Andava desconfiada do Joel desde o primeiro capítulo, e afinal o perigo estava no Ariel. O Joel fez as contas todas menos a do orgulho do outro.
Teoria nº 03: Quando a Hipótese Falha
Pensamento
Andava desconfiada do Joel desde o primeiro capítulo, e afinal o perigo estava no Ariel. O Joel fez as contas todas menos a do orgulho do outro.
Conteúdo da publicação
Quinta-feira, 12 de março de 2026
Depois de chegar em casa e tomar um banho, ainda não consigo tirar aquela cena da cabeça. O jeito como ele me olhou. O toque rápido. O rubor inesperado.
Pego meu bloco de notas e me sento na cama.
Se tem uma coisa que eu sei fazer quando algo não faz sentido... é transformar em teoria.
Começo a escrever.
TEORIA DO IMPACTO EMOCIONAL REPENTINO
(Popularmente conhecida como: Teoria da Bolada na Cara)
Hipótese:
Um impacto físico inesperado na região frontal do crânio pode provocar uma desorganização temporária das defesas emocionais do indivíduo, resultando em comportamentos afetivos não planejados.
Caso de estudo: Ariel.
Evento inicial:
Bolada direta na testa.
Perda momentânea de consciência.
Despertar acompanhado de irritação (fase comum).
Viro a página e continuo.
Sintomas observados pós-impacto:
1. Rubor facial frequente na presença do agente causador (eu).
2. Taquicardia sem explicação clínica aparente.
3. Tolerância anormal a cantadas ruins.
4. Contato físico espontâneo (alimentar alguém com sorvete NÃO é normal para o Ariel).
5. Fuga repentina após perceber o próprio comportamento.
Paro por um instante, mordendo a ponta da caneta.
— Isso não é normal... — murmuro para mim mesmo.
Volto a escrever.
Conclusão provisória:
A bolada não criou sentimentos novos.
Ela apenas desativou, temporariamente, os mecanismos de negação emocional.
Ou seja...
Fecho o bloco de notas devagar.
— Ariel sempre sentiu algo. Só não queria admitir.
Meu coração acelera só de pensar nisso.
— Depois de quinze anos... — sussurro, olhando para o teto. — Será que a física finalmente está do meu lado?
Anoto a última frase, quase como um lembrete pessoal:
Observação final:
Testes adicionais devem ser conduzidos com cuidado.
Contato físico direto pode intensificar os efeitos colaterais.
Fecho o caderno, sorrindo sozinho.
— Boa noite, minha estrela da cozinha... e meu experimento mais bonito.
Sexta-feira, 13 de março de 2026
Estou no laboratório e, depois de terminar meu trabalho, fico pensando em um jeito fofo de me declarar para o Ariel. Preciso aproveitar enquanto ele ainda não consegue esconder os próprios sentimentos. Depois de pensar bastante, finalmente sei o que vou fazer. Já é noite quando chego em frente ao restaurante do Ariel. Eles começam a fechar, e os funcionários se juntam na calçada. Ariel está trancando a porta. Pego minha lousa e vou até ele.
— Passei anos tentando resolver essa equação — digo, enquanto coloco a lousa em pé no chão.
Escrevo devagar, em letras grandes:
A + J → ♥
As pessoas ao redor começam a olhar. Ariel paralisa.
— Testei variáveis diferentes. Mudei o ambiente. Esperei o tempo — continuo, encarando Ariel. — Mas o resultado nunca muda.
— Você pode negar os dados, Ariel... mas até você sabe que isso aqui não é opinião — digo, apontando para o coração desenhado. — É resultado — acrescento.
Todos ficam de boca aberta. Ariel está sem reação; seu rosto começa a ficar vermelho, exatamente como eu teorizei.
— Ai, que romântico! — grita uma funcionária do Ariel, também toda vermelha.
— Chefe, ele se superou dessa vez — diz outra, abanando o rosto com as mãos.
— Já chega — diz Ariel, constrangido.
Em seguida, ele começa a caminhar na minha direção. É agora. Ele vai vir até mim e aceitar meus sentimentos. Depois disso, vamos dar o nosso primeiro... o primeiro beijo que esperei desde o ensino médio.
— Você é ridículo — diz Ariel, incrédulo, antes de chutar minha lousa. Ela cai no chão com um barulho seco.
— Você gostou? — pergunto, forçando um sorriso. — Eu só queria fazer algo legal pra você.
— Você definitivamente se superou dessa vez — diz Ariel, ainda incrédulo, mas sem qualquer traço de gentileza na voz.
— Eu já treinei tanto... mas nunca treinei o nosso primeiro beijo. Então, me desculpa se ele não for bom — digo, todo bobo, sem perceber o abismo que se abre entre nós.
— Eu já te falei um monte de vezes: eu não gosto de nerds caneludos como você. Se coloca no seu lugar. Alguém como eu não fica com pessoas como você — diz Ariel, irritado, cada palavra afiada como uma lâmina.
— Ariel? — digo, chocado, sentindo o chão desaparecer sob meus pés.
— É isso mesmo que você escutou. Só de imaginar beijando essa sua boca, meu estômago embrulha — diz ele, virando-se. — Acabou o show. Agora vão todos pra casa — acrescenta, enquanto caminha até o carro.
As palavras de Ariel me atingem com força total. Meu peito aperta, como se algo estivesse sendo esmagado por dentro. Dói respirar. Dói ficar em pé. Dói existir ali.
Rafael, que estava escondido atrás de uma árvore, sai correndo.
— Você pegou pesado, Ariel — diz Rafael, chocado, vindo até mim.
— Que seja. Talvez só assim ele pare de me importunar — responde Ariel, antes de bater a porta do carro.
— Joel... você está bem? — pergunta Rafael, com cuidado.
— Não — respondo, com a voz trêmula, enquanto me abaixo para pegar a lousa caída no chão. Meus dedos tremem. Uma lágrima escorre pelo meu rosto.
É a primeira vez que as palavras de Ariel realmente me machucam. Ouvir da boca dele que sente nojo de mim... de me beijar. Algo dentro de mim se quebra ali, silencioso e definitivo, como uma equação que nunca mais vai fechar.
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