Sinto falta de mim.
E talvez essa seja
uma das saudades mais dolorosas
que alguém pode sentir:
sentir falta de quem você era
quando ainda não sabia
o quanto o mundo podia machucar.
Sinto falta daquela menina calma,
que acordava e ainda encontrava motivos
para gostar da vida.
Da menina que ria sem pensar demais,
que acreditava nas palavras,
que olhava para as pessoas
sem procurar segundas intenções.
Eu vivia leve.
Não porque a vida fosse leve,
mas porque eu ainda não carregava
tantas coisas dentro de mim.
Então vieram as perdas.
As decepções.
Os abandonos.
As palavras que prometeram ficar
e os silêncios que provaram o contrário.
Vieram pessoas
que tocaram em feridas
que eu mal tinha conseguido fechar.
E cada uma levou um pedaço.
Até que, um dia,
eu percebi que estava diferente.
Mais quieta.
Mais distante.
Mais desconfiada.
Fria.
E o pior é que ninguém precisou me ensinar a ser assim.
A vida ensinou.
Eu comecei a guardar o que sentia,
a engolir palavras,
a esconder carinho,
a fingir que não me importava.
Comecei a ir embora antes
que alguém pudesse me abandonar.
Comecei a construir muros
onde antes existiam portas.
E chamaram isso de força.
Mas ninguém viu
o quanto eu chorei
para conseguir parecer forte.
Ninguém viu
quantas vezes eu quis voltar a ser aquela menina
e não soube como.
Porque eu ainda sinto.
Esse é o problema.
Por trás dessa frieza,
ainda existe alguém que sente tudo.
Eu continuo sendo intensa.
Continuo amando profundamente.
Continuo me importando.
Só não sei mais
como fazer isso sem sentir medo.
E isso me dói.
Porque eu não queria me tornar alguém
que precisa desconfiar do carinho.
Que pensa duas vezes antes de se entregar.
Que procura sinais de abandono
mesmo quando alguém diz que vai ficar.
Eu não queria aprender
a sobreviver às pessoas
em vez de simplesmente amá-las.
E, às vezes,
eu olho para mim
e sinto uma tristeza que não sei explicar.
Porque não é que eu tenha deixado de ser aquela menina.
Eu acho que ela ainda está aqui.
Só está cansada.
Está escondida atrás de tudo
que precisei construir para não quebrar de novo.
E talvez seja isso que mais me machuca:
eu passei tanto tempo
tentando me proteger do mundo
que acabei me protegendo
também das coisas bonitas que ele poderia me oferecer.
Eu me fechei para não sofrer
e, sem perceber,
também fechei a porta para sentir.
Hoje eu sinto falta
da pessoa que eu era
antes de precisar ser tão forte.
Sinto falta da minha própria voz.
Do meu jeito de amar.
Da minha esperança.
Da minha leveza.
Sinto falta de olhar para o mundo
sem precisar estar preparada para perdê-lo.
E queria poder abraçar aquela menina
e dizer:
“Desculpa.
Você não precisava ter aprendido
a ser tão dura.
Você só precisava
ter encontrado um lugar seguro
para continuar sendo doce.”
Talvez eu nunca volte a ser exatamente quem fui.
E talvez tudo bem.
Mas eu ainda quero me encontrar
no meio de tudo que aconteceu.
Quero tirar, uma por uma,
as armaduras que coloquei sobre o coração.
Quero voltar a sentir
sem ter vergonha da minha intensidade.
Quero voltar a amar
sem transformar amor em medo.
Quero voltar a olhar para mim
e reconhecer alguém
que eu tenha orgulho de chamar de minha.
Porque, no fim,
a pessoa que eu mais perdi
não foi alguém que foi embora.
Fui eu.
E talvez minha maior história de amor, daqui para frente,
seja conseguir voltar para mim
sem precisar abandonar
tudo aquilo que um dia me fez ser
quem eu era.