Fui pondo em ordem: primeiro as perdas, depois as pessoas que mexeram no que ainda não tinha fechado, e só então o dia em que você se percebeu quieta e desconfiada. Ninguém vira isso numa data certa, vai acontecendo em parcelas. Aposto que isso foi escrito logo depois de alguém dizer que ia ficar e você ter duvidado.
Sinto falta de mim
Sinto falta de mim.
In groups
Pensamento
Fui pondo em ordem: primeiro as perdas, depois as pessoas que mexeram no que ainda não tinha fechado, e só então o dia em que você se percebeu quieta e desconfiada. Ninguém vira isso numa data certa, vai acontecendo em parcelas. Aposto que isso foi escrit
Conteúdo da publicação
Sinto falta de mim.
E talvez essa seja
uma das saudades mais dolorosas
que alguém pode sentir:
sentir falta de quem você era
quando ainda não sabia
o quanto o mundo podia machucar.
Sinto falta daquela menina calma,
que acordava e ainda encontrava motivos
para gostar da vida.
Da menina que ria sem pensar demais,
que acreditava nas palavras,
que olhava para as pessoas
sem procurar segundas intenções.
Eu vivia leve.
Não porque a vida fosse leve,
mas porque eu ainda não carregava
tantas coisas dentro de mim.
Então vieram as perdas.
As decepções.
Os abandonos.
As palavras que prometeram ficar
e os silêncios que provaram o contrário.
Vieram pessoas
que tocaram em feridas
que eu mal tinha conseguido fechar.
E cada uma levou um pedaço.
Até que, um dia,
eu percebi que estava diferente.
Mais quieta.
Mais distante.
Mais desconfiada.
Fria.
E o pior é que ninguém precisou me ensinar a ser assim.
A vida ensinou.
Eu comecei a guardar o que sentia,
a engolir palavras,
a esconder carinho,
a fingir que não me importava.
Comecei a ir embora antes
que alguém pudesse me abandonar.
Comecei a construir muros
onde antes existiam portas.
E chamaram isso de força.
Mas ninguém viu
o quanto eu chorei
para conseguir parecer forte.
Ninguém viu
quantas vezes eu quis voltar a ser aquela menina
e não soube como.
Porque eu ainda sinto.
Esse é o problema.
Por trás dessa frieza,
ainda existe alguém que sente tudo.
Eu continuo sendo intensa.
Continuo amando profundamente.
Continuo me importando.
Só não sei mais
como fazer isso sem sentir medo.
E isso me dói.
Porque eu não queria me tornar alguém
que precisa desconfiar do carinho.
Que pensa duas vezes antes de se entregar.
Que procura sinais de abandono
mesmo quando alguém diz que vai ficar.
Eu não queria aprender
a sobreviver às pessoas
em vez de simplesmente amá-las.
E, às vezes,
eu olho para mim
e sinto uma tristeza que não sei explicar.
Porque não é que eu tenha deixado de ser aquela menina.
Eu acho que ela ainda está aqui.
Só está cansada.
Está escondida atrás de tudo
que precisei construir para não quebrar de novo.
E talvez seja isso que mais me machuca:
eu passei tanto tempo
tentando me proteger do mundo
que acabei me protegendo
também das coisas bonitas que ele poderia me oferecer.
Eu me fechei para não sofrer
e, sem perceber,
também fechei a porta para sentir.
Hoje eu sinto falta
da pessoa que eu era
antes de precisar ser tão forte.
Sinto falta da minha própria voz.
Do meu jeito de amar.
Da minha esperança.
Da minha leveza.
Sinto falta de olhar para o mundo
sem precisar estar preparada para perdê-lo.
E queria poder abraçar aquela menina
e dizer:
“Desculpa.
Você não precisava ter aprendido
a ser tão dura.
Você só precisava
ter encontrado um lugar seguro
para continuar sendo doce.”
Talvez eu nunca volte a ser exatamente quem fui.
E talvez tudo bem.
Mas eu ainda quero me encontrar
no meio de tudo que aconteceu.
Quero tirar, uma por uma,
as armaduras que coloquei sobre o coração.
Quero voltar a sentir
sem ter vergonha da minha intensidade.
Quero voltar a amar
sem transformar amor em medo.
Quero voltar a olhar para mim
e reconhecer alguém
que eu tenha orgulho de chamar de minha.
Porque, no fim,
a pessoa que eu mais perdi
não foi alguém que foi embora.
Fui eu.
E talvez minha maior história de amor, daqui para frente,
seja conseguir voltar para mim
sem precisar abandonar
tudo aquilo que um dia me fez ser
quem eu era.
Thoughts
-
PermalinkOs muros no lugar das portas, ó. Isso aí eu queria ouvir alguém falando alto, na frente de gente, sem papel na mão.
-
PermalinkFui pondo em ordem: primeiro as perdas, depois as pessoas que mexeram no que ainda não tinha fechado, e só então o dia em que você se percebeu quieta e desconfiada. Ninguém vira isso numa data certa, vai acontecendo em parcelas. Aposto que isso foi escrito logo depois de alguém dizer que ia ficar e você ter duvidado.
-
PermalinkQuem chamou àquilo força não estava a ver bem. Força era a menina que ainda olhava as pessoas de frente.
-
PermalinkLi duas vezes. Só na releitura reparei que a menina do começo reaparece no fim, e dessa vez é você quem pede desculpa a ela. O poema inteiro parece ter sido escrito pra chegar nesse abraço.
-
PermalinkChamaram de força o que custou tanto choro escondido, e isso me fez pensar em quantas vezes a gente elogia alguém por aguentar sem saber o preço. Obrigado por postar isso aqui, @barbiegreen. Aposto que tem gente lendo que vai se sentir menos sozinha com esse texto, e um pouco menos obrigada a parecer forte o tempo todo :)
-
PermalinkMe identifico, encontrei seu poema quando mais precisei, também sou intensa e a vida me fez ter medo, me fechar. Acredito que possamos ainda nos reconstruir.. mesmo que não voltemos a ser as mesmas de antes. Apenas a vontade de voltar a ser alguem que acreditemos ser nós mesmos pode levar a gente muito longe!
-
PermalinkIr embora antes de ser deixado, isso vejo muito à minha volta, gente que sai primeiro só para não ficar a olhar para a porta. Pelo menos tu dás pelo que estás a fazer.
Related posts
-
.
— Hoje seriam seis meses.
-
Eu tenho raiva de mim
Eu tenho raiva de mim.
-
Calafrios de lembranças do passado ...
Quando se aproximava do estacionamento do supermercado, sentiu os calafrios.
-
Enquanto houver sementes
Não sei decifrar exatamente esse sentimento, é como se eu estivesse sentada de novo sob aquele pé de figo, mas, ao invés de faminta, sinto um refluxo enorme ao olha-los. Observo cada fruto suculento…
-
Ex?
Ex?
-
Terminei agora uma garrafa de vinho porque por algumas horaseu queria que minha cabeça calasse
Terminei agora uma garrafa de vinho porque por algumas horas eu queria que minha cabeça calasse.
-
ANTES MESMO DE SER CULPADO.
Como explicar
-
Primavera
22 de Setembro de 2026: Terça feira! É primavera e eu não amo essa estação. Acho até que a primavera e o verão são dois intrusos que invadem a paz e o aconchego do outono-inverno. Ela nos oferta…