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A caminhada...

Antonio_Goncalves

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Um dia desses, saí de casa e segui pela avenida principal por um longo trecho, até que caminhar ao som de todo aquele barulho do trânsito se tornou desestimulante. Tentando fugir daquele cenário, entrei em uma tranquila área residencial. Ali, porém, me surgiu um incômodo: me senti invadindo uma região que eu não tinha liberdade de acessar.

O lugar era cheio de casas, porém deserto de transeuntes. Por sorte, cruzei com uma mulher que também caminhava por ali e puxou conversa comigo. Isso me "salvou" daquela estranha sensação — A presença dela funcionou como uma espécie de autorização para eu estar ali.

Na conversa, comentei que não era morador do bairro, mas que morava nas proximidades; descobrimos ali que ambos nascemos e crescemos naquelas áreas, tendo inclusive amigos em comum e estudado na mesma escola, e nunca havíamos nos visto. Como o papo estava agradável e ela sabia que eu ainda tinha um longo trajeto pela frente, me convidou pra ir até sua casa, que ficava no caminho, onde eu poderia me hidratar, usar o banheiro, descansar enquanto conversávamos mais um pouco e depois seguir viagem.

Aceitei o convite e, chegando ao local, a água logo deu lugar a um vinho e uma tábua de queijos. Só que o álcool sempre me leva a cometer exageros e, pelo visto, a ela também; quando nos demos conta, a conversa na varanda já tinha avançado pra nós dois nus no quarto dela. No meio da brincadeira, como em cena de filme, um carro chega e ela se desespera:

— É meu marido, ele chegou mais cedo. Corre pro quarto no fundo. Lá é mais baixo e dá pra você pular pela janela e fugir. Mas corre, porque ele anda armado e vai te matar se te pegar.

— Marido? Por que você não me disse que era casada?

— Sério? Você não viu mesmo a aliança em meu dedo?

— Eu sou míope pra essas coisas. E pular a janela? Não sei se minha condição 40+ me permite.

— Agora não importa, só corre pro quarto e foge.

Corri até o tal quarto. Quando o marido entrou, percebeu a situação e seguiu direto pra lá, com o revólver engatilhado. Olhou pela janela, tentando ver se me avistava pra atirar ao menos de longe, mas não viu ninguém. Frustrado, virou-se pra sair do quarto e deu de cara com o quê? Eu, escondido atrás da porta. Me olhou profundamente, apontou o 38, porém recuou e disse:

— Cara, antes de eu te matar, me responde uma coisa. Era só pular a janela, sair correndo e salvar sua vida, mas você achou de se esconder desajeitadamente atrás da porta, sabendo que o dono da casa chegou e tá armado? Por que você não fugiu?

— Porque eu tô pelado.

— Mas é mais aceitável morrer do que fugir pelado?

— Não, e morrer nem é uma alternativa, mas fugir pelado também não. Se eu fugisse assim, eu ia ficar me esgueirando pelas moitas, tentando fingir pra mim mesmo que tô conseguindo me esconder, mas ciente de que todo mundo tá me vendo, e seguir com essa performance deplorável daqui até chegar em casa é algo descabido.

— E qual seria a alternativa, então? Você luta caratê e imagina que vai me bater, me deixar desacordado e ter tempo de se vestir e ir pra casa devidamente trajado?

— Não, não acho, e nem tentaria bater em você.

— Então você deve imaginar que é um bom articulador e que vai conseguir, na base do diálogo, me persuadir a não te matar?

— Também não, e nem tenho argumentos pra tentar me defender.

— Então voltamos ao fato de que você acha aceitável morrer em vez de fugir pelado. Você é suicida?

— Não, só não consigo encarar ter que fugir pelado e acabar com a pouca reputação que me resta, e quem sabe, percebendo minha insignificância e também que não vale a pena se prejudicar comigo, você me deixe ir embora. Tô me apegando mais a essa possibilidade, pois morrer não é uma opção aceitável, mas fugir pelado muito menos.

Depois daquele estranho bate-papo, percebi que ele se esforçava pra não soltar uma gargalhada. Só fiquei realmente aliviado quando o vi respirar fundo e baixar o bacamarte. Aproveitei o momento pra pedir desculpas e explicar, rapidamente, que não sabia que ela era casada e que tínhamos bebido além da conta. Acho que o vexame alheio pesou mais que a traição, e algo nele preferiu rir a atirar. Só sei que saí dali vestido e pela porta da frente, mas não sem antes dar boas narigadas e barrigadas nas mãos dele. Ninguém aponta uma arma pra mim e sai ileso. ;/ 

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