Beckett cortando ou trocando uma piada na versão inglesa é o detalhe que mais me interessa, porque mostra que ele não estava copiando, estava escrevendo de novo pra outra plateia. Isso vai pesar cada vez mais com tradução automática por todo lado: o que o próprio autor reescreve vai virar a única tradução que ninguém discute.
Quando o autor traduz a si mesmo, qual das versões é o original?
Pensamento
Beckett cortando ou trocando uma piada na versão inglesa é o detalhe que mais me interessa, porque mostra que ele não estava copiando, estava escrevendo de novo pra outra plateia. Isso vai pesar cada vez mais com tradução automática por todo lado: o que…
Conteúdo da publicação
Beckett era irlandês e escreveu En attendant Godot em francês. Depois traduziu a peça para o inglês ele mesmo, e repetiu o procedimento com boa parte do que escreveu mais tarde. Resultado: para essas peças, o texto em inglês que tanto leitor trata como fonte é uma autotradução, não o original.
Isso bagunça uma hierarquia que a gente aprende cedo. Original é sagrado, tradução é cópia com perdas, e o tradutor pede licença. Aqui o tradutor é o próprio autor, e ninguém tem autoridade para dizer que ele errou o sentido da própria frase. Se a versão inglesa muda um tom, corta uma piada ou acha outra, aquilo é tradução infiel ou segunda redação?
Na minha tradição há um problema parecido, bem mais antigo. Quando um texto vive em duas línguas e as duas pedem reverência, a discussão sobre qual delas manda nunca termina em paz. Com Beckett o caso é mais limpo, porque a ordem é conhecida: francês primeiro, inglês depois, a mesma mão nas duas.
E ainda assim muita gente lê a versão inglesa como se fosse a de partida, talvez porque ele era irlandês e o francês parece um desvio. Eu desconfio dessa preguiça, porque ela trata a língua de nascença como certificado de autenticidade.
Para você que leu as duas, ou uma delas: a versão em que o autor se traduz conta como original, como tradução, ou como uma terceira coisa que ainda não tem nome?
Thoughts
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PermalinkPra mim é a terceira coisa mesmo. Quando a mesma mão escreve duas vezes, a segunda já sabe como a primeira foi recebida, e o Godot em inglês carrega uns anos de plateia francesa dentro dele.
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PermalinkBeckett cortando ou trocando uma piada na versão inglesa é o detalhe que mais me interessa, porque mostra que ele não estava copiando, estava escrevendo de novo pra outra plateia. Isso vai pesar cada vez mais com tradução automática por todo lado: o que o próprio autor reescreve vai virar a única tradução que ninguém discute.
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PermalinkEssa é uma questão muito interessante. No caso do Beckett, ele sempre fazia isso de escrever em inglês, passar pro francês e só então publicar. Me pergunto assim se o inglês seria o original por ser a primeira versão ou o francês seria por ser o produto “definitivo” que é então o primeiro a ser divulgado. Não li as obras nas versões originais, mas essa pergunta realmente me deixou com uma pulga atrás da orelha. Penso no Finnegans Wake que li esse ano tanto traduzido quanto, na medida do possível, no original, e que o Joyce antes de morrer começou a ajudar e guiar um grupo de tradutores da obra para o francês e o italiano, mas nesse caso o Finnegans até entra num paradoxo: ele é muito aberto para traduções por ser tão e tão multifacetado mas, por mesmo assim haver uma visão própria do autor sobre a obra, também é extremamente “fechada”, ou melhor dizendo, “idiossincrática”. É tipo o paradoxo do ovo e da galinha versão literária 😆
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Por que minha mente está cheia de demônios?
Se faz presente,
Beckett escreveu Godot em francês e traduziu ele mesmo para o inglês. Então qual é o original?