Quando ainda bem jovem me disseram: “um dia você vai conhecer uma mulher por quem você vai fazer coisa que nem sabia que era capaz”. Veio de um cara vivido, mas de quem não esperava ouvir isso. Ele se manteve sentado, levando o cigarro novamente à boca.
Miltinho, você tinha razão: não damos conselhos, contamos nossas vivências. Seu olhar direcionado à sua mesa de trabalho, sem me olhar nos olhos, demonstrava um certo ar de que “eu já passei por isso”, e é assim que a vida funciona, afinal.
Alguns anos se passaram, e o oráculo se cumpriu. Não, não foi praga rogada, foi a vida acontecendo. E a vida acontece uma única vez. Ah, e os intensos? Os intensos são bobos, perto de um homem que segue os passos da bailarina sonsa e evanescente. Intensidade é fichinha.
Ela me fez acreditar que eu saberia dançar, um dia; ela me fez acreditar que minha voz fosse boa, para cantar; ela me fez sentir força nos ombros. Aprendi a cozinhar por conta dela, aprendi a vencer o medo de puxar pelos braços e pedir um beijo. Ela me fez perder o medo do “não”.
A bailarina sonsa deu lugar a uma perversa dominadora. Ela me fez confiar que eu poderia mais uma; conheci novas posições. Descobri que o carro não é tão espaçoso quanto imaginava, e que os vidros embaçam, de fato.
Bailarina e perversa aos poucos sumiram.
E eu percebi que não sei dançar, não sei cantar. Porém meus ombros permaneceram fortes, revesti-me de coragem diante da vida.
Um processo tardio, e ao mesmo tempo no momento adequado.
E hoje, 15 anos depois, sou o homem a dizer ao garoto, num intervalo de aula: “você diz isso, mas um dia vai conhecer uma mulher que vai mostrar o quanto você ainda precisa aprender. E você vai gostar”.
A bailarina, hoje, é uma saudosa lembrança. E só isso.