Terminei agora uma garrafa de vinho
porque por algumas horas
eu queria que minha cabeça calasse.
Queria desligar o barulho.
As cobranças.
As contas.
As lembranças.
Os abandonos.
As pessoas que foram embora
como se nunca tivessem prometido ficar.
Mas o álcool não apaga nada.
Só deixa tudo mais alto.
E agora estou aqui,
sentada diante dos destroços de mim,
tentando descobrir em que momento
eu deixei de me reconhecer.
Tem tanta coisa para fazer
que eu não consigo fazer nenhuma.
Tanta coisa para organizar
que eu nem sei mais
onde começa a minha vida
e onde termina o caos.
Eu olho para mim
e parece que estou olhando para uma estranha.
Cadê aquela mulher?
Aquela que levantava,
resolvia,
corria atrás,
fazia acontecer,
mesmo quando ninguém segurava sua mão?
Eu não sei.
Talvez ela esteja cansada.
Talvez tenha passado tempo demais
sendo forte por obrigação
até esquecer como era simplesmente existir.
Eu me sinto dentro de um poço.
Um poço sem cor,
sem eco,
sem placas dizendo
quanto falta para chegar ao fundo.
E o pior do fundo
é quando você começa a acreditar
que talvez não exista saída.
É quando a escuridão
deixa de parecer um lugar
e começa a parecer uma identidade.
Mas eu ainda procuro.
Mesmo quebrada,
eu procuro.
Mesmo bêbada de tristeza,
eu procuro.
Mesmo sem saber quem sou,
eu procuro por mim.
Porque existe alguma coisa aqui dentro
que ainda não morreu.
Não é força.
Não é coragem.
É só uma coisa pequena, quase invisível,
que se recusa a aceitar
que toda a minha história
termina exatamente aqui.
Então eu vou voltar.
Não hoje inteira.
Não amanhã curada.
Não de repente.
Vou voltar aos pedaços.
Vou juntar minha voz,
meu corpo,
minha coragem,
meus sonhos esquecidos
e até as partes de mim
que eu tenho vergonha de admitir que existem.
Vou olhar para o que me destruiu
sem fingir que não doeu.
Porque eu não quero romantizar
o que quase acabou comigo.
Eu quero sobreviver ao suficiente
para um dia poder dizer:
eu estive no fundo.
Eu conheci a escuridão
por dentro.
Eu achei que não conseguiria voltar.
Mas voltei.
E tudo aquilo que um dia tentou
me transformar em ruína
vai ter que conviver com o fato
de que eu me reconstruí.
Não como antes.
Mais verdadeira.
Mais ferida.
Mais consciente.
Mas viva.
E talvez essa seja
a minha maior vingança contra o abismo:
não deixar que ele decida
quem eu vou ser.