Apresentação
Atrasos, termo que eu poderia incorporar ao meu sobrenome. Imagine esse feito numa segunda-feira de manhã. Você levanta agitado depois de uma noite curta de sono e corre contra o relógio pra recuperar os minutos perdidos: um banho de gato, o malabarismo pra se vestir, arrumar suas coisas e tomar café às pressas — quando dá tempo de fazer tudo isso.
Depois ainda tem que contar com a pontualidade do transporte público em meio a um trânsito sempre imprevisível. E nessas horas parece que tudo conspira contra você: faróis sempre fechados, um buraco novo bem no meio de uma avenida movimentada, o ônibus superlotado — e o motorista insistindo em parar em todo ponto.
Tem ainda o metrô com problema na via, a escada rolante quebrada, gente que insiste em andar lado a lado na calçada olhando vitrine. Parece um jogo em que o objetivo é vencer esses obstáculos pra chegar ao trabalho dentro dos quinze minutos de tolerância.
Mas aquela segunda-feira foi diferente. A corrida no parque, na tarde de domingo anterior, me esgotou; só lembro de ter comido alguma coisa, sentado no sofá pra assistir TV, e apagado. Quando dei por mim, estava sendo acordado pela claridade dos primeiros raios de sol na janela da sala. Levantei assustado e olhei o relógio: ainda era cedo, bem mais cedo que de costume — o que me deu a chance de ir trabalhar com mais tranquilidade, pela primeira vez em muito tempo.
Tomei um bom banho pra despertar e fiz tudo sem a pressa de sempre. Um feito desses deveria significar alguma coisa — seria um presságio? Talvez. Só sei que meus hábitos noturnos não costumavam me dar essa chance, e fugir disso deveria ter algum sentido maior.
Pensamentos à parte, tranquei a casa e segui pro trabalho. Depois de cruzar metade da cidade, do bairro afastado onde morava até a região central, consegui chegar à empresa uns bons minutos antes das oito da manhã. Nem lembro a última vez que isso tinha acontecido — e, na hora de comemorar meu triunfo, fui interrompido pelo celular tocando. Quem seria àquela hora? A identificação "Privado" no visor me fez querer ignorar, mas, por algum motivo, atendi.
— Bom dia. Com quem falo?
— Com Marcos.
— Bom dia, senhor Marcos, meu nome é Ana. Tudo bem? — Ali já matei a charada: era uma atendente de telemarketing.
— Tudo bem — respondi, e ela deu início à conversa.
— Nós somos do jornal local e seu nome foi selecionado em nosso banco de dados. Foi concedido um desconto de 60% na anuidade de qualquer uma das nossas publicações. Correto?
— Correto, mas... — ela nem me deu chance de terminar e continuou.
— O senhor pagaria cem reais por essa anuidade. Vai pagar agora apenas quarenta reais por esse serviço. Correto?
— Olha, Ana... — de novo ela me interrompeu. Aliás, tentar dialogar com atendente de telemarketing é perda de tempo: nada tira a atenção deles do script.
— Mas antes, gostaria de dizer que, com mais dez reais, o senhor pode ter nosso cartão fidelidade, com a primeira anuidade já paga, o que dá desconto em farmácias, supermercados e outros estabelecimentos filiados. Correto?
— Sim — respondi rápido, tentando evitar ser interrompido de novo.
— Pela quantia de cinquenta reais o senhor tem esses dois serviços, e ainda vamos enviar um brinde, sem custo algum. Correto? — nem respondi, deixei ela terminar.
— Basta o senhor nos passar seus dados e responder algumas perguntas, numa ligação gravada pra sua segurança. Correto?
— Olha... — tentei interromper de novo, mas ela foi mais rápida.
— O senhor pode me passar seus dados pra efetuarmos o serviço?
— Meus dados? Desculpe, mas não estou interessado — respondi, tentando poupar meu tempo e o dela. Ela não desistiu.
— Senhor Marcos, se prestar atenção, vai ver que é um valor pequeno em troca de muitas vantagens nos estabelecimentos da cidade. É uma ótima oportunidade...
Oportunidade eu teria agora, se conseguisse acabar com aquele inconveniente.
— Olha, Ana, desculpe, mas não estou interessado mesmo. Já recebo um bom jornal e tenho dois cartões de crédito que me dão toda a dor de cabeça de que preciso. Se um dia eu mudar de ideia, tenho seu número aqui na bina e sei seu nome — entro em contato. Tudo bem? Tenha um bom dia, muito obrigado pela atenção — disse isso e desliguei.
Que jeito chato de começar o dia. Uma das poucas vezes que consegui chegar antes do horário na empresa, e aquela ligação quase me atrasou mesmo assim. Não tenho paciência com as inúmeras ligações que recebo, sempre oferecendo os mesmos serviços, querendo enfiar garganta abaixo produtos que eu nem conheço e nunca vou usar.
Ligações assim chateiam qualquer um — mas a grande ironia é que vejo atendentes de telemarketing fazendo esse tipo de ligação o tempo todo, já que trabalho justamente num call center. Ainda assim, não sou poupado por eles. Sei que vender é tarefa difícil, e essas pessoas abordam desse jeito porque, além de serem orientadas a agir assim, precisam garantir a comissão no fim do mês. Vender é uma arte — dizem até que um bom vendedor vende óculos pra cego — mas essas frentes de venda surgem sem levar em conta a real necessidade do público-alvo. Público esse que acaba sendo qualquer pessoa com um número de telefone.
"Eu diria que o telemarketing se tornou um mal necessário, mais uma peça nessa engrenagem imensa que move o mundo atual."
— Autor desconhecido