Gostei dos dois virarem foto dos outros sem perceber, Bela e Fera sentados no banco da escadaria.
Rock City - Parte 14
Faltam poucas horas para Gojo chegar ao estúdio.
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Gostei dos dois virarem foto dos outros sem perceber, Bela e Fera sentados no banco da escadaria.
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Faltam poucas horas para Gojo chegar ao estúdio.
Pearl dormiu, comeu, dormiu de novo. Agora, às pressas, se arruma.
Tira sua roupa de casa, veste uma calça jeans e uma camisa preta. Usa seu tênis mais limpo. Era um contraste horripilante com aquele All Star sujo.
Recado no celular:
“Chegando de Uber, mulher. Tô na estação Clínicas.”
Pearl toma um banho e passa hidratante.
— Segura... você não vai dar pra ele!
Cantarola:
“And I don't know what I'm crying for
I don't think I could love you more
It might not be long, but, baby, I...”
— Jess, sua desgraçada... acho que estou apaixonada pelo Gojo!
— Como assim?
Cai sobre a cama, se encolhe, com as mãos no rosto. Sente o cheiro do hidratante com perfume leve, ainda com gosto de pasta de dente.
O celular toca.
“— Tô aqui embaixo.”
— Meu Deus...
Levanta e olha no espelho.
— É só um cara, Pearl!
Desce as escadas.
Abre a porta do lado da loja.
Lá está ele, todo desleixado, mas arrumado.
— Você não usa camiseta, não? Só camisa cavada.
— Oi... tudo bem?
—...
— Já chega me tirando... mulher!
— Desculpa!
— Sua guitarra.
— Fica aqui. Vou levar pro estúdio.
Fecha a porta com força.
Gojo fica sem entender.
Ouve um barulho lá dentro: correrias, batidas de portas. Desce as escadas.
A porta faz um barulhão.
Ela se abre.
Pearl aparece meio descabelada.
Gojo começa a rir.
— Você caiu...
Gojo chora de rir.
— É...
— Você é engraçada demais!
Ambos riem. Depois se recuperam.
Gojo diz:
— Bora trocar ideia?
— Bora. Vem comigo.
Pearl desce para baixo da Teodoro Sampaio, à frente.
Gojo, sem entender, a segue.
— Você não vai roubar meu rim, não, né?
— Cala a boca, seu pangaré.
— Grossa! Cavala!
— Tua mãe, aquela boca de jumenta velha!
Gojo solta uma gargalhada.
— Pra onde você está me levando?
— Pra Escadaria da Bailarina.
Andam pela esquina que leva à escadaria.
— Nossa... é aqui. Já desci aqui chapado às três da manhã.
— Não tem medo, não... Ah, é mesmo. Você é homem. É grande, deve assustar à noite.
— Sou grande, mas não sou dois. Não sou à prova de balas, né?
Eles se sentam no banco perto do playground vazio. Eram 17h.
A escadaria tinha grafites lindos, árvores, uma casinha antiga que parecia de boneca, também grafitada, o playground reformado e jardins suspensos pela escadaria. Um céu azul, com o quase entardecer preguiçoso, carregava uma melancolia alegre.
Pearl faz um gesto para se sentar no banco de madeira.
Sentados.
— Pronto, agora podemos ir embora! — diz, rindo.
— Para de ser pangaré.
Gojo apenas segura o riso por ela sempre chamá-lo de pangaré.
Silêncio.
O barulho dos pássaros e da avenida abaixo, com os carros.
Gojo quebra o silêncio e aponta o dedo.
— Logo ali, descendo, tem uma casa de show, o Bar do Baixo. É de graça entrar... MPB, samba-rock e pagodão daquele... Ah, cerveja de garrafa.
— Nossa... você gosta de pagode?
— Forró também!
— Mas você sempre com essa cara fechada, tatuagens e gosta disso? Não tem cara.
— Não precisa ter cara, só gostar... É música, é arte, né?
Pearl fica surpresa com as descobertas de Gojo, revelando esse lado que ela nunca tinha visto. Sempre caladão. Ela pensa que talvez ninguém tivesse curiosidade pela vida dele. Ele tinha aquele jeitão fechado de ser.
— Mas não sou só eu que sou assim. Você também é, Pearl... fechadona!
—...
— Por quê?
— Longa história!
— Estou aqui para ouvi-la... sem julgamentos.
O canto dos pássaros continua. Surgem pessoas nas escadarias: um grupo de fotógrafos e um dos líderes falando sobre o local. Ao lado, uma construção de um empreendimento horroroso não combina com a paisagem e com a escadaria colorida.
Eles estavam tão distraídos que nem perceberam quando tiraram fotos deles.
Um cara com cabelos até os ombros, camisa cavada, os dois braços fechados de tatuagens, bermuda e tênis.
E ela, branca e pálida, cabelos platinados, olhos verdes acinzentados, camiseta, calça jeans e tênis branco.
Gojo vê o pessoal tirando fotos.
— Estão tirando foto da gente.
— É...
— A Bela Pearl...
— A Fera Gojo...
O grupo desce mais a escadaria.
— É... sou assim porque não completei os estudos no ensino médio.
— Ué, por quê?
— Sofria demais no colégio...
— Como assim? Conte mais.
— Você não vai entender...
— Pode contar. Estou aqui.
— Promete que não vai rir?
— Prometo.
— Havia um garoto de quem eu gostava... mas havia outra garota que não gostava de mim, mas gostava dele.
— Hum...
— Ela espalhou uma fofoca sobre mim...
— O que era?
— Falou que eu tinha CC...
— Nossa, que maldade!
— Daí, né... tinha os alunos bagunceiros... Eles me apelidaram de 200!
— 200? Por quê?
— 200 em algarismo romano é CC!
Gojo fica sério, mas um pequeno canto da boca treme.
Gojo gargalha até chorar de rir.
— JURO! EU QUERIA TER UM APELIDO DESSES! JURO, JURO!
Pearl, com raiva, soca Gojo.
— Seu pangaré!
Em meio aos socos, Pearl cede e começa a rir junto.
Riam como loucos na escadaria, que parecia incomodar até os pássaros.
Passa uma senhora de óculos subindo a escada.
Gojo e Pearl olham para ela, chorando de rir.
Gojo aponta o dedo para a senhora.
— OLHA ELA!!!
Pearl ri junto.
A mulher para e diz:
— Que audácia, esses maconheiros!
— Humm...
E sai.
Pearl e Gojo riem ainda mais.
Gojo e Pearl, na mesma respiração, cessam as risadas e enxugam as lágrimas.
— Mas assim... você abandonou o colégio. Entendo!
Silêncio.
O barulho do trânsito lá embaixo.
Pearl cantarola:
“I knew you in another life
You had the same look in your eyes...”
— Ahahahahha!
Nesse momento, Gojo começa a fazer sons de beatbox e, com a boca, imita uma corneta.
Pearl olha para ele.
Ambos começam a rir novamente, chorando de tanto rir.
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Thoughts
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PermalinkGostei dos dois virarem foto dos outros sem perceber, Bela e Fera sentados no banco da escadaria.
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PermalinkDois fechados descobrindo, num banco de escadaria, que o outro também é fechado. Me lembra que as conversas que contam de verdade quase nunca saem no lugar combinado: o estúdio ficou esperando e a coisa toda aconteceu na rua. Aposto que essa música da outra vida ainda volta, cantada pela Pearl num palco e olhando pra ele.
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PermalinkKkkkk o apelido 200 😂
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