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Telemarketing: Os bastidores por trás das linhas.

Antonio_Goncalves
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Apresentação

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Apresentação

Atrasos, termo que eu poderia incorporar ao meu sobrenome. Imagine esse feito numa segunda-feira de manhã. Você levanta agitado depois de uma noite curta de sono e corre contra o relógio pra recuperar os minutos perdidos: um banho de gato, o malabarismo pra se vestir, arrumar suas coisas e tomar café às pressas — quando dá tempo de fazer tudo isso.

Depois ainda tem que contar com a pontualidade do transporte público em meio a um trânsito sempre imprevisível. E nessas horas parece que tudo conspira contra você: faróis sempre fechados, um buraco novo bem no meio de uma avenida movimentada, o ônibus superlotado — e o motorista insistindo em parar em todo ponto.

Tem ainda o metrô com problema na via, a escada rolante quebrada, gente que insiste em andar lado a lado na calçada olhando vitrine. Parece um jogo em que o objetivo é vencer esses obstáculos pra chegar ao trabalho dentro dos quinze minutos de tolerância.

Mas aquela segunda-feira foi diferente. A corrida no parque, na tarde de domingo anterior, me esgotou; só lembro de ter comido alguma coisa, sentado no sofá pra assistir TV, e apagado. Quando dei por mim, estava sendo acordado pela claridade dos primeiros raios de sol na janela da sala. Levantei assustado e olhei o relógio: ainda era cedo, bem mais cedo que de costume — o que me deu a chance de ir trabalhar com mais tranquilidade, pela primeira vez em muito tempo.

Tomei um bom banho pra despertar e fiz tudo sem a pressa de sempre. Um feito desses deveria significar alguma coisa — seria um presságio? Talvez. Só sei que meus hábitos noturnos não costumavam me dar essa chance, e fugir disso deveria ter algum sentido maior.

Pensamentos à parte, tranquei a casa e segui pro trabalho. Depois de cruzar metade da cidade, do bairro afastado onde morava até a região central, consegui chegar à empresa uns bons minutos antes das oito da manhã. Nem lembro a última vez que isso tinha acontecido — e, na hora de comemorar meu triunfo, fui interrompido pelo celular tocando. Quem seria àquela hora? A identificação "Privado" no visor me fez querer ignorar, mas, por algum motivo, atendi.

— Bom dia. Com quem falo?

— Com Marcos.

— Bom dia, senhor Marcos, meu nome é Ana. Tudo bem? — Ali já matei a charada: era uma atendente de telemarketing.

— Tudo bem — respondi, e ela deu início à conversa.

— Nós somos do jornal local e seu nome foi selecionado em nosso banco de dados. Foi concedido um desconto de 60% na anuidade de qualquer uma das nossas publicações. Correto?

— Correto, mas... — ela nem me deu chance de terminar e continuou.

— O senhor pagaria cem reais por essa anuidade. Vai pagar agora apenas quarenta reais por esse serviço. Correto?

— Olha, Ana... — de novo ela me interrompeu. Aliás, tentar dialogar com atendente de telemarketing é perda de tempo: nada tira a atenção deles do script.

— Mas antes, gostaria de dizer que, com mais dez reais, o senhor pode ter nosso cartão fidelidade, com a primeira anuidade já paga, o que dá desconto em farmácias, supermercados e outros estabelecimentos filiados. Correto?

— Sim — respondi rápido, tentando evitar ser interrompido de novo.

— Pela quantia de cinquenta reais o senhor tem esses dois serviços, e ainda vamos enviar um brinde, sem custo algum. Correto? — nem respondi, deixei ela terminar.

— Basta o senhor nos passar seus dados e responder algumas perguntas, numa ligação gravada pra sua segurança. Correto?

— Olha... — tentei interromper de novo, mas ela foi mais rápida.

— O senhor pode me passar seus dados pra efetuarmos o serviço?

— Meus dados? Desculpe, mas não estou interessado — respondi, tentando poupar meu tempo e o dela. Ela não desistiu.

— Senhor Marcos, se prestar atenção, vai ver que é um valor pequeno em troca de muitas vantagens nos estabelecimentos da cidade. É uma ótima oportunidade...

Oportunidade eu teria agora, se conseguisse acabar com aquele inconveniente.

— Olha, Ana, desculpe, mas não estou interessado mesmo. Já recebo um bom jornal e tenho dois cartões de crédito que me dão toda a dor de cabeça de que preciso. Se um dia eu mudar de ideia, tenho seu número aqui na bina e sei seu nome — entro em contato. Tudo bem? Tenha um bom dia, muito obrigado pela atenção — disse isso e desliguei.

Que jeito chato de começar o dia. Uma das poucas vezes que consegui chegar antes do horário na empresa, e aquela ligação quase me atrasou mesmo assim. Não tenho paciência com as inúmeras ligações que recebo, sempre oferecendo os mesmos serviços, querendo enfiar garganta abaixo produtos que eu nem conheço e nunca vou usar.

Ligações assim chateiam qualquer um — mas a grande ironia é que vejo atendentes de telemarketing fazendo esse tipo de ligação o tempo todo, já que trabalho justamente num call center. Ainda assim, não sou poupado por eles. Sei que vender é tarefa difícil, e essas pessoas abordam desse jeito porque, além de serem orientadas a agir assim, precisam garantir a comissão no fim do mês. Vender é uma arte — dizem até que um bom vendedor vende óculos pra cego — mas essas frentes de venda surgem sem levar em conta a real necessidade do público-alvo. Público esse que acaba sendo qualquer pessoa com um número de telefone.

"Eu diria que o telemarketing se tornou um mal necessário, mais uma peça nessa engrenagem imensa que move o mundo atual."
— Autor desconhecido

Thoughts

  • camila_release

    Oxe, a Ana emendou três ofertas sem respirar. Deve ser meta de ligação por hora, ninguém fala assim por escolha.

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  • SebastiaoOliva

    Aquilo que descreve, a rapariga impedida de sair do guião depois de o cliente já ter recusado, é uma decisão tomada bem acima dela. O desconto de sessenta por cento, o cartão, o brinde: aquilo vem tudo escrito e cronometrado. Já assinei processos parecidos e sei o que custa a quem está ao telefone.

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  • PriscilaGomes

    Tem uma conta que ninguém faz nessas ligações: quantas chamadas a Ana precisa emendar pra fechar uma só. O incômodo de quem atende é pequeno perto do dia inteiro dela.

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  • Neusa

    Você tratou a moça pelo nome e ainda agradeceu antes de desligar. Foi a parte de que mais gostei, porque quase ninguém faz isso.

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  • Ovid

    O dia em que ele finalmente acordou cedo e mesmo assim quase se atrasou por causa da ligação me fez pensar em como o telefone virou a única porta que a gente não consegue trancar. Aposto que quem trabalha em call center lê este texto bem diferente de quem só recebe. Obrigado por trazer os dois lados!

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  • MauricioDelfino

    O "Correto" repetido no fim de cada frase é o método inteiro: arrancar concordância pequena até que dizer não no final fique custoso. Vendiam enciclopédia de porta em porta com a mesma cadência, muito antes de existir discagem em massa por telefone.

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