. Acho que é costume... o Rafael sempre faz cafuné em mim antes de dormir.
Finalmente, escuto a porta sendo destrancada. Dou um pulo da cama e corro até a sala. Me deparo com o Rafael entrando.
— Bom dia — diz Rafael, enquanto fecha a porta.
— Por favor, não faz mais isso. Eu não gosto de dormir sozinho — digo, abalado.
— Eu também não consegui dormir direito — confessa Rafael.
— Vamos fazer o café da manhã — digo, forçando um sorriso.
— Precisamos ir mais cedo para o laboratório. Temos muito trabalho pela frente — diz Rafael, indo em direção à cozinha. — Quando será que o Joel vai voltar para o laboratório? Só nós dois está sendo puxado — acrescenta, enquanto amarra o avental.
— Ele falou que só volta depois que o teste desse tal produto secreto for finalizado — digo, com a voz cansada.
— Que tal pedirmos ajuda? — sugere Rafael.
— Ajuda de quem? — questiono.
— O doutor Montenegro. Ele sempre fica livre à tarde — diz Rafael, com convicção.
— Tá doido? Ele é rival do Joel. O Joel mata a gente se descobrir — digo, incrédulo.
— Se ele se incomodar, que venha nos ajudar então — rebate Rafael.
— Deixa comigo. Eu vou encontrar um substituto — digo, com firmeza na voz.
Finalmente terminamos tudo e nos sentamos à mesa. Mas, antes mesmo de começarmos a comer, alguém bate à porta.
— Deixa que eu vou — digo, me levantando.
Vou até lá, abro a porta e me deparo com meu pai, acompanhado da Maya.
— Maya? — digo, surpreso.
— Então é aqui o seu palácio! — diz Maya, olhando ao redor.
— A Maya queria muito conhecer a sua casa — explica meu pai.
— Por favor, entrem! — digo, dando espaço.
— Seu apartamento é muito bonito — comenta Maya, encantada, enquanto entra.
— Vamos tomar café — digo, com um sorriso tímido.
— Bom dia — diz Rafael, um pouco surpreso.
— Bom dia — diz Maya, sentando-se à mesa. — Quem é ele? — questiona, me olhando.
— Este é o Rafael, meu melhor amigo e colega de trabalho — digo, sentando-me à mesa.
— Sua mãe está vindo, porque neste domingo vamos jantar juntos com os pais da Maya — diz meu pai, sentando-se na cadeira.
— Meus pais estão muito animados para te conhecer — acrescenta Maya.
— Você não sabe comer sem se sujar — comenta Rafael, limpando o canto da minha boca.
Olho rapidamente para o meu pai e para a Maya. Os dois observam a cena em silêncio.
— Eu estava pensando em comprar uma casa para você. Acho que seria mais confortável do que morar em apartamento — diz meu pai.
— Não precisa, senhor Chen. Eu gosto de morar em apartamento — responde Maya, com um sorriso.
— Além disso, fica perto do meu trabalho.
— Ah, você é microbiologista, não é? — diz Rafael, curioso. — Me conta um pouco sobre o que você faz.
Maya sorri, ajeita o cabelo atrás da orelha e começa a explicar:
— Eu trabalho principalmente com micro-organismos que não conseguimos ver a olho nu, como bactérias, vírus e fungos — diz ela, animada — No laboratório, estudo como eles se comportam, como se multiplicam e, principalmente, como podemos combatê-los ou usá-los a nosso favor.
— Atualmente, estou envolvida em pesquisas para desenvolver tratamentos mais eficazes e seguros, além de analisar como certos micro-organismos reagem a diferentes ambientes. É um trabalho delicado, exige paciência e muita atenção, mas eu amo o que faço.
Ela termina a explicação com um sorriso tranquilo, claramente orgulhosa do próprio trabalho.
Fico observando a Maya explicar sobre o seu trabalho. Nossa... isso aquece o meu coração. Além de linda, ela é muito inteligente. A cada dia que passa, eu me apaixono ainda mais por ela.
Depois de tomarmos café, meu pai e a Maya foram embora. Agora, eu e o Rafael seguimos para o laboratório e, ao chegarmos lá, nos deparamos com o Joel e o Ariel.
— Vocês aqui? — digo, surpreso.
— Precisamos conversar — diz Joel, firmemente.
Então vamos para o refeitório da universidade e nos sentamos à mesa.
— Cara, a gente queria conversar com você mesmo — digo, sem tirar os olhos de Joel.
— Quando você vai voltar para o laboratório? A gente precisa de ajuda — acrescenta Rafael.
— Hoje eu vou viajar para os Estados Unidos. Preciso levar o relatório do teste pessoalmente — diz Joel, firme. — E, quando eu voltar, estarei finalmente livre para trabalhar com vocês novamente.
— Eu vou sentir a sua falta — diz Ariel, de cabeça baixa.
— Por favor, não fique triste, Ariel. É só uma viagem de quatro a cinco dias — diz Joel, tocando a mão dele. — E também preciso desse tempo sozinho para organizar minhas emoções.
— Você realmente parou de gostar do Ariel? — pergunto, surpreso.
— O Ariel é uma pessoa legal — responde Joel. — Quando eu voltar, quero fazer dar certo com ele.
— Tomara... porque você lutou tanto para conquistá-lo. Não jogue quinze anos da sua vida fora — digo, incrédulo.
— Vamos, chefe. Ainda tenho que passar na casa dos meus pais — diz Joel, levantando-se.
— Boa viagem, cara — digo, com um sorriso.
— Valeu — responde Joel.
— Vamos passar na floricultura. Quero levar flores para sua mãe — diz Ariel, animado.
— Como quiser, chefe — diz Joel, forçando um sorriso.
Nossa... como ele está diferente. É como se o verdadeiro Joel estivesse dormindo, e essa nova personalidade tivesse assumido o controle.
É de noite. Acabei de tomar um banho e agora estou deitado. O Rafael foi tomar banho há um bom tempo... banho demorado demais.
Me levanto e vou em direção ao banheiro, mas, assim que saio do meu quarto, noto que a luz do quarto ao lado está acesa. Vou até lá e vejo o Rafael colocando uma colcha na cama.
— O que você está fazendo? — questiono, confuso, entrando no quarto.
— Estou arrumando a cama. Não está vendo? — responde Rafael.
— Eu sei, estou vendo perfeitamente. Só não entendo o motivo — digo, confuso.
— Porque eu vou dormir aqui. Qual seria o outro motivo? — diz Rafael, terminando de ajeitar.
— Como assim, dormir aqui? — digo, incrédulo. — Essa cama é muito pequena para nós dois. A minha tem mais espaço.
— Você não entendeu — diz Rafael, firme. — Eu vou dormir aqui. Sozinho.
— Mas... do nada? — pergunto, confuso. — Por que isso agora? A gente sempre dormiu junto.
— Cara, a gente não pode mais fazer isso. Você agora está comprometido — diz Rafael, decidido.
— Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra — rebato, sem entender.
— Tem tudo a ver — responde ele, pensativo. — Em breve você vai estar noivo. Eu fiquei pensando... a gente precisa mudar algumas coisas na nossa relação. — Ele faz uma pausa. — Contato íntimo é uma delas.
— Você enjoou de ficar comigo? É isso? — pergunto, incrédulo.
— Daqui a pouco você vai ser um homem casado — diz Rafael, me encarando com firmeza. — Você tem que ser fiel à sua esposa. — Ele respira fundo. — Amanhã eu vou sair para procurar um apartamento pra mim.
— Rafael, por favor, não faz isso — digo, desesperado. — Eu não vou aguentar ficar longe de você.
— Não exagera. A gente ainda vai se ver todo dia no laboratório — responde ele.
— Não. Eu não posso aceitar isso — digo, irritado, cruzando os braços.
— Já está decidido — diz Rafael, firme. — Eu já estou com 31 anos. Assim como você, eu também preciso encontrar minha metade da laranja.
— Você não está pensando em ficar com aquele Roger, né? — digo, incrédulo.
— Por que não? O Roger é uma excelente pessoa — responde Rafael.
— Eu não permito isso! — digo, irritado.
— E quem é você para me impedir? — rebate Rafael, cruzando os braços.
— Eu sou... — começo a dizer, mas paro no meio da frase.
As palavras morrem na minha garganta. Eu sou só o amigo dele. Não tenho o direito de mandar na vida amorosa do Rafael.
— Desculpa... — digo, de cabeça baixa. — Eu não vou mais me entrometer na sua vida amorosa.
Saio do quarto antes que ele diga qualquer coisa.
Vou até o meu quarto e me jogo na cama. Encaro o teto, tentando organizar os pensamentos, mas é impossível. As palavras do Rafael continuam ecoando na minha cabeça.
Só agora me dou conta de algo que eu estava fingindo não ver: ao me casar, a minha relação com o Rafael vai mudar para sempre.
E eu não sei se estou pronto para essa mudança na minha vida.
Segunda-feira, 13 de abril de 2026
É noite, e o Rafael acabou de levar suas últimas coisas. Ele já alugou um apartamento e foi embora. Agora, definitivamente, hoje é o primeiro dia oficial em que vou dormir realmente sozinho em casa. Estou arrasado só de pensar nisso.
Mas, após receber uma mensagem da Maya, meu coração aquece. Que fofa... ela sempre me manda mensagem perguntando se eu já comi ou se estou me cuidando. O jantar de ontem foi incrível; os pais dela são muito simpáticos. Meu pai até me deu um anel de família para entregar a ela. Assim que nos conhecermos melhor, vou pedi-la em noivado.
De repente, escuto a porta sendo destrancada. É o Rafael.
— Eu vim te entregar sua chave — diz Rafael, enquanto entra.
— Você deve estar cansado... por que não deixou para amanhã? — digo, aproximando-me.
— Porque eu tinha algo muito importante para te dizer, e precisava ser hoje — responde Rafael, firme.
— E o que seria? — pergunto, apreensivo.
— O que eu vou dizer agora vai mudar para sempre a nossa relação — diz ele, desviando o olhar.
— Você está me deixando assustado — confesso.
— Eu me apaixonei por você — diz Rafael, firme, enquanto me encara.
— O quê? — digo, chocado.
— Isso mesmo que você ouviu. Durante todo esse tempo em que ficamos juntos, eu me apaixonei — repete Rafael.
— Mas... você tem certeza disso? — pergunto, ainda atordoado.
— Tenho. Eu confirmei tudo no momento em que a Maya entrou na sua vida — diz ele, com firmeza na voz.
As palavras do Rafael me deixam sem chão. Nunca o vi tão decidido. Mas... espera. Não é só isso que está me assustando. Ele acabou de se declarar para mim. O Rafael gosta de mim. O Rafael...
Thoughts
-
PermalinkAqui no Diário aberto, Às lembranças também gira em torno de ausência e do que permanece depois que algo muda, em prosa poética. Combina bem com esta teoria.
-
PermalinkO Rafael esperou levar a última caixa e devolver a chave pra falar. Com o anel da família já na mão do Wei, esse jantar de noivado não sai do jeito que o senhor Chen planejou.
Publicações relacionadas
-
Teoria nº 18: Amor Comprovado
Terça-feira, 24 de março de 2026
-
Teoria nº 19: Desconexão Afetiva
Terça-feira, 07 de abril de 2026
-
Teoria nº 23: O Paradoxo da Rejeição Programada
Terça-feira, 07 de fevereiro de 2012
-
Teoria nº 03: Quando a Hipótese Falha
Quinta-feira, 12 de março de 2026
-
Teoria nº 15: Efeito Dominó
Domingo, 22 de março de 2026
-
Teoria nº 09: A Consolidação do Vínculo Afetivo
Quarta-feira, 18 de março de 2026
-
Teoria n°16: O Efeito Cascata do Ódio Coletivo
Segunda-feira, 23 de março de 2026
-
Prólogo
Hipótese: um impacto pode alterar completamente o estado de um corpo.
Sexta-feira, 10 de abril de 2026