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Teoria n°16: O Efeito Cascata do Ódio Coletivo

hyan_amorim

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Segunda-feira, 23 de março de 2026

No dia em que humilhei o Joel em frente ao meu restaurante, a Rayssa gravou tudo. Agora, o vídeo está em todas as redes sociais. Ao ouvir minhas próprias palavras novamente, percebo o quanto fui um ser humano horrível. Eu realmente mereço todo o ódio que estou recebendo.

— Joel, eu não entendo como você ainda conseguiu me olhar depois de tudo o que eu disse — confesso, sem conseguir encará-lo. — Eu não mereço o seu amor.

— Você assumiu o seu erro, me pediu desculpas e, depois disso, se tornou uma pessoa melhor — diz Joel, com a voz calma.

— Então... você não me acha um ser humano horrível? — pergunto, com a voz trêmula.

— Não, amor. Jamais — responde ele, enquanto me envolve em um abraço.

— Pessoas ruins não sentem culpa nem arrependimento. E você está sentindo exatamente isso agora — acrescenta.

— Obrigado, doutor — digo, chorando, enquanto o abraço com força.

As palavras do Joel me trazem conforto e aquecem meu coração. Talvez ele esteja certo. Talvez eu não seja um ser humano tão ruim assim.

— Vamos lá para o terraço — diz Joel, tocando meu rosto. — Preparei algo para você.

— O que é? — pergunto, curioso.

— Você vai ver — diz Joel, segurando minha mão com firmeza.

Ando com Joel pelo condomínio, e alguns moradores me encaram com desprezo e julgamento.

— Meu jovem, você deveria ter mais amor-próprio — diz uma moradora, incrédula, ao nos ver de mãos dadas. — E você deveria tomar vergonha na cara — completa, agora me encarando.

— Não ligue para ela, amor — diz Joel, me puxando pela mão e acelerando os passos.

— Amor? — repete a mulher, chocada. — Você, um doutor renomado, andando com gente assim?

— O que você disse? — pergunto, incrédulo, parando e olhando diretamente para ela. — Você me julga como um ser humano horrível, mas faz exatamente o mesmo ao me diminuir diante do doutor Martins.

— Não me compare com você — rebate a mulher, indignada, antes de atirar o café quente que estava em sua xícara.

Joel reage rápido, se colocando à minha frente e me abraçando. O café atinge suas costas, e ele faz uma pequena careta ao sentir o calor do líquido.

— Joel, você está bem? — pergunto, desesperado.

— Não se preocupe, estou bem — responde ele.

— Por acaso você é maluca? — digo, incrédulo, encarando a mulher.

Ela não responde. Apenas entra em sua casa e fecha a porta.

— Você se queimou? Deixa eu ver suas costas — insisto, preocupado.

— Eu estou bem, amor. Foi só uma leve quentura — diz Joel, tentando me tranquilizar.

— Tem certeza? — pergunto.

— Sim — responde ele, apertando minha mão.

Então seguimos até o elevador e logo chegamos ao terraço do prédio. Havia uma bacia junto com alguns produtos de limpeza. Ele se abaixa em seguida. Havia também um bambolê no chão.

— Você, por acaso, vai lavar roupa? — pergunto, curioso, ao vê-lo mexer no sabão.

— O sabão não serve só para limpar as coisas — diz Joel, enquanto afunda o bambolê na bacia. — Ele também serve para isso — acrescenta, puxando o bambolê e formando uma enorme bolha de sabão.

— Uau... — digo, sorrindo, enquanto observo a bolha flutuar lentamente pelo ar.

— É uma mistura simples de água, detergente e um pouco de glicerina — explica Joel. — A glicerina deixa a película mais resistente, diminuindo a evaporação da água e evitando que a bolha estoure rápido demais.

— E fica ainda mais bonita quando reflete a luz do sol — comento, encantado, ao ver as cores iridescentes surgirem na superfície da bolha.

— Isso acontece por causa da interferência da luz — continua Joel, criando mais bolhas. — A luz reflete nas diferentes camadas da película de sabão, criando essas cores.

Em um piscar de olhos, estamos cercados por dezenas de bolhas.

— As bolhas de sabão estouram porque a película vai ficando cada vez mais fina até não aguentar — digo, estourando uma delas com o dedo.

— E agora essa não estourou — diz Joel, segurando uma bolha delicadamente nas mãos molhadas. — Por que será? — pergunta, sorrindo.

— Porque suas mãos estão molhadas, doutor — respondo, segurando a mão dele. — Assim não há diferença de tensão superficial suficiente para romper a bolha.

— Espertinho... — diz Joel, rindo, enquanto me puxa para um abraço.

— Não se esqueça de que eu também sou nerd — digo, todo bobo, apoiando a cabeça em seu ombro.

Começamos a dançar lentamente entre as bolhas de sabão.

— É a primeira vez que dançamos juntos — diz Joel, sorrindo, quase tímido.

— Eu não sabia que você sabia dançar — digo, surpreso.

— Tirando o fato de eu não saber nadar, eu sei um pouco de tudo — responde ele, rindo.

Estar nos braços do Joel aquece meu coração. Ele me fez sorrir... ele é tão bom para mim. Eu o amo. Amo esse nerd. De repente, ele faz uma leve careta.

— O que houve? — pergunto, preocupado.

— Não é nada — responde Joel.

Então me lembro de que aquela maluca jogou café quente nele.

— Deixa eu ver suas costas — digo, virando-o de leve.

— Não está doendo, eu juro — insiste Joel.

— Eu quero ver mesmo assim — falo, firme, enquanto puxo sua camisa.

As costas dele estavam vermelhas.

— Olha só o que aquela maluca fez com você — digo, furioso. — Minha vontade é colocar ela atrás das grades.

— É só uma leve irritação — diz Joel, virando-se para me encarar. — Amanhã já vai ter sumido.

— Vem, vamos passar um hidratante nas suas costas — digo, puxando-o comigo.

Assim que voltamos para o meu apartamento, passo hidratante nas costas do Joel. Ficamos juntos por mais um tempo, até chegar a hora de ele ir para o laboratório.

Agora estou jogado no sofá, tentando acalmar a mente, quando a campainha toca. Levanto-me rapidamente para ver quem é e me surpreendo ao perceber que é a mãe do Joel. Sinto um aperto no peito, mas crio coragem e abro a porta.

— Boa tarde — digo, após abrir. Olho para ela, não parece nada amigável.

— Temos uma coisa muito importante para conversar — diz ela, firme.

— Entre, senhora — respondo, engolindo em seco.

— Com licença — diz a mãe dele, entrando. Ela caminha até o sofá e se senta.

— Sobre o que a senhora quer conversar? — pergunto, receoso, enquanto me sento também.

— Ariel, me diga com sinceridade: você realmente ama o meu filho? — pergunta ela, me encarando.

— A senhora provavelmente viu o vídeo... — digo, de cabeça baixa, sem encará-la.

— Sim. E, depois que vi, fiquei enojada — responde ela, com rancor na voz. — Como você pôde dizer aquelas coisas para o meu filho?

— Depois que vi, questionei o Joel, mas ele te defende com unhas e dentes, dizendo que você mudou.

— Realmente, não há desculpas para o que eu fiz com o Joel — digo, ainda de cabeça baixa. — Eu fui um monstro com ele.

— Que bom que você sabe — diz ela, incrédula.

— Mas, respondendo à sua pergunta... sim, eu amo o seu filho — digo, erguendo a cabeça e encarando-a. — Amo demais.

— É até difícil de acreditar — responde a mãe dele, com convicção.

— Aconteceu uma coisa e, depois desse dia, o Joel não saiu da minha cabeça — digo, sem tirar os olhos dela. — Meu coração começou a acelerar por causa dele. Eu fiquei frustrado, porque não queria estar sentindo aquelas coisas.

— Aí, quando ele fez mais uma das declarações dele em público... foi diferente. Meu rosto esquentou por causa disso — continuo, olhando para ela. — Eu não sabia lidar com esses sentimentos inesperados. Então surtei... e acabei descontando tudo no Joel.

— Você é uma pessoa muito complicada — diz a mãe dele. — O meu filho não vai ser feliz ao seu lado.

— Senhora, por favor, não me afaste do Joel — digo, já começando a chorar. — Eu não vou suportar ficar longe dele.

— Ariel? — diz ela, chocada com a minha reação.

— Por favor, senhora... — digo, ajoelhando-me diante dela. — Eu juro que amo seu filho.

— Se acalme — diz ela, assustada, enquanto me abraça. — Eu não vou separar vocês.

— Promete? — pergunto, desesperado.

— Sim — responde ela, fazendo carinho nas minhas costas.

A mãe do Joel faz um chá e, depois que eu bebo, me sinto mais calmo. Mas minha tranquilidade dura pouco, porque meu celular começa a tocar. Atendo e descubro que meu restaurante foi vandalizado.

— Não pode ser... — digo, voltando a chorar.

— O que houve, Ariel? — pergunta a mãe dele, preocupada.

— Vandalizaram meu restaurante — respondo, desesperado.

Vou para lá o mais rápido possível. Quando chego, quase caio para trás. As vidraças da frente estão quebradas, estilhaços espalhados pelo chão. A parede foi pichada com palavras de ódio. Meu estômago se revira.

Alguns funcionários já estão lá, tentando me apoiar.

— Isso é tudo culpa da Rayssa — diz a subchefe, visivelmente irritada.

— Na verdade, isso é consequência das minhas atitudes — respondo, pensativo, encarando a fachada destruída.

— O senhor já se acertou com o doutor Martins. Ela fez isso com um único objetivo: queimar sua imagem — rebate a subchefe.

— Ela tem razão, chefe — diz um dos garçons, aproximando-se.

— É melhor não abrirmos o restaurante nesses próximos dias. Vamos esperar a poeira baixar — digo, respirando fundo.

— Chefe! — exclama outro garçom, chegando apressado. A voz dele treme.

— Nossa, você é muito escandaloso — retruca a subchefe.

— Vocês precisam ver isso — insiste ele, desesperado, tirando o celular do bolso.

Ele vira o celular para nós. É uma entrevista de Augusto Prado.

— Com toda a polêmica envolvendo o chefe Ariel, você acha que ele é tudo o que estão dizendo? Vocês trabalharam juntos... como ele é nos bastidores? — pergunta o entrevistador.

— Bom... — Augusto hesita, respirando fundo. — Com base no tempo que passei com o chefe Ariel, pude conhecer muito bem o caráter dele.

— Então nos diga: como o chefe Ariel é? — insiste o entrevistador.

— Eu... não sei se deveria dizer isso. Não quero prejudicar ainda mais a reputação dele, mas... — Augusto faz uma pausa calculada. — O chefe Ariel trata todo mundo daquele jeito.

Sinto o chão sumir sob meus pés.

— O quê? — digo, incrédulo.

— E tem mais uma coisa — continua Augusto, olhando para baixo. — Ele me assediou depois das gravações daquele episódio. Eu não falei nada antes porque não queria me envolver em polêmica, mas agora sinto que preciso ser honesto.

— Que cara mentiroso — diz a subchefe, chocada.

— O que esse idiota está dizendo?! — explodo. — Eu fui a vítima! Foi ele que tentou me agarrar à força!

De repente, Augusto deixa uma lágrima escorrer.

— Se o senhor não se sentir confortável em falar sobre isso, podemos mudar de assunto — sugere o entrevistador, em tom cauteloso.

— As lembranças estão vindo à minha mente... — diz Augusto, com a voz trêmula, enxugando os olhos. — Ele tentou me beijar...

— O chefe é baixinho — comenta um dos garçons, indignado. — Como ele iria agarrar à força um homem de quase um metro e noventa?

— Isso é absurdo — digo, com a voz tomada pela revolta.

— Com licença... eu não estou me sentindo bem — diz Augusto, levantando-se e deixando o estúdio sob olhares solidários.

Assistir àquilo me deixa tomado por indignação e impotência. Como ele pode dizer isso? Foi ele quem tentou me agarrar. E agora... agora ele está sendo tratado como vítima.

— Estão massacrando o chefe nos comentários — diz o garçom, me mostrando o celular.

Deslizo a tela,  com as mãos trêmulas.

"Esse Ariel é um monstro, sempre foi."

"Olha a cara desse viado metido a chef famoso."

"Gayzinho nojento achou que todo mundo queria ele."

"Lugar desse tipo de gente é longe da sociedade."

"Cancela logo esse lixo."

Minhas mãos tremem. Não é mais só sobre mim.

É ódio puro.

E ele já ganhou vida própria.

#romanceviral

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