O velho não correr atrás dele é o pior. Quem deixa a corrente da porta aberta duas vezes queria que o miúdo entrasse.
Filhos do Abandono Sensível
Pensamento
O velho não correr atrás dele é o pior. Quem deixa a corrente da porta aberta duas vezes queria que o miúdo entrasse.
Conteúdo da publicação
Capítulo 5 – O reencontro de Noah
Jeff não dormiu. O corpo tremia, os olhos ardiam, mas cada vez que fechava as pálpebras via o quarto de Anselmo e aqueles bonecos sem rosto, costurados com linhas grossas.
Ao amanhecer, a sensação de que Noah estava ali dentro já não era dúvida, era certeza. O silêncio dos outros, a indiferença com o sumiço do amigo, só reforçava que se ele não fizesse nada, nunca mais o veria.
A espera foi longa. Jeff observou de longe o movimento dos detentos, até ver Anselmo ser chamado novamente, desta vez para tratar de um homem que havia se queimado nas fornalhas. O velho pegou sua bolsa e desceu os corredores arrastando os pés. A corrente da porta, mais uma vez, não foi fechada.
Jeff respirou fundo. Entrou.
A luz da manhã atravessava as frestas de metal, desenhando cortes amarelados no chão. O quarto parecia mais vivo do que na noite anterior, mas o ar estava ainda mais denso, impregnado por um cheiro doce de carne queimada misturado a ferro oxidado.
E então, ele o viu.
Atrás da cama, sentado de costas, havia alguém. A pequena silhueta, a forma dos ombros, o cabelo — era Noah. Ele estava imóvel, como se tivesse passado a noite inteira ali. Um livro parecia repousar em seu colo.
Jeff sentiu o peito explodir de alívio.
— Noah! — chamou, a voz esperançosa e alegre— Eu te procurei o dia todo ontem… vamos embora daqui! Esse lugar é perigoso!
Nenhuma resposta.
Ele se aproximou, o coração acelerado, já ensaiando um sorriso de reencontro. Mas, quando tocou o ombro do amigo, o mundo começou a cair.
Jeff virou-o apenas o suficiente para revelar o horror: não era Noah. Era um boneco de pano, mal costurado, o corpo recheado de trapos e serragem. Mas a cabeça… a cabeça era real- era Noah. Costurada ao corpo do boneco com pontos grosseiros, os olhos fechados por linhas pretas, a boca roxa e levemente brilhosa. O rosto de Noah, eternizado no na memória de Jeff.
Jeff caiu de joelhos, um grito mudo preso na garganta. As mãos tremeram ao tocar o boneco, como se quisesse acordar o amigo de um pesadelo impossível.
O ar faltava. O chão parecia girar. Um pânico gelado o dominou.
E foi nesse instante que uma sombra atravessou o quarto.
Anselmo estava ali, parado à porta, observando em silêncio. Seus olhos fundos e vazios o encaravam, como se soubessem de antemão que alguém entrará no seu quarto. O velho não se moveu, não disse uma palavra. Apenas assistia.
O menino correu. Correu tropeçando nas próprias pernas, esbarrando nos móveis, quase caindo pelas escadas. Mas Anselmo não o seguiu. Permaneceu imóvel, com o olhar frio, como quem observa um rato escapar de uma armadilha apenas para voltar mais tarde.
Jeff saiu do quarto em lágrimas, com o estômago revirado, carregando dentro de si a imagem que jamais seria apagada.
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