Com o re-advento das plataformas sob os pés femininos, toda mulher diz ter 1,70. Calçadas em seus altos saltos, fica difícil acreditar no que dizem sobre a própria estatura. Mas, em se tratando de altura, muita coisa é relativa.
Nanildo tinha essa exata medida. Para um homem, era uma altura mediana, o que, dependendo do dia, fazia com que se sentisse mais alto ou mais baixo.
Havia dias em que saía à rua e a maioria das pessoas estava abaixo da linha de seus olhos. Em outros, parecia que até o menor dos anões conseguia ficar acima de seus ombros.
Um amigo de Nanildo, Jorge, tinha 1,75, mas jurava ter 1,80. E o pior é que, visualmente, até parecia ter.
Mas alturas à parte, o grande dilema de Nanildo ultimamente era outro: sem conseguir um relacionamento sério e cansado de tentativas frustradas, pensava em optar por ficar só.
Conhecendo o dilema do amigo, Jorge lhe passou o contato de uma colega do trabalho em uma rede social. Só fez uma ressalva:
— Ela é um pouco alta.
Nanildo não deu muita atenção à indicação. Jorge, entretanto, já havia falado dele para a amiga e, pouco depois, o aplicativo no celular dele acusou um novo pedido de amizade.
Era Altalane.
Nanildo a adicionou e logo começaram a conversar. Fizeram uma amizade legal e foram descobrindo tantas coisas em comum que a curiosidade foi, pouco a pouco, os levando a procurar algo mais sério.
As conversas foram ficando mais longas, a intimidade aumentando e, como acontece nessas coisas, acabaram criando aquele pequeno mundo particular onde parecem existir apenas duas pessoas.
Nanildo percebia, pelas fotos, que Altalane era linda e realmente alta. Mas não se preocupou em perguntar quanto ela media. Jorge já havia dito que ela era "um pouco alta", e isso lhe pareceu informação suficiente.
Altalane, porém, não quis permanecer na dúvida.
— Que altura você tem, Nã? — perguntou.
— 1,70, Lane — respondeu o rapaz.
Foi quando ela revelou seu segredo:
— Nã, eu tenho 1,83.
Naquele momento, Nanildo se lembrou de que Jorge havia dito que ela era "um pouco alta".
Talvez devesse ter perguntado o que Jorge entendia por "um pouco".
A revelação causou certa surpresa nos dois, mas a afinidade era grande demais para que treze centímetros fossem suficientes para encerrar aquilo. Resolveram seguir em frente.
Encontraram-se algumas vezes e tiveram altos papos, o que confirmou ainda mais as afinidades que já haviam descoberto virtualmente. E descobriram também que, na cama, a diferença de altura deixava de ser um problema.
Tudo parecia promissor, mesmo com o 1,70 versus 1,83.
Nanildo começou a desencanar e a se adaptar à ideia de namorar uma mulher bem mais alta.
Altalane, por outro lado, não aceitou totalmente a ideia.
Aos poucos, foi trabalhando sua percepção e deixando clara sua decisão.
Conclusão: não rolou.
Nanildo ficou chateado. Afinal, depois de tantos relacionamentos que não haviam chegado a lugar algum, finalmente encontrara alguém com quem conseguia imaginar uma relação duradoura.
Mas aceitou a decisão.
Continuaram amigos por algum tempo. Depois, a afinidade já não era a mesma e, pouco a pouco, foram se distanciando, até que a relação virtual se resumiu àquilo que costuma sobrar de muitas relações modernas: troca de memes e curtidas.
Num mundo onde toda mulher diz ter 1,70, nem todas mentem. Sobretudo quando dizem ter 1,83.
A estratégia de Luiz XV talvez fosse uma boa solução para Nanildo.
O problema é que ele nunca se deu muito bem com saltos.