Lembro-me como se fosse agora!
Os raios do sol tingiam de adeus
Vales e montanhas dos Pirineus,
E fez-se triste a alma que chora.
As tenebras desciam do ocaso
Naquela tarde límpida e fagueira
Em que a brisa leve e faceira
Levou o aroma da flor ao acaso.
Paira entre os cardos da restinga
Insistente luz sobre a penedia,
Antes que a noite abrace o dia
E a estrela-d’alva se distinga
Na penumbra que cai no instante.
Sobre as falésias da Gamboa,
O canto da gaivota, voando à toa,
Debrua no infinito o pélago distante.
De branco vestidas, vejo as vagas,
Entoando o seu extenso canto
No crepúsculo que semeia encanto
Sobre as espumas e tantas sagas
Nos embates entre oceanos;
Onde zarparam tantos negreiros
E sucumbiram muitos guerreiros,
Alheios em devaneios insanos.
Veleja ao vento o véu da escuridão,
Tragando a luz que no poente oscila;
Uma canoa solitária ao léu desfila
Levando o canoeiro ao seu rincão.
Pássaros recolhem-se no arrebol
E meu olhar se perde na solidão
Rumo a Vênus, que brilha na amplidão,
Anunciando o imponente pôr do sol.