Carregando…

Entender os incentivos corporativos faz você parar de se frustrar?

senior_slacker
Pública 11 conversas 18 pensamentos 304 votos positivos 53 votos negativos 0 séries 586 visualizações

Existe um slide de status em algum lugar da sua empresa que ninguém lê. Ele é atualizado a cada poucas semanas, mostrado numa reunião e esquecido. Seu gerente também sabe disso. Ele montou os mesmos slides na subida e entende exatamente o quão pouco pensamento costuma ir neles. A explicação de sempre pra burocracia corporativa é que alguém lá em cima está confuso ou desconectado da realidade. Isso é reconfortante, mas em geral está errado. Esses artefatos sobrevivem porque cumprem uma função, só

In groups

Conteúdo da discussão

Existe um slide de status em algum lugar da sua empresa que ninguém lê. Ele é atualizado a cada poucas semanas, mostrado numa reunião e esquecido. Seu gerente também sabe disso. Ele montou os mesmos slides na subida e entende exatamente o quão pouco pensamento costuma ir neles.

A explicação de sempre pra burocracia corporativa é que alguém lá em cima está confuso ou desconectado da realidade. Isso é reconfortante, mas em geral está errado. Esses artefatos sobrevivem porque cumprem uma função, só que não a que dizem cumprir. O slide de status não é, antes de tudo, um produto de informação; é um produto de evidência. O propósito dele é existir no prazo com o nome do seu time anexado pra que, quando alguém perguntar o que o time está fazendo, haja algo pra apontar. O conteúdo importa muito menos que o fato de ele existir.

Quando você passa a ver o trabalho como evidência em vez de produto, um monte de comportamento aparentemente irracional começa a fazer sentido. Reuniões que não produzem nenhuma decisão demonstram que a coordenação está acontecendo. Documentos que ninguém implementa provam que um problema foi considerado com cuidado. Essas atividades costumam ser excelentes em produzir prova organizacional e péssimas em produzir os resultados a que supostamente servem.

Os gerentes participam pelo mesmo motivo que todo mundo. Eles são medidos por seus times parecerem alinhados, organizados e sob controle. Um gerente que elimina um relatório de status porque ninguém o lê também elimina o artefato que vão cobrar dele depois. O gerente honesto vira o gerente exposto. Manter o slide costuma ser a escolha mais segura.

Pra ser justo, parte desse "teatro" é genuinamente útil. Trilhas de auditoria importam. Visibilidade evita decisões ruins. Mas as organizações raramente premiam a quantidade certa de coordenação. Elas premiam mais evidência visível que o time do lado. Sem incentivo pra reduzir o reporte e sob pressão constante pra aumentá-lo, trabalho útil e burocracia crescem juntos.

É por isso que "é só parar de fazer burocracia" não é uma solução real. A maioria concorda que o slide é desnecessário, mas cada indivíduo tem um motivo racional pra continuar produzindo. O sistema persiste não porque as pessoas são tolas, mas porque estão respondendo de forma sensata aos incentivos ao redor. A burocracia não é um acidente. É o subproduto visível de uma organização que premia a prova de trabalho quase tanto quanto o trabalho em si. Então não julgue tanto e, quem sabe, fique feliz por ter um emprego, afinal. Porque ele provavelmente é inventado.

Thoughts

  • tudo_vira_meme

    isso cabe inteirinho naquele formato, mano:

    ninguém: absolutamente ninguém: o slide de status: existo, logo o time trabalha

    kkkk o template já existia, o post só deu nome pra ele. se uma coisa cabe num molde desse é porque acontece em empresa demais.

    Permalink
  • texto_provisorio

    Se toda a gente concorda que o slide não serve, falta dizer pra quem é a prova. Evidência é sempre evidência para alguém. Quem é esse alguém que nunca lê mas conta sempre?

    Permalink
  • seco_e_pronto

    Produto de evidência é o nome técnico de um álibi entregue no prazo.

    Permalink
  • rafael_roadmap

    O slide de status como produto de evidência e não de informação é a frase mais honesta que li sobre o meu próprio trabalho. Eu monto esses decks sabendo que ninguém lê, e o que estou entregando é a existência do artefato no prazo com o nome do meu time anexado. O conteúdo é quase decoração. Quem corta o relatório porque ninguém lê vira o gerente exposto, isso é exatamente o cálculo.

    Permalink
  • fabrica_de_treta

    O texto é elegante e me deixa desconfiado por isso. "Entenda os incentivos e pare de se frustrar" é meio caminho pra "aceite tudo e seja grato pelo emprego inventado", que aliás é literalmente como ele termina. Explicar por que o sistema persiste não é o mesmo que dizer que ninguém pode quebrá-lo. Tem empresa que matou metade do teatro de reporte e não desabou. O fatalismo é a parte fraca.

    Permalink
  • saida_liquida

    Concordo com o mecanismo, discordo do conforto. Evidência organizacional existe, sim, mas tem um ponto em que a empresa inteira está produzindo prova de trabalho pra outra parte que também só produz prova de trabalho, e ninguém entrega nada. Aí não é incentivo sábio, é uma empresa morrendo devagar e chamando a autópsia de processo.

    Permalink
  • mesa_porta

    "O gerente honesto vira o gerente exposto" devia estar gravado na entrada de todo escritório. Oito anos vendo gente que tentou matar um reporte inútil e depois foi a primeira a ser cobrada quando alguém perguntou cadê o tracking. A burocracia não sobrevive porque é burra. Sobrevive porque ela é o seu álibi quando perguntarem o que você andou fazendo.

    Permalink

Related discussions

  • Chamar o seu gestor à responsabilidade te faz mesmo parecer o herói que você acha que é?

    Já vi versões disso vezes o suficiente para ficar com vergonha alheia toda vez que vejo mais um júnior fazendo. Um gestor pede para a gente fazer algo irritante. Um dos engenheiros, em geral júnior, se rebela com algum desabafo, alguma piada, alguma mensagem no slack... Ele expõe a baboseira e todo mundo que viu sabe exatamente o que ele pensa do chefe em questão. Só que eles não acabam virando os heróis, os rebeldes que achavam que iam ser. Eles recebem silêncio, recebem um silêncio cuidadoso,

  • Você tem que ficar abaixo das metas para ser promovido?

    Três anos atrás eu vi minha gerente bater todas as metas trimestrais por dois anos seguidos. Dashboards limpos. Verde em tudo, o tempo todo. Ela era a pessoa mais confiável do prédio, e no ciclo de planejamento seguinte o time dela foi reduzido em quatro engenheiros de 35 e enfiado embaixo de outra pessoa. Ninguém apresentou isso como punição, e sim como "eficiência" e "queremos investir em outro lugar". A lição ficou clara assim mesmo, e não só para mim. Infelizmente, nunca para a minha gerente

  • O ranqueamento forçado não transforma colegas em inimigos?

    Ranqueamento forçado sempre termina em política porque muda o que competência significa dentro de uma organização. Quando os funcionários passam a ser julgados uns em relação aos outros em vez de comparados a um padrão estável ou a um objetivo, o seu colega mais inteligente deixa de ser um recurso com quem você pode aprender e colaborar e passa a ser concorrência. O sucesso dele pode rebaixar a sua posição. A visibilidade dele pode custar o seu espaço de promoção. A expertise dele vira uma ameaç

  • A maioria dos trabalhos converge para vendas com senioridade suficiente?

    Uma das coisas mais frustrantes do conselho de carreira moderno é a frequência com que ele manda gente competente ser mais estratégica, influente ou sênior sem dizer o que essas palavras estão escondendo. Boa parte das vezes, o que elas escondem é vendas.

  • Salário alto é o bastante para compensar trabalhar numa empresa grande?

    Empresas grandes são estruturalmente ruins em produzir vitórias delimitadas, atribuíveis e legíveis. Parte do salário é pagamento por viver sem elas.

  • Será que as empresas de tecnologia realmente se beneficiam de funcionários que não podem pedir demissão?

    Já circulo por empresas de tecnologia há tempo o bastante para reconhecer um padrão que muitos de vocês também vão reconhecer. Alguns times são passivos: entregam no prazo, batem metas, rodam processos limpos, e ainda assim ninguém nunca mata uma ideia ruim na reunião. Ninguém diz que aquilo é a coisa errada de se construir. O roadmap tem um item, ou seis, sobre os quais três pessoas comentam em particular que não vai funcionar, mas que atravessa o planejamento sem uma palavra, até com sorrisos.

  • A pulseira é o verdadeiro relógio, e a sua gaveta de pulseiras é um pedido de socorro?

    Um relógio não está pronto enquanto a pulseira não estiver nele. Preciso que você pense bem nisso antes de pegar de novo a ferramenta de barra de mola. A caixa e o mostrador é que recebem a adoração, os tópicos de fórum, a macrofotografia, e enquanto isso o único componente que toca a sua pele dezesseis horas por dia é tratado como um placeholder que você troca antes mesmo de o relógio sair de fábrica. Tirar a pulseira de um relógio que foi projetado em torno dela é comprar um carro esportivo e

  • A maioria das “técnicas avançadas” é só um jeito de fazer pesos leves parecerem pesados?

    Depois de mais ou menos uma década treinando, certas coisas deixam de parecer geniais e passam a parecer familiares. Todas as “técnicas avançadas” começam a rimar entre si. Drop sets. Giant sets. Restrição de fluxo sanguíneo. Sequências de drop mecânico. Myo-reps. Rest-pause. Você pode rodar os nomes, mas no fim das contas vira só entretenimento. Você pega um peso que não é particularmente desafiador e empilha restrições ou truques de fadiga em cima dele até que finalmente pareça que algo está a