À sociedade que tanto se orgulha de sua evolução, eu pergunto: de que vale tanto progresso se ainda não aprendemos a ser humanos?
Construímos prédios que alcançam o céu, mas ainda ignoramos quem dorme no chão. Erguemos monumentos à paz enquanto alimentamos guerras, pronunciamos discursos sobre igualdade enquanto levantamos muros invisíveis entre aqueles que têm tudo e aqueles que sequer possuem o necessário. Parece que a dignidade humana ganhou um preço, e que o valor de uma vida passou a ser calculado pelo peso de uma carteira, pelo nome de uma família ou pelo lugar onde alguém nasceu.
Que espécie de justiça é essa que parece ter os olhos vendados, mas sabe exatamente para qual lado se inclinar? Há balanças que não medem a verdade, mas o peso de cada sobrenome. Há portas que se abrem para alguns antes mesmo que batam, enquanto outros passam a vida inteira tentando provar que merecem entrar.
E o mais assustador não é apenas a existência dessas injustiças, mas a facilidade com que aprendemos a conviver com elas. A fome se transforma em estatística, a miséria vira paisagem, a violência ocupa alguns minutos no noticiário e logo cede espaço à próxima distração. O sofrimento alheio tornou-se tão frequente que, para muitos, já não interrompe sequer o jantar.
Quando foi que a dor deixou de nos causar espanto? Em que momento passamos a enxergar a tragédia como parte da decoração do mundo?
Talvez tenhamos nos tornado espectadores de nossa própria humanidade. Assistimos a tudo por pequenas telas, compartilhamos indignações que duram algumas horas e seguimos nossos dias como se a consciência pudesse ser tranquilizada por uma publicação. Nunca tivemos tantas maneiras de enxergar o mundo, e ainda assim encontramos tantas desculpas para não olhar.
Vivemos em um grande teatro, onde todos parecem conhecer o papel da bondade. Há quem vista a máscara da virtude diante do público e a abandone assim que as cortinas se fecham. Há quem pregue o amor com a mesma boca que espalha ódio, quem exija respeito sem respeitar e quem defenda a justiça apenas enquanto ela não ameaça seus próprios privilégios.
Afinal, de que vale uma consciência que só funciona quando não custa nada?
Também ensinamos nossas meninas a diminuir a voz antes mesmo que descubram a força das próprias palavras. Cobramos que sejam delicadas, silenciosas e agradáveis, como se a existência de uma mulher precisasse ser autorizada pelo conforto alheio. Dizemos que todos são livres, desde que ninguém ouse ultrapassar os limites que inventamos para controlar os outros. Chamamos de exagero aquilo que nos obriga a refletir e de rebeldia aquilo que ameaça a ordem à qual nos acostumamos.
E às crianças, o que temos oferecido? Apressamos sua infância, exigimos maturidade antes do tempo e depois nos perguntamos por que tantos adultos passam a vida tentando reencontrar a leveza que perderam. Queremos que decorem datas, fórmulas e respostas, mas será que também as ensinamos a questionar? De que vale aprender a decifrar o mundo se nunca aprendemos a reconhecer suas injustiças?
Enquanto isso, chamamos de progresso a máquina que não para de crescer, mesmo quando deixa vidas para trás. Arrancamos árvores, contaminamos rios e ferimos a terra em nome de um desenvolvimento que, muitas vezes, parece esquecer a própria razão de existir. Tratamos o planeta como uma propriedade descartável, como se fosse possível destruir nossa casa sem condenar também aqueles que vivem nela.
E, ainda assim, insistimos em chamar isso de avanço.
Talvez a maior contradição da humanidade seja saber tanto e compreender tão pouco. Descobrimos caminhos para alcançar outros planetas, mas ainda não encontramos maneiras de garantir dignidade a todos os que habitam o nosso. Somos capazes de criar máquinas extraordinárias, mas continuamos incapazes de impedir que o egoísmo determine o destino de tantas vidas.
Não nos faltam janelas para enxergar. Sobram cortinas para esconder.
Por isso, não pergunto apenas quando o mundo mudará. Pergunto quantas vezes ele precisará repetir seus erros até que deixemos de chamá-los de normais. Quantas pessoas precisarão ser ignoradas para que a indiferença deixe de parecer inocente? Quantas injustiças serão necessárias para que compreendamos que o silêncio também pode sustentar aquilo que fingimos condenar?
A sociedade não é uma criatura distante, escondida em algum lugar além de nós. Ela também vive em nossas escolhas, em nossos julgamentos, nos privilégios que defendemos, nas dores que ignoramos e nas vezes em que preferimos o conforto à consciência.
E talvez seja justamente isso o que mais nos assusta: perceber que não somos apenas testemunhas do mundo que criticamos. Também participamos de sua construção.
Então, antes de nos orgulharmos tanto da humanidade, talvez devêssemos aprender a exercê-la. Antes de erguermos novos monumentos ao progresso, talvez devêssemos descobrir quantas vidas estamos deixando soterradas sob eles.
Porque uma sociedade não se torna justa apenas por conhecer a diferença entre o certo e o errado. Ela se transforma quando deixa de usar essa diferença como discurso e começa a assumi-la como responsabilidade.
E, até lá, continuaremos chamando de civilização um mundo que ainda precisa aprender a não abandonar os seus.