— Hoje seriam seis meses.
— Eu sei.
— Mas já faz quatro dias que acabou.
— Eu sei.
— É estranho, não é?
— Muito.
— Quatro dias atrás eu ainda tinha um “nós”. Hoje eu tenho lembranças.
— E saudade.
— Muita saudade.
— Você ainda pensa nela?
— Acho que essa é a parte que mais me confunde. Eu penso nela e, antes mesmo de pensar em mim, vem a mesma pergunta…
— “Será que ela está bem?”
— Exatamente.
— Mesmo depois de ela ter ido embora?
— Mesmo assim.
— E você? Como você está?
— Eu não sei responder.
— Você chorou?
— Chorei.
— Ela viu?
— Não.
— Por quê?
— Porque na hora do adeus eu segurei. Eu queria parecer forte. Queria que ela fosse embora sem carregar também o peso das minhas lágrimas.
— E depois?
— Depois eu entrei no carro.
— E aí?
— Aí eu desabei.
— Sozinho?
— Sozinho. Ali ninguém via minhas lágrimas. Ninguém via minhas feridas, meus machucados, meus medos.
— Você se arrepende de ela não ter visto?
— Às vezes.
— Por quê?
— Porque talvez… só talvez… ela pudesse ter entendido.
— Entendido o quê?
— Que aquele adeus não era só o fim de um namoro para mim.
— Era o quê?
— Era como perder uma vida que eu achava que ainda ia viver.
— Você já tinha imaginado essa vida?
— Muitas vezes.
— E agora?
— Agora eu tenho que aprender a acordar todos os dias sabendo que aquela vida não aconteceu.
— Mas foram seis meses.
— Hoje seriam seis.
— Você ainda conta?
— Conto.
— Mesmo sabendo que acabou?
— O coração não sabe contar como a cabeça conta.
— E quatro dias?
— Quatro dias não são nada quando você passou tanto tempo esperando alguém.
— Então talvez você ainda não precise estar bem.
— Eu queria estar.
— Por quê?
— Porque parece que ela conseguiu seguir e eu fiquei parado naquele último abraço, naquele último olhar, naquele último adeus.
— Você sabe se ela está bem?
— Não.
— E isso dói?
— Muito.
— Porque você ainda ama?
— Porque eu ainda me importo.
— E se ela estiver bem?
— Uma parte de mim vai ficar feliz.
— Mesmo que isso doa?
— Mesmo que doa.
— E se ela não estiver?
— Eu vou querer cuidar dela.
— Mas você não pode mais fazer isso como antes.
— Eu sei.
— Então talvez essa seja a parte mais difícil de todas.
— Qual?
— Amar alguém e não poder mais cuidar dela.
— É exatamente isso.
— E o que você faz com esse amor?
— Ainda não sei.
— Então não precisa saber hoje.
— Hoje seriam seis meses.
— Sim.
— E fazem quatro dias que acabou.
— Sim.
— Então hoje eu não quero fingir que estou bem.
— Não precisa.
— Hoje eu só quero admitir que eu amei. Que eu ainda amo. Que eu queria que tivesse sido diferente. Que eu queria que ela tivesse visto minhas lágrimas naquele carro.
— E amanhã?
— Amanhã eu tento levantar.
— E depois?
— Depois eu tento de novo.
— Até quando?
— Até que um dia eu consiga lembrar desses seis meses sem sentir que perdi uma vida inteira.
— E a pergunta?
— Qual?
— “Será que ela está bem?”
— Acho que ela ainda vai aparecer na minha cabeça por muito tempo.
— E quando aparecer?
— Eu vou desejar que ela esteja bem.
— E você?
— Talvez, um dia, eu consiga desejar isso para mim também.