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Filhos do Abandono Sensível

RafaelDuGueto
Pensamento

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fsantos1307

O velho não correr atrás dele é o pior. Quem deixa a corrente da porta aberta duas vezes queria que o miúdo entrasse.

O velho não correr atrás dele é o pior. Quem deixa a corrente da porta aberta duas vezes queria que o miúdo entrasse.

Conteúdo da publicação

Capítulo 5 – O reencontro de Noah

Jeff não dormiu. O corpo tremia, os olhos ardiam, mas cada vez que fechava as pálpebras via o quarto de Anselmo e aqueles bonecos sem rosto, costurados com linhas grossas.

Ao amanhecer, a sensação de que Noah estava ali dentro já não era dúvida, era certeza. O silêncio dos outros, a indiferença com o sumiço do amigo, só reforçava que se ele não fizesse nada, nunca mais o veria.

A espera foi longa. Jeff observou de longe o movimento dos detentos, até ver Anselmo ser chamado novamente, desta vez para tratar de um homem que havia se queimado nas fornalhas. O velho pegou sua bolsa e desceu os corredores arrastando os pés. A corrente da porta, mais uma vez, não foi fechada.

Jeff respirou fundo. Entrou.

A luz da manhã atravessava as frestas de metal, desenhando cortes amarelados no chão. O quarto parecia mais vivo do que na noite anterior, mas o ar estava ainda mais denso, impregnado por um cheiro doce de carne queimada misturado a ferro oxidado.

E então, ele o viu.

Atrás da cama, sentado de costas, havia alguém. A pequena silhueta, a forma dos ombros, o cabelo — era Noah. Ele estava imóvel, como se tivesse passado a noite inteira ali. Um livro parecia repousar em seu colo.

Jeff sentiu o peito explodir de alívio.
— Noah! — chamou, a voz esperançosa e alegre— Eu te procurei o dia todo ontem… vamos embora daqui! Esse lugar é perigoso!

Nenhuma resposta.

Ele se aproximou, o coração acelerado, já ensaiando um sorriso de reencontro. Mas, quando tocou o ombro do amigo, o mundo começou a cair.

Jeff virou-o apenas o suficiente para revelar o horror: não era Noah. Era um boneco de pano, mal costurado, o corpo recheado de trapos e serragem. Mas a cabeça… a cabeça era real- era Noah. Costurada ao corpo do boneco com pontos grosseiros, os olhos fechados por linhas pretas, a boca roxa e levemente brilhosa. O rosto de Noah, eternizado no na memória de Jeff.

Jeff caiu de joelhos, um grito mudo preso na garganta. As mãos tremeram ao tocar o boneco, como se quisesse acordar o amigo de um pesadelo impossível.

O ar faltava. O chão parecia girar. Um pânico gelado o dominou.

E foi nesse instante que uma sombra atravessou o quarto.

Anselmo estava ali, parado à porta, observando em silêncio. Seus olhos fundos e vazios o encaravam, como se soubessem de antemão que alguém entrará no seu quarto. O velho não se moveu, não disse uma palavra. Apenas assistia.

O menino correu. Correu tropeçando nas próprias pernas, esbarrando nos móveis, quase caindo pelas escadas. Mas Anselmo não o seguiu. Permaneceu imóvel, com o olhar frio, como quem observa um rato escapar de uma armadilha apenas para voltar mais tarde.

Jeff saiu do quarto em lágrimas, com o estômago revirado, carregando dentro de si a imagem que jamais seria apagada.

Thoughts

  • fsantos1307

    O velho não correr atrás dele é o pior. Quem deixa a corrente da porta aberta duas vezes queria que o miúdo entrasse.

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  • poeta93

    Ó, meu rei, a cabeça costurada no corpo de pano! Vai postar a continuação da fuga do Jeff ainda hoje?

    Permalink
  • tresPaginas

    Hoje não durmo.

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