Que triste entender isso tudo e não conseguir sair. Mas escrever já é alguma coisa. Tem mais coisas suas publicadas por aqui?
Relacionamento tóxico
Pensamento
Que triste entender isso tudo e não conseguir sair. Mas escrever já é alguma coisa. Tem mais coisas suas publicadas por aqui?
Conteúdo da publicação
O começo
Eu era adolescente e ingênuo quando meus amigos me apresentaram a você. Tudo era lindo e fácil. Nos relacionávamos nos finais de semana, apenas em festas. Às vezes, em uma tarde qualquer, só para esquecer os problemas. Eles pareciam muitos. Agora posso ver quão fúteis eram.
É, nosso começo foi lindo. Você me confortava, me fazia parecer legal perante os outros. Eu me sentia um adulto todo-poderoso quando estava com você. Foi com você que me destaquei nas festas. Eu era diferente. Eu estava entre os melhores e os mais legais graças a você. Tudo estava bem entre nós até minha mãe nos ver juntos.
Eu jamais vou esquecer o olhar de decepção da minha mãe quando me perguntou o que eu estava fazendo com você. Para mim, ela já era velha e ultrapassada. Não sabia nada sobre a vida. Eu bati o pé, dizendo que sabia o que estava fazendo, que era com você que eu queria ficar, queria te sentir, te consumir, te deixar me completar.
Ela disse que eu não sabia as consequências que aquele relacionamento poderia trazer. Mas eu já era maduro. Eu tinha certeza de que estava no controle da situação. E, se perdesse o controle e você começasse a me consumir, eu me afastaria. Eu te deixaria partir.
O meio
Dois anos se passaram e nós ainda estávamos juntos. Vez ou outra, eu me questionava se ainda estava no controle. No entanto, eu já não era um adolescente. Os problemas se tornavam cada vez menos fúteis. As preocupações não eram inúteis; contudo, você estava lá. Nosso relacionamento já havia se tornado cotidiano. Não nos víamos apenas ocasionalmente, mas também em todas as manhãs. Se eu não te encontrasse à noite, seria impossível dormir.
Meu corpo já não funcionava perfeitamente. A escada que eu subia com facilidade na infância agora era um obstáculo, e subi-la havia se tornado um desconforto. Eu sabia o porquê: estava envelhecendo, mesmo que ainda fosse tão jovem. Com frequência, a garganta apertava; sentia algo preso, querendo sair, mas eu sabia o que resolveria: você. Eu já não só queria você. Eu precisava de você.
Sim, eu precisava de você. Porque, quando os problemas me atacavam, você me confortava. Quando o estresse me dominava, você me acalmava. Quando os pensamentos se embaralhavam, você os alinhava. Eu poderia perder tudo, mas ainda tinha você. Quanto mais o tempo passava, mais nosso relacionamento se fortalecia; a cada dia, eu me tornava mais dependente de você.
E o tempo passou. Há quanto tempo estamos juntos? Quinze? Não, dezessete anos. Eu já passei dos trinta e ainda tenho você. Todos os dias, eu e você. Não consigo mais correr como quando era novo. Não tenho o mesmo fôlego. Eu não durmo bem. Meu corpo está falhando. Se fico alguns minutos sem você, o estresse toma conta de mim.
Há anos percebi que o nosso relacionamento é o que chamam de tóxico. Eu dependo de você, mas você não me traz nada de bom. O estresse, os problemas, os pensamentos embaralhados: tudo isso também era causado por você. Você nunca foi a solução. Você era o problema. Tudo o que você faz é mascarar os problemas que você mesmo causa.
Eu jamais vou recuperar tudo o que você tirou de mim.
Eu me questiono se um dia haverá fim. Se conseguirei deixar você partir.
Minha mãe estava certa:
eu não deveria ter fumado.
Thoughts
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PermalinkDoeu ler isso tudo de uma só vez
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PermalinkRelacionamento tóxico é palavra fraca. O que ele descreve aí parece é vir perdendo sangue e achar que é cansaço.
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PermalinkQue triste entender isso tudo e não conseguir sair. Mas escrever já é alguma coisa. Tem mais coisas suas publicadas por aqui?
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PermalinkChega uma hora que a gente para de contar. Só sabe que acordou junto e vai acordar junto amanhã também. Aí é só espera, rotina até não saber mais quando começou.
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PermalinkQue coragem.
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PermalinkQuando a gente finalmente consegue falar, a gente fala alto mesmo que não tenha ninguém ouvindo!
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PermalinkA gente aprende a chamar de tóxico só depois que passou muito tempo preso.
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PermalinkSua mãe estava certa desde o começo. Dezessete anos você sabendo disso e não conseguindo parar. Que peso!
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PermalinkAquela parte sobre perder o fôlego, não dormir bem, o tempo virar uma coisa outra. Dezessete anos é tempo demais pra carregar sozinho. A gente sabe disso vendo a rota se repetir, achando que ainda tem controle. É quando você percebe que já passou do ponto de voltar, que a gente parou de ter escolha faz muito tempo.
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PermalinkIsso que você escreve, dá pra ver chegar nos olhos de quem tá carregando!
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