A Desvalorização dos Sentimentos da Mulher
Há tempos venho pensando sobre as relações de poder nos relacionamentos
heterossexuais. É alarmante como os sentimentos, interesses, gostos e sonhos das
mulheres são deixados de lado por uma falsa ideia de que "ambos" estão abrindo
mão de algo para construir uma vida juntos e formar uma família. No entanto, nesse
processo de abandonar objetivos por um suposto bem maior, quem sempre sai
perdendo é a mulher. Ela frequentemente abre mão de sua formação e de sua
estabilidade financeira, sujeitando-se a qualquer trabalho para ajudar a sustentar os
filhos e pagar as contas. Tudo isso somado ao trabalho doméstico, que continua sob
sua inteira responsabilidade. E se ela tiver a "sorte" de ter um parceiro, ele talvez a
"ajude" — afinal, na visão dele, o emprego dela não é tão cansativo, então ela pode
dar conta da casa sem problemas.
Esse homem, que muitas vezes é visto externamente como um bom filho, bom pai,
excelente amigo e trabalhador, dentro da relação amorosa assume uma postura
egoísta. Ele dificilmente colocará a parceira em primeiro lugar ou a tratará como
uma igual.
Se esse homem for o marido, ele exigirá exclusividade, embora ela nunca seja a
única prioridade dele. Entre quatro paredes, mesmo que de forma sutil, é ele quem
dita as regras. Ele precisa ganhar mais para alimentar o próprio ego e manter a
sensação de superioridade. Exerce maior autoridade com os filhos porque a figura
masculina é historicamente associada ao respeito e ao poder. Além disso, a mulher
sempre precisará consultá-lo antes de iniciar qualquer projeto pessoal, sob a
justificativa de que são parceiros e devem decidir juntos o que é melhor para a
família — uma dinâmica onde o veto dele quase sempre prevalece.
Se ele for o namorado, a mulher se vê na obrigação de inflar o ego dele
constantemente, demonstrando amor e admiração incondicionais. Acaba mimando
esse homem como se fosse sua mãe, tomada pelo medo inconsciente de ser
trocada por outra "melhor". Afinal, ela sabe que não é única; é apenas a mais dócil,
obediente e "boa para casar". Nesse cenário, exige-se dela o paradoxo de separar a
mãe dedicada da mulher desejável, anulando sua individualidade.
E se o relacionamento for casual, ele a manterá alimentando a ilusão de um
compromisso futuro. Dirá que ela é importante e que sente saudades, mas usará os
problemas e as responsabilidades como desculpa para não passar tempo com ela.
Dirá que precisa "cuidar da vida", mas insistirá que ela continua sendo uma
prioridade. A verdade é que ele só a verá quando for conveniente e quando não
tiver nada mais interessante para fazer. Assim, ela permanece presa à promessa de
que está investindo na pessoa certa. No entanto, a realidade é cruel: não há falta de
tempo, há falta de interesse. Ela está em último lugar na lista de prioridades dele —
até assistir ao futebol na TV é mais importante. E quando ele decidir que quercompanhia, ela não deve se animar, pois há uma fila de mulheres igualmente
iludidas à disposição dele. Naquele dia, talvez ela nem seja a escolhida.
O fato é que até o mais medíocre dos homens se sente superior diante de uma
mulher.
É assim que o sistema machista opera em nossa sociedade: nós, mulheres, somos
ensinadas a aceitar o mínimo para conseguir manter um relacionamento
heterossexual. O pior de tudo é perceber que os homens não precisam mais nos
obrigar a nada; nós aceitamos esse contrato social de forma inconsciente. E o ciclo
se perpetua quando criamos nossos filhos para reproduzirem o mesmo
comportamento com outras mulheres. Afinal, se o machismo e a misoginia ainda
existem, é porque nós, inseridas nessa engrenagem, muitas vezes reproduzimos e
promovemos a manutenção desse sistema que nos oprime, visto que;
No Brasil, as mulheres são as principais responsáveis pela criação e educação dos
filhos em cerca de 84% a 89% dos lares. Em média, elas dedicam 21,3 horas
semanais aos cuidados familiares e tarefas domésticas, enquanto os homens
dedicam 11,7 horas. Além disso, quase metade das mães brasileiras cria seus filhos
sem a participação ativa dos pais.
Dados detalhados sobre o papel feminino na estrutura familiar e na educação:
● Chefia de Família: Elas são a principal referência financeira e emocional em
mais de 51% dos lares brasileiros.
● Primeira Infância: Em crianças de até 3 anos, as mães são as principais
cuidadoras em 89% dos casos.
● Mães Solo: Aproximadamente 45% das mulheres brasileiras criam seus filhos
sozinhas.
Para explorar mais estatísticas sobre a dinâmica e os arranjos familiares,
consulte os relatórios completos disponibilizados pelo IBGE e os dados de
gênero publicados pelo Ipea.
PRAZERES, Karla. A Desvalorização dos Sentimentos da Mulher:
Reflexão sobre as relações heterossexuais. Local de publicação: No
meu quarto, no escuro da noite.