O balde de ferro. Uf.
Filhos do Abandono
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O balde de ferro. Uf.
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Capítulo 4 – O bom Doutor
A noite caiu pesada, abafada, como se o próprio ar escondesse mais um segredo. Os lampiões tremiam nos corredores dos contêineres, projetando sombras que se contorciam como serpentes nas paredes metálicas.
Jeff não conseguia se conformar. Noah havia sumido, e ninguém parecia se importar. Os adultos seguiam rindo alto em mesas improvisadas, trocando insultos e tragos enquanto se embriagavam; outros afiavam facas, consertavam correntes, como se a ausência de uma criança fosse apenas rotina.
Jeff sabia onde procurar. Ou, ao menos, acreditava que sabia.
O terceiro andar dos contêineres, sufocante e sombrio, levava ao quarto de Anselmo, o Doutor. E, diante daquela porta pesada, com a corrente que normalmente a mantinha cerrada, Jeff esperava. O menino não ousaria invadir às cegas — precisava de uma chance.
A oportunidade veio mais rápido que ele imaginaria. Um homem surgiu do corredor, apavorado, gritando pelo Doutor:
— Anselmo! Vem rápido, o Rato caiu da escada! Está sangrando!
O velho atendeu sem demora. Saiu com o passo lento, mas firme, carregando sua bolsa de improvisos. Ao sair esqueceu de fechar a corrente.
O coração de Jeff martelou. Essa era a brecha.
Com mãos trêmulas, empurrou a porta e entrou. O quarto era sufocante. O cheiro de umidade e ferro oxidado se misturava a outro odor, mais ácido e doce, que fez o estômago de Jeff embrulhar. Na penumbra, iluminado por uma vela quase derretida, uma mesa ocupava o centro. Sobre ela, tecidos costurados em formas humanas incompletas — bonecos sem rosto, sem membros, retalhos grotescos de pano e linha.
Ao lado, instrumentos rudes: alicates, facas enferrujadas, agulhas grossas. Tudo bem organizado.
Jeff quase não percebeu o tempo passar. Até que passos se aproximaram.
Anselmo entrou de volta, segurando um balde de ferro. Seu rosto permanecia indecifrável, frio e sem emoções. Ele caminhou até a mesa, pegou um pequeno frasco de vidro e saiu novamente, sem sequer notar a porta entreaberta.
O garoto se escondeu atrás de uma pilha de panos, sem respirar, até ouvir os passos descendo as escadas.
Os passos tomaram distância.
Era a sua chance de sair.
Jeff espiou para o corredor, certificou-se de que não havia ninguém, e escapou pela porta, o coração descompassado como se fosse explodir a qualquer instante.
Mas uma certeza lhe corroía a mente: Noah estava ali. Em algum lugar daquele quarto.
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