Amigo:
Como realmente foi o fim de vocês? O que aconteceu naquele dia?
Alguém:
Tu sabe que ela era de outra religião, né? A gente já tinha tentado outras vezes, mas sempre acabava nesse mesmo impasse da religião.
Só que o que a gente vivia era tão bom, tão forte, que eu acabei cedendo. Aceitei tentar fazer parte da religião dela.
Ela pediu pra eu conversar com o pastor dela sobre o nosso namoro, e eu fui. De cara, ela já falou que aquilo não ia dar certo porque eu não era cristão. Kkk.
Mas mesmo assim, a gente tentou.
E, no fim, foi realmente a religião que separou a gente.
Amigo:
Então vocês não terminaram porque o sentimento acabou. A religião acabou pesando mais na relação.
Mas me fala uma coisa… quando vocês terminaram, você sentiu que ela realmente não te amava mais? Ou você acha que ela ainda sentia alguma coisa por você?
Alguém:
Ela sentia. E eu também.
Mas sabe… eu já não aguentava mais tentar ser alguém que eu não era pra conseguir ficar com ela.
Eu nunca pedi pra ela mudar nada nela. Pra mim, ela já era perfeita do jeito que era.
E aí terminamos numa segunda-feira, numa conversa bem difícil.
Amigo:
E como foi essa conversa? Quem decidiu terminar?
Alguém:
Acho que nós dois já sabíamos que aquele seria o fim.
Ela tinha começado um tratamento psicológico pra lidar com algumas coisas da infância dela, com uma pessoa ligada à igreja dela. Eu não sei exatamente o que aconteceu nessas sessões, mas depois disso eu senti que ela mudou.
Naquele dia, ela falou que tinha confundido admiração com amor.
Eu via a boca dela falando aquilo, mas… sei lá. Os olhos dela pareciam dizer outra coisa.
Eu não pedi pra ela ficar. Não fui atrás.
Quando ela saiu do carro, eu queria muito ter ido atrás dela. Muito mesmo.
Mas, no fundo, eu sabia que não era o certo.
Amigo:
Então, mesmo ouvindo ela dizer que tinha confundido admiração com amor, você sentiu que aquilo não combinava com o jeito que ela estava te olhando.
E você queria ir atrás, mas deixou ela ir.
O que passou na sua cabeça naquele momento?
Alguém:
Sinceramente? Nada.
E, ao mesmo tempo, tudo.
Eu fiquei olhando ela ir embora pelo retrovisor e não fui atrás.
Eu vi a pessoa que mais amei na minha vida indo embora… e não fiz nada.
Mas eu não fiz nada porque ela saiu daquele carro pra ir atrás do sonho dela.
Ela sempre quis se casar com um homem cristão, que frequentasse a igreja e que talvez um dia até virasse pastor.
E esse cara não sou eu.
Então eu deixei ela ir atrás do sonho dela, mesmo sabendo que o meu estava indo embora junto.
Amigo:
E depois que ela foi embora, quando você ficou sozinho… o que você sentiu?
Alguém:
As lágrimas.
Amigo:
Você chorou ali mesmo?
Alguém:
Só depois que ela foi.
Eu sabia que ela ia ficar muito mal se me visse chorando. E, talvez, ela tenha até pensado que eu não a amava de verdade porque eu não chorei na frente dela.
Amigo:
Mas você não chorou porque não estava sofrendo. Você segurou porque sabia que, se ela te visse daquele jeito, talvez aquilo fosse ainda mais difícil pra ela.
E depois, quando você ficou sozinho… você teve vontade de voltar atrás e procurar ela?
Alguém:
Sim.
Até hoje eu tenho.
Mas eu sei que não devo fazer isso. Pelo meu bem e pelo bem dela.
Se um dia existir uma decisão de voltar, precisa partir dela.
Amigo:
Entendo.
Mas me responde uma coisa bem sincera: se amanhã ela aparecesse na sua frente e dissesse “eu quero tentar de novo”… você voltaria?
Alguém:
Não.
Eu não voltaria porque sei que ela não seria feliz comigo.
Eu não sou o sonho dela.
E foi assim o fim de algo que, talvez, nem deveria ter começado.
Uma vez eu ouvi que certos amores são pra ser sentidos, não vividos.
E acho que o nosso era um desses.
Amigo:
Mas você realmente acha que o que vocês viveram foi um erro só porque terminou?
Porque, pelo que você me contou, foram anos de amizade. Vocês tentaram, se amaram… e, mesmo sabendo que talvez não desse certo, aquilo foi forte pra você.
Se você pudesse voltar no tempo sabendo exatamente como tudo terminaria… você teria escolhido não viver esse amor?
Alguém:
Sim.
Porque eu ainda seria amigo dela…
Amigo:
Então, no fundo, você não se arrepende de ter amado ela. Você se arrepende de ter perdido a amizade que existia antes de tudo isso.
Alguém:
É…
Acho que é exatamente isso.
Amigo:
E talvez seja por isso que dói tanto.
Não foi só o fim de um relacionamento. Foi perder a forma como vocês faziam parte da vida um do outro.
Alguém:
É.
Eu preferia ter continuado sendo amigo dela… mesmo que nunca tivesse vivido tudo isso.
Amigo:
Mas você viveu.
E foi real enquanto durou.
Alguém:
Foi.
Amigo:
Então talvez agora não seja sobre apagar o que aconteceu.
Talvez seja só aceitar que algumas histórias acabam, mesmo quando o sentimento não acaba junto.
Alguém:
É…
Certos amores são pra ser sentidos, não vividos.
Amigo:
Talvez esse tenha sido o de vocês.
Alguém:
Talvez.