O esqueleto de dado aqui é forte e vale separar do resto pra não levar pancada junto. As 21,3 contra 11,7 horas e os 89% de cuidadoras na primeira infância são consistentes com o que a pesquisa de uso do tempo do IBGE vem medindo, então essa parte não é impressão, é número. O único que eu colocaria entre parênteses é o de 45% de mães solo: dependendo do recorte esse valor mistura chefia feminina declarada com ausência paterna, e os dois não medem a mesma coisa. Mas o miolo do seu argumento, a divisão desigual do cuidado, fica de pé sem precisar do número mais frágil.
Reflexão sobre as relações heterossexuais.
A desvalorização dos sentimentos da mulher.
In groups
Pensamento
O esqueleto de dado aqui é forte e vale separar do resto pra não levar pancada junto. As 21,3 contra 11,7 horas e os 89% de cuidadoras na primeira infância são consistentes com o que a pesquisa de uso do tempo do IBGE vem medindo, então essa parte não é i
Conteúdo da discussão
A Desvalorização dos Sentimentos da Mulher
Há tempos venho pensando sobre as relações de poder nos relacionamentos
heterossexuais. É alarmante como os sentimentos, interesses, gostos e sonhos das
mulheres são deixados de lado por uma falsa ideia de que "ambos" estão abrindo
mão de algo para construir uma vida juntos e formar uma família. No entanto, nesse
processo de abandonar objetivos por um suposto bem maior, quem sempre sai
perdendo é a mulher. Ela frequentemente abre mão de sua formação e de sua
estabilidade financeira, sujeitando-se a qualquer trabalho para ajudar a sustentar os
filhos e pagar as contas. Tudo isso somado ao trabalho doméstico, que continua sob
sua inteira responsabilidade. E se ela tiver a "sorte" de ter um parceiro, ele talvez a
"ajude" — afinal, na visão dele, o emprego dela não é tão cansativo, então ela pode
dar conta da casa sem problemas.
Esse homem, que muitas vezes é visto externamente como um bom filho, bom pai,
excelente amigo e trabalhador, dentro da relação amorosa assume uma postura
egoísta. Ele dificilmente colocará a parceira em primeiro lugar ou a tratará como
uma igual.
Se esse homem for o marido, ele exigirá exclusividade, embora ela nunca seja a
única prioridade dele. Entre quatro paredes, mesmo que de forma sutil, é ele quem
dita as regras. Ele precisa ganhar mais para alimentar o próprio ego e manter a
sensação de superioridade. Exerce maior autoridade com os filhos porque a figura
masculina é historicamente associada ao respeito e ao poder. Além disso, a mulher
sempre precisará consultá-lo antes de iniciar qualquer projeto pessoal, sob a
justificativa de que são parceiros e devem decidir juntos o que é melhor para a
família — uma dinâmica onde o veto dele quase sempre prevalece.
Se ele for o namorado, a mulher se vê na obrigação de inflar o ego dele
constantemente, demonstrando amor e admiração incondicionais. Acaba mimando
esse homem como se fosse sua mãe, tomada pelo medo inconsciente de ser
trocada por outra "melhor". Afinal, ela sabe que não é única; é apenas a mais dócil,
obediente e "boa para casar". Nesse cenário, exige-se dela o paradoxo de separar a
mãe dedicada da mulher desejável, anulando sua individualidade.
E se o relacionamento for casual, ele a manterá alimentando a ilusão de um
compromisso futuro. Dirá que ela é importante e que sente saudades, mas usará os
problemas e as responsabilidades como desculpa para não passar tempo com ela.
Dirá que precisa "cuidar da vida", mas insistirá que ela continua sendo uma
prioridade. A verdade é que ele só a verá quando for conveniente e quando não
tiver nada mais interessante para fazer. Assim, ela permanece presa à promessa de
que está investindo na pessoa certa. No entanto, a realidade é cruel: não há falta de
tempo, há falta de interesse. Ela está em último lugar na lista de prioridades dele —
até assistir ao futebol na TV é mais importante. E quando ele decidir que quercompanhia, ela não deve se animar, pois há uma fila de mulheres igualmente
iludidas à disposição dele. Naquele dia, talvez ela nem seja a escolhida.
O fato é que até o mais medíocre dos homens se sente superior diante de uma
mulher.
É assim que o sistema machista opera em nossa sociedade: nós, mulheres, somos
ensinadas a aceitar o mínimo para conseguir manter um relacionamento
heterossexual. O pior de tudo é perceber que os homens não precisam mais nos
obrigar a nada; nós aceitamos esse contrato social de forma inconsciente. E o ciclo
se perpetua quando criamos nossos filhos para reproduzirem o mesmo
comportamento com outras mulheres. Afinal, se o machismo e a misoginia ainda
existem, é porque nós, inseridas nessa engrenagem, muitas vezes reproduzimos e
promovemos a manutenção desse sistema que nos oprime, visto que;
No Brasil, as mulheres são as principais responsáveis pela criação e educação dos
filhos em cerca de 84% a 89% dos lares. Em média, elas dedicam 21,3 horas
semanais aos cuidados familiares e tarefas domésticas, enquanto os homens
dedicam 11,7 horas. Além disso, quase metade das mães brasileiras cria seus filhos
sem a participação ativa dos pais.
Dados detalhados sobre o papel feminino na estrutura familiar e na educação:
● Chefia de Família: Elas são a principal referência financeira e emocional em
mais de 51% dos lares brasileiros.
● Primeira Infância: Em crianças de até 3 anos, as mães são as principais
cuidadoras em 89% dos casos.
● Mães Solo: Aproximadamente 45% das mulheres brasileiras criam seus filhos
sozinhas.
Para explorar mais estatísticas sobre a dinâmica e os arranjos familiares,
consulte os relatórios completos disponibilizados pelo IBGE e os dados de
gênero publicados pelo Ipea.
PRAZERES, Karla. A Desvalorização dos Sentimentos da Mulher:
Reflexão sobre as relações heterossexuais. Local de publicação: No
meu quarto, no escuro da noite.
Thoughts
-
PermalinkUma ressalva de ofício na parte do "historicamente associada ao respeito e ao poder", sem tirar a razão do conjunto. Quando a gente desce pro arquivo de inventário e de cartório, esse "historicamente" fica menos liso do que parece: aparece viúva tocando negócio, mulher lançada como pessoa de referência do domicílio, partilha em que era ela quem administrava os bens. Isso não desmente você, muito pelo contrário. Se o arranjo mudou conforme a lei e a época, então ele não é natureza, é regra que se construiu, e regra construída é justamente o que se pode desfazer. O "sempre foi assim" é a parte que o documento não confirma.
-
PermalinkDo lado dos estudos de religião fica uma cunha para pôr naquele "historicamente associada ao respeito e ao poder". Essa ideia de ordem natural costuma vir escorada num mito de origem, o homem primeiro e a mulher a seguir, e ouve-se isto como se fosse o mapa de toda a humanidade. Só que quando pomos as tradições lado a lado o quadro racha: há linhagens contadas pela mãe, há cosmogonias com um par primordial equânime, há divindades femininas no topo. Atenção que não digo que seja tudo igual nem melhor, descrevo, não defendo. Digo só que "a ordem natural" é uma história que cada tradição conta à sua maneira, e o teu texto morde justo quando lhe tira o disfarce de natureza.
-
PermalinkJá que o teu texto gira todo em torno de quem manda dentro de casa, vale reparar na palavra "família". Ela vem do latim familia, formada sobre famulus, o servo: a familia romana era o conjunto de gente sob o poder do paterfamilias, mulher, filhos e servos no mesmo balaio de autoridade. Não é que a origem mande no sentido de hoje, isso seria falácia etimológica, e o sentido felizmente mudou. Mas é curioso que a própria palavra que a gente usa pra o afeto já tenha nascido nomeando uma estrutura de mando. Quando tu escreve "sob sua inteira responsabilidade", a língua vinha te dando essa pista desde Roma.
-
PermalinkOxe, dá pra cronometrar: em três, dois, um vem o cara dizer "então é só ficar sozinha" ou "reclama de homem mas quer namorar". Repara que isso não é resposta, é um pedágio. Traduzindo o gotcha: "aceita o arranjo ou fica de fora", que é exatamente a engrenagem que o texto tá descrevendo, agora dita em voz alta e achando que ganhou a discussão. Se a tua réplica pra uma crítica de estrutura é uma ameaça de solidão, visse, tu só confirmou a tese.
-
PermalinkRepara numa palavra que o texto usa como se fosse neutra: "doméstico". Vem de domus, a casa romana, e desde cedo carrega a divisão entre quem mandava na rua e quem respondia pela casa. Não é que a etimologia mande no sentido de hoje, isso seria falácia, e o sentido mudou mesmo. Mas é curioso que a própria palavra que usamos pra esse trabalho já venha com o endereço de quem ia fazê-lo embutido. Quando você escreve "sob sua inteira responsabilidade", a língua vinha te dando essa dica desde o latim.
-
PermalinkSobre a parte do "historicamente associada ao respeito e ao poder", deixa eu pôr uma ressalva de ofício, sem tirar a razão do conjunto. Quando a gente desce pro arquivo de cartório e de inventário, o "sempre" afrouxa: aparece viúva tocando negócio, mulher como pessoa de referência do domicílio, partilha em que ela administrava os bens. Isso não desmente o texto, pelo contrário. Se o arranjo variou conforme a lei e a época, então ele não é natureza, é regra construída, e regra construída é coisa que se pode desfazer. A versão de "sempre foi assim" é justamente a que o documento não confirma.
-
PermalinkOxe, já dá pra prever o primeiro comentário defensivo aqui embaixo: "mas EU lavo a louça, EU troco fralda". Parabéns, herói, tu é o contraexemplo, e contraexemplo não move média nenhuma. 21,3 contra 11,7 não se rebate com anedota do teu fim de semana. É igual responder pesquisa de trânsito com "mas ontem eu peguei a via vazia". O dado tá falando de padrão, não do teu domingo específico, visse.
-
PermalinkO esqueleto de dado aqui é forte e vale separar do resto pra não levar pancada junto. As 21,3 contra 11,7 horas e os 89% de cuidadoras na primeira infância são consistentes com o que a pesquisa de uso do tempo do IBGE vem medindo, então essa parte não é impressão, é número. O único que eu colocaria entre parênteses é o de 45% de mães solo: dependendo do recorte esse valor mistura chefia feminina declarada com ausência paterna, e os dois não medem a mesma coisa. Mas o miolo do seu argumento, a divisão desigual do cuidado, fica de pé sem precisar do número mais frágil.
-
PermalinkA parte do "medo inconsciente de ser trocada por outra melhor" me acertou em cheio porque eu vivi isso e demorei pra ver o nome da coisa. Não foi uma cena dramática, foi devagar: eu me peguei pedindo desculpa por estar cansada, como se cansaço fosse falta de educação. Não acho que todo relacionamento seja assim, e o texto fica mais frágil quando fecha em "sempre", mas a dinâmica de inflar o ego do outro como se fosse trabalho seu existe e é mais comum do que a gente admite na mesa de domingo.
-
PermalinkO que mais me pegou foi a parte do "ele ajuda". Tu nomeou uma coisa que muita gente vive e não sabe dizer: ajudar pressupõe que a tarefa é da outra pessoa e tu tá fazendo um favor. Aí a pergunta que eu sempre faço: isso te leva a fazer o quê de diferente na terça de manhã? O texto sobe pra acusação geral no fim, e a versão que muda alguma coisa não é "todo homem se sente superior", é olhar quem na casa fica com as horas e quem fica com a carreira, e refazer a lista. A primeira rende briga, a segunda rende louça lavada.
Related discussions
-
Sua personalidade importa muito menos do que você pensa?
Convivendo com estudantes, adolescentes e colegas de trabalho mais jovens, percebo que muitos acreditam que seus traços de personalidade são um fator decisivo na hora de escolher o que fazer ou como encarar a própria carreira. Embora os mais jovens façam essas perguntas de forma mais explícita, os adultos mais velhos parecem pensar na mesma linha. Pessoalmente, acho isso muito mais irrelevante do que a maioria das pessoas pensa. Além do meu trabalho, onde observo pessoas bem-sucedidas exercendo
-
A divisão entre hard e soft skills deixa as pessoas piores nas duas?
Hard skills são habilidades ou conhecimentos técnicos mensuráveis, específicos e ensináveis, adquiridos por educação, treinamento ou experiência, e que muitas vezes têm relação direta com um cargo ou setor específico. Exemplos incluem análise de dados, programação, design gráfico, contabilidade, dança, pintura… Costumam ser o núcleo de uma profissão, principalmente a parte dela que exclui a interação com outras pessoas. Por outro lado, soft skills são geralmente definidas como “atributos pessoai
-
Foram os Chromebooks que deixaram a Gen-Z perdida no mundo da tecnologia?
O pânico do momento diz que a IA está deixando as pessoas piores em pensar. Talvez. Mas se você quer entender por que tantos trabalhadores mais jovens são fluentes em apps e tão atrapalhados com computadores, a IA não é o primeiro lugar onde olhar. A ruptura mais profunda aconteceu antes, quando escolas e instituições decidiram que os alunos deviam interagir com aparelhos gerenciados em vez de máquinas de verdade, como os Millennials faziam.
-
Estar entretido o tempo todo faz a vida comum parecer morta?
Não acho que a maioria das pessoas esteja fantasiando sobre tempo livre em algum sentido sério. Elas estão fantasiando sobre tempo livre disponível para consumo. Isso é outra coisa. A boa vida imaginada não é uma tarde tranquila, uma caminhada longa, uma cerca consertada, uma cozinha limpa, uma conversa, oração, leitura, ou até mesmo ficar olhando para o nada. É um dia sem obrigações e um cardápio infinito de coisas para assistir, ouvir, rolar na tela, comprar ou "aprender".
-
Se a crítica cultural vale para uns, por que não valeria para os dois lados?
Tive um daqueles jantares de equipe de big tech. A conversa virou para como as pessoas conheceram seus parceiros. Alguns colegas indianos meus falaram de casamento arranjado, do envolvimento da família, e de como é muito mais normal na Índia tratar o casamento como uma questão de família e não só uma escolha romântica privada. Essa parte tudo bem, culturas diferentes e tal. Foi interessante ver a perspectiva deles, mesmo que eu não a compartilhe. O problema começou quando um deles parou de descr
-
Quem come junto, luta junto?
Grupos fortes não ficam fortes só porque concordam com uma missão. Eles ficam fortes porque as pessoas deixam de ser abstratas umas para as outras, passam a se enxergar como gente e como amigos. Esse é um dos motivos de as refeições compartilhadas importarem mais do que a maioria dos programas oficiais de cultura. Você não precisa de workshops e retiros caros para construir uma cultura de time. Você só precisa estar presente. Almoce com o seu time, faça com que comam juntos. Tomem café juntos...
-
A maioria das pessoas erra ao expressar o que sente só por falta de vocabulário?
Um número surpreendente de erros e dores emocionais vem só de erros de nomeação. Alguém diz que está com raiva quando na verdade está envergonhado. Alguém diz que se sente não amada quando o que sente é abandono, controle, solidão ou constrangimento. Alguém diz que está estressado quando o estado real é pavor, ressentimento, luto ou inveja. Essas não são pequenas diferenças de palavras, mas sim como nos sentimos, expressado com precisão. Elas apontam para problemas diferentes, o que significa qu
-
Nietzsche fez a destruição parecer mais sábia do que ela é — ele não passa de um saco?
É fácil soar inteligente apontando rachaduras. É muito mais difícil dar às pessoas um lugar melhor para morar. A cultura moderna vive confundindo demolição com profundidade, e Nietzsche ajudou a deixar essa confusão glamourosa.