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Sobreviva Jeff

RafaelDuGueto

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Capítulo 9 — Um anjo (talvez) do céu

Mary era uma mulher bela, dona de uma inteligência peculiar e de uma serenidade que parecia desafiar o lugar onde vivia.

Seus longos cabelos castanhos desciam até a cintura. A pele morena, lisa e delicada, contrastava com a aspereza daquele mundo. Seus olhos carregavam uma bondade difícil de encontrar, mas também uma lascívia que ela aprendera a usar com a mesma naturalidade com que respirava.

Mary amava as crianças.

Não porque fossem inocentes, ela sabia, melhor do que muitos, que a inocência era uma condição passageira, mas porque eram as únicas pessoas capazes de olhá-la sem desejar alguma coisa em troca.

As crianças não enxergavam seu corpo como uma mercadoria. Não lhes importava sua beleza, sua reputação ou aquilo que poderia oferecer.

Para elas, Mary era apenas Mary.

E isso lhe bastava.

Com o passar dos anos, aprendera que a beleza poderia ser uma ferramenta de sobrevivência. Sabia o que os homens desejavam, o que estavam dispostos a oferecer e, sobretudo, como convencê-los de que estavam no controle.

Era uma mulher que compreendia as intenções alheias antes mesmo que fossem reveladas.

Havia desenvolvido uma extraordinária capacidade de observar, interpretar e, quando necessário, manipular.

Contudo, aquela inteligência não nascera de uma vida tranquila.

Mary carregava lembranças, muitas que pagaria para esquecer.

Algumas eram tão antigas que pareciam pertencer a outra pessoa.

Outras jamais a deixaram.

E uma delas começava quando ainda era uma menina de sete anos.

Mary era filha de um homem alcoólatra e de uma mulher cuja vida era estar rodeada de homens em bares.

Crescera na periferia de uma grande metrópole, cercada pelo barulho dos carros, pelas discussões dos vizinhos e pelas noites longas.

Sua mãe, Maria Rosa, era conhecida como Lua.

Nos bares e boates da região, aquele nome era mais conhecido que o próprio rosto de Maria. Lua possuía uma beleza que atraía olhares e uma vida que despertava comentários.

Mary, entretanto, nunca compreendeu verdadeiramente o que a mãe fazia para sobreviver.

Talvez por pureza.

Talvez porque as crianças tenham a extraordinária capacidade de transformar aquilo que desconhecem em algo perfeitamente normal.

Aos sete anos, Mary ainda não frequentava a escola.

Não possuía matrícula, uniforme ou alguém que a acompanhasse até o portão.

Mas todas as manhãs observava as crianças que passavam diante de sua casa carregando mochilas. Algumas corriam, outras reclamavam do sono. Quando retornavam, traziam histórias, risadas e assuntos que Mary não conseguia compreender.

Aquilo despertava nela uma curiosidade imensa.

Por que aquelas crianças desapareciam todas as manhãs e voltavam com tantas coisas para contar?

Foi assim que conheceu Amanda.

Uma menina de sua idade, de sorriso fácil e olhos curiosos, que costumava passar pela rua onde Mary morava.

As duas começaram a conversar, e não demorou para que Amanda descobrisse que a nova amiga jamais havia entrado em uma sala de aula.

— Você nunca foi à escola?

Mary balançou a cabeça.

— Nunca.

— Nem uma vez?

— Não.

Amanda pareceu refletir por alguns segundos.

— Então vem comigo amanhã!

— Posso?

— Claro! Lá tem um monte de crianças. A professora conta histórias e a gente aprende um monte de coisas.

Mary sorriu.

Pela primeira vez, a escola deixou de ser um lugar misterioso e passou a representar algo que ela desejava conhecer.

Naquela noite, quase não conseguiu dormir.

Não imaginava que, ao atravessar aquele portão, pisaria no lugar onde sua infância começaria a morrer.

Sandra era a diretora da escola.

Tinha aproximadamente quarenta e dois anos, embora seu rosto carregasse o cansaço de alguém que vivera pelo menos cinquenta e cinco.

Era uma mulher respeitada na comunidade. Mantinha uma postura rígida, falava com autoridade e gostava de ser vista como exemplo de moralidade.

Seu marido, Felipe, era gerente de um banco.

Um homem educado, bem-vestido e conhecido por sua generosidade.

Especialmente quando visitava Maria Rosa.

Felipe costumava aparecer na casa de Lua para levá-la a passeios, quando a mãe voltava trazia chocolates, roupas e pequenos presentes. Algumas saídas eram rápidas. Outras, nem tanto.

O casamento de Sandra já não possuía a tranquilidade que ambos fingiam demonstrar publicamente.

Quando descobriu as traições, Sandra sentiu seu mundo desmoronar.

Mas não deixou Felipe.

Preferiu permanecer ao lado do marido, transformando a própria casa em um campo de batalha.

Investigou Lua de todas as maneiras que conseguiu. Descobriu onde morava, quais lugares frequentava e até mesmo detalhes de sua família.

Durante muito tempo, Sandra alimentou um ódio que não conseguia descarregar sobre o próprio marido.

Felipe continuava em casa. Continuava indo ao banco. Continuava recebendo o jantar e dormindo na mesma cama.

Lua, entretanto, tornara-se a personificação de tudo aquilo que Sandra acreditava ter perdido.

E havia algo particularmente cruel no ressentimento: ele precisava de um culpado.

Naquela manhã, Mary atravessou o portão da escola segurando a mão de Amanda.

O coração parecia querer saltar de seu peito.

Havia crianças por todos os lados. O som de conversas se misturava ao arrastar de cadeiras, aos passos apressados e às vozes dos funcionários.

Mary observava tudo maravilhada.

As paredes estavam cobertas de desenhos coloridos. Havia cartazes com letras, números e figuras de animais que ela tentava reconhecer.

Era como entrar em outro mundo.

Um mundo onde as crianças pareciam ter o direito de ser crianças.

Sandra estava próxima ao corredor quando viu as duas meninas.

Então reconheceu uma delas.

Os cabelos. O rosto. Os olhos.

Mary.

A filha de Lua.

Por um instante, Sandra permaneceu imóvel.

Sentiu o rosto esquentar, as mãos tremerem e a respiração perder o ritmo.

Não enxergava uma menina de sete anos descobrindo a escola.

Enxergava Maria Rosa.

Enxergava Felipe chegando tarde em casa, com cheiro de sexo com perfume barato.

Enxergava as mentiras, os presentes e as noites em que chorara sozinha.

Sandra apertou os punhos.

O ódio, cultivado durante tanto tempo, finalmente encontrara alguém sobre quem poderia cair.

E aquela pessoa sequer sabia que estava sendo odiada.

Sandra caminhou até a cozinha.

Não cumprimentou ninguém.

Abriu uma gaveta, retirou uma faca e voltou ao corredor.

Seus passos eram firmes.

Enquanto isso, Mary e Amanda haviam entrado no banheiro.

Amanda notara algo que a amiga ainda não havia percebido.

Algumas crianças zombavam das roupas de Mary.

Sua blusa estava gasta e desbotada, e não combinava com o restante das peças. Mary, entretanto, parecia tão feliz que não prestava atenção aos cochichos.

Amanda olhou para a própria roupa.

Depois, para a amiga.

— Mary, quer trocar de blusa comigo?

Mary arregalou os olhos.

— Trocar?

— É!

— Mas a sua é muito mais bonita!

Amanda deu de ombros.

— Eu sei, mas enjoei dela. Gostei mais da sua.

Mary hesitou.

— Tem certeza?

— Tenho, ué!

Amanda não pertencia a uma família rica.

Seus pais haviam ensinado que a dignidade de uma pessoa não estava nas roupas que vestia.

E, naquele momento, a menina oferecia à nova amiga aquilo que possuía: um pequeno gesto de gentileza.

Mary aceitou.

Quando terminou de vestir a blusa, passou as mãos pelo tecido, admirando-o.

— Ficou bonita em mim?

— Ficou! — respondeu Amanda, sorrindo.

Mary sorriu também.

Talvez aquele tenha sido um dos últimos momentos verdadeiramente felizes de sua infância.

— Amanda, vou usar o banheiro. Me espera?

— Tá bom, amiga.

Mary entrou em uma das cabines e fechou a porta.

Do lado de fora, Amanda ficou próxima à pia.

Poucos segundos depois, a porta principal do banheiro se abriu.

Sandra entrou.

Não disse uma palavra.

Amanda estava de costas.

Vestia a blusa que, minutos antes, pertencera a Mary.

Sandra viu a menina e avançou.

O que aconteceu em seguida foi rápido demais.

Houve um movimento brusco.

Um ruído abafado.

Sandra perfurou o pescoço de Amanda, no mesmo instante o sangue percorreu a lâmina da faca, e escorreu pelo cabo.

Sandra sentiu o sangue quente passar entre seus dedos, e a sensação que havia se vingado de Lua e seu marido.

Depois, silêncio.

Dentro da cabine, Mary ouviu algo cair.

— Amanda?

Nenhuma resposta.

— Amanda, você tá aí?

Foi então que percebeu uma mancha vermelha avançando lentamente pelo piso, aproximando-se de seus sapatos.

Mary recuou.

Olhou para baixo e reconheceu a mão da amiga caída junto ao vão da porta.

Por alguns segundos, não conseguiu respirar.

— Amanda?

A voz saiu quase como um sussurro.

Então gritou.

— AMANDA!

A porta da cabine se abriu.

Mary encontrou a amiga caída no chão.

Tentou compreender o que estava vendo, mas seu pensamento parecia incapaz de organizar as imagens diante de seus olhos.

Sandra estava ali.

Com a faca nas mãos.

As duas se olharam.

E, naquele breve instante, a diretora percebeu a dimensão do que havia feito.

Não atacara Mary.

Atacara outra criança.

O medo de ser descoberta surgiu tão depressa quanto o ódio que a dominara.

Sandra olhou para a faca.

Depois, para Mary.

E tomou uma decisão.

— O QUE VOCÊ FEZ, GAROTA?!

Mary não respondeu.

— SOCORRO! ALGUÉM ME AJUDE!

A diretora aproximou-se da menina, colocou a faca em suas mãos e espalhou nela vestígios do sangue de Amanda.

Mary não reagiu.

Não compreendia por que aquela mulher gritava com ela.

Tampouco entendia por que segurava um objeto que jamais havia visto antes.

— ASSASSINA! — berrou Sandra. — ELA MATOU A MENINA!

Os gritos atraíram um monitor que trabalhava no corredor.

Ele entrou apressadamente.

Encontrou Amanda caída, Sandra desesperada e Mary segurando uma faca.

Não precisou de muito para acreditar que compreendia toda a situação.

Aproximou-se da menina e retirou o objeto de suas mãos.

— Não deixa ela fugir! — gritava Sandra. — Pelo amor de Deus, não deixa essa garota sair daqui!

Mas Mary não tentou fugir.

Sequer conseguiu falar.

Seu olhar permanecia fixo em Amanda.

A amiga que a convidara para conhecer a escola.

A menina que lhe oferecera uma blusa bonita.

A primeira pessoa que fizera aquele lugar parecer acolhedor.

Mary começou a chorar.

Não gritava mais.

Apenas chorava, enquanto os adultos ao redor construíam uma história da qual ela não conseguia participar.

A polícia chegou depois que Sandra comunicou a morte de uma criança dentro da escola pública.

Na versão apresentada pela diretora, Mary havia perseguido Amanda desde antes da entrada no estabelecimento.

O motivo?

Uma disputa por roupas.

Sandra afirmou que a menina demonstrara comportamento agressivo, que havia premeditado o ataque e que fora surpreendida com a arma nas mãos.

A narrativa parecia absurda.

Mas era simples.

E, sobretudo, oferecia um culpado.

Quando os policiais conduziram Mary para fora da escola, uma pequena multidão já havia se formado diante do portão.

Alguns pais choravam.

Outros gritavam.

Havia pessoas exigindo justiça e outras querendo apenas descobrir quem era a responsável por tamanha atrocidade.

Mary caminhava entre os policiais sem compreender por que tantos adultos a odiavam.

Uma mulher aproximou-se e cuspiu em sua direção.

— Monstro!

Outra apontou o dedo para a menina.

— Tem que prender essa assassina!

Mary procurou Amanda entre os rostos.

Ainda não havia compreendido que não a veria novamente.

A notícia espalhou-se rapidamente pela cidade.

Os jornais e programas locais apresentaram o caso como um assassinato cruel cometido por uma criança de apenas sete anos.

A origem de Mary tornou-se parte da acusação.

Filha de uma prostituta e um alcoólatra.

Criada na periferia.

Sem escolaridade.

Habita-te natural para um assassino.

Uma menina que, segundo as pessoas dispostas a acreditar em Sandra, já demonstrava a perversidade de alguém destinado ao crime.

Poucos perguntaram por que Mary não estava matriculada.

Ninguém parecia interessado em descobrir como ela havia entrado na escola.

E quase ninguém se perguntou por que uma criança acusada de um crime tão terrível permanecera imóvel, chorando diante do corpo da própria amiga.

A cidade precisava de um monstro.

E Mary havia sido escolhida.

Nos deslocamentos que antecederam sua internação, a menina conheceu um tipo de violência que não precisava de justificativas.

Recebeu insultos, ameaças e agressões de pessoas que jamais haviam conversado com ela.

Afinal, todos acreditavam conhecer sua história.

Todos sabiam o que ela havia feito.

Menos Mary.

Ela sabia apenas que Amanda estava morta.

Que a escola não era mais um lugar bonito.

E que, por alguma razão que ninguém se importava em explicar, o mundo inteiro havia decidido culpá-la.

Naquela manhã, Mary atravessara um portão imaginando que aprenderia a ler e escrever.

Ao final do dia, aprendera outra coisa.

Que a verdade nem sempre pertence a quem a conhece. Às vezes, pertence a quem consegue contá-la primeiro.

Thoughts

  • Rafa_da_Van

    A troca de blusa. A Sandra nem olhou o rosto, foi na roupa, e a Amanda morreu pela gentileza dela. A Mary vai descobrir um dia que aquela faca era pra ela?

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