Capítulo 2 – O Desaparecimento
O sol se punha atrás dos campos de milho, tingindo o céu de laranja e vermelho. O vento fazia as espigas dançarem em ondas. Jeff e Noah se esgueiravam pelo terreno, com a pressa de quem guarda uma travessura.
— Vamos só mais uma vez — insistiu Jeff, os olhos brilhando com a ideia de mexer nas coisas do território vizinho.
— Não gosto daquele lugar, Jeff... — murmurou Noah, puxando o colarinho da camisa rasgada. — Eles olham pra gente como se não fôssemos nada.
— É só brincadeira! — retrucou Jeff, já escalando o muro até sua fresta que separava as comunidades. — Eles nunca percebem.
Do outro lado, o cenário era outro: os corredores de contêineres se alongavam como intestinos de metal, cada passo ecoava em ressonâncias metálicas. O cheiro de óleo queimado e madeira úmida parecia mais forte ali. As sombras se esticavam, e qualquer ruído de martelo ou voz distante soava ameaçador.
Os garotos corriam de porta em porta, rindo baixinho. Esconderam ferramentas, trocaram baldes de lugar, remexeram camas mal arrumadas. Para eles, era um jogo de caça ao tesouro. Para os moradores, mais um incômodo invisível.
Mas Jeff tinha outro plano.
— Vamos espiar o quarto do Anselmo.
— O Doutor? — Noah parou, assustado. — Você tá maluco?
— Ele nunca sai de lá. Deve ser cheio de coisa estranha.
— Justamente...
A hesitação de Noah não impediu que Jeff avançasse. Subiram por uma escada improvisada, que rangia a cada passo, até alcançarem o terceiro andar. O corredor era estreito, sufocante, iluminado apenas por frestas de luz que escapavam das brechas da estrutura.
A porta do quarto de Anselmo estava entreaberta. Jeff riu, animado, e fez sinal para o amigo esperar. Noah, inquieto, ficou alguns passos atrás.
— Vai logo, então... e depois a gente volta. — a voz de Noah saiu quase num sussurro.
Jeff entrou, desaparecendo no breu do quarto. Noah ficou no corredor, olhando em volta, sentindo cada segundo se arrastar como uma eternidade. Um barulho metálico ecoou em algum ponto da estrutura, e o menino se encolheu.
— Jeff? — chamou, baixinho. Nenhuma resposta.
De repente, um vulto cruzou a visão periférica de Noah. Ele virou a cabeça rápido demais, mas não viu ninguém. Só o silêncio pesado. O coração disparou.
— Jeff? — repetiu, desta vez com a voz trêmula.
A porta rangeu atrás de si. Noah se virou... mas não havia Jeff. Não havia ninguém.
O corredor voltou ao silêncio, como se nunca tivesse havido ali duas crianças.
Noah não respondeu mais.
Quando Jeff saiu do quarto, alguns minutos depois, encontrou apenas o vazio. O lugar onde o amigo estivera parecia carregado, como se a própria sombra tivesse engolido Noah.