Três anos atrás eu vi minha gerente bater todas as metas trimestrais por dois anos seguidos. Dashboards limpos. Verde em tudo, o tempo todo. Ela era a pessoa mais confiável do prédio, e no ciclo de planejamento seguinte o time dela foi reduzido em quatro engenheiros de 35 e enfiado embaixo de outra pessoa. Ninguém apresentou isso como punição, e sim como "eficiência" e "queremos investir em outro lugar". A lição ficou clara assim mesmo, e não só para mim. Infelizmente, nunca para a minha gerente.
Se você termina 100 por cento do que se comprometeu a entregar, você não provou que é excelente. Você provou que tinha mais gente do que o trabalho exigia. É só isso que um quadro verde diz para o VP 3 camadas acima de você. O trabalho foi dimensionado para o time, o time deu conta, logo o time pode ser menor ao custo dos 10-20% menos importantes. Você montou o caso contra si mesmo e apresentou numa avaliação trimestral na esperança de conseguir uma promoção.
Então as pessoas que sobrevivem e prosperam aprendem a ficar lá pelos 80 por cento. Não 50, que parece um time que não consegue executar. Não 95, que é só 100 com um erro de arredondamento. Por volta de 70-80, onde a história é mais ou menos assim: estamos claramente fazendo muita coisa, estamos claramente perto, e o time se beneficiaria de ter mais engenheiros. Não entregar aquele último quinto é o jeito de dizer "me dá mais dois engenheiros" sem nunca abrir o pedido. A lacuna é o pedido.
Eu quero insistir
Quero ser preciso sobre o que isso é, porque é fácil ouvir como preguiça ou fraude e geralmente não é nem uma coisa nem outra. A versão competente disso não é enrolação. É se comprometer demais de propósito. Você assume mais do que consegue terminar, termina a maior parte, e o que sobra vira prova de ambição em vez de prova de fracasso. Um gerente que se compromete com dez coisas e entrega oito passa a imagem de faminto. Um gerente que se compromete com oito e entrega oito passa a imagem de acomodado, e acomodado é a palavra que vem antes de um reorg. A liderança não recompensa o time que ajustou as metas ao próprio tamanho. Ela recompensa o time que parece passar fome.
O sinal está em como as reuniões de planejamento de fato funcionam. Repare em quem infla. Os gerentes experientes chegam e pedem um número de funcionários que já decidiram que não vão justificar inteiramente até o fim do ano, porque o pedido do ano que vem começa a partir da lacuna deste ano. O número pelo qual você ficou para trás é o lance de abertura do número que você consegue da próxima vez. Eu já estive em salas onde um VP olhou para um time que entregou tudo e disse, sem nenhuma ironia, que estava preocupado que eles não estivessem sendo ambiciosos o suficiente. O time que ficou 20 para trás levou a nova vaga. Esse não é um padrão hipotético que eu estou extrapolando. É a coisa mais tediosamente consistente que eu vi em três empresas. O seu VP não sabe o que você está fazendo, ele vê excels.
Acontece nas crises também..
A objeção é que nada disso sobrevive a um ano ruim. Quando os cortes vêm de cima e são reais, diz o argumento, quem entrega de forma constante fica protegido e quem fica devendo cronicamente é o item óbvio a cortar. Eu acho que isso inverte o timing exatamente. Num corte real, quem decide não abre uma planilha de percentuais de atingimento. Eles olham quais times estão visivelmente no limite e quais têm folga, e o time que bateu 100 por cento num plano confortável é o que está com a folga estampada na manga. Ou mesmo que não pensem isso, a empresa consegue tocar o barco com uns 80% do trabalho do seu time de qualquer jeito. Quem entregou tudo fez o caso de que o trabalho podia ser feito com menos. Quem ficou devendo fez o caso de que nunca houve o bastante para começar. Um desses é um time muito mais difícil de cortar sem que algo quebre visivelmente, e os gestores protegem os times cuja dor seria barulhenta.
Eu não estou te dizendo para ir enrolar de propósito. Estou te dizendo que o incentivo é construído para produzir enrolação, e fingir o contrário é como gerentes ambiciosos entram no planejamento, batem os números, se sentem bem com isso, e perdem gente. Se a sua recompensa por terminar o trabalho é um time menor no trimestre que vem, você não está sendo medido por entrega. Você está sendo medido por quão convincentemente consegue se manter faminto. Os gerentes que entendem isso nunca deixam o quadro ficar totalmente verde.