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Polly & Jeremy - Parte 7

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Pensamento

Pensamento

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A Polly descarta na hora a ideia de que a Manna morreu pra ela poder ser feliz, e logo depois deixa abertos o destino, o acaso, os bonecos num jogo cruel. Gostei que ela não fecha isso. Quem cresceu ouvindo que tudo tem um propósito conhece a tentação de

A Polly descarta na hora a ideia de que a Manna morreu pra ela poder ser feliz, e logo depois deixa abertos o destino, o acaso, os bonecos num jogo cruel. Gostei que ela não fecha isso. Quem cresceu ouvindo que tudo tem um propósito conhece a tentação de arrumar um sentido pra morte de um bicho, e ela recusa sem fazer discurso.

Conteúdo da publicação

A MEDALHA

O parque ficava em um lugar alto, onde a ponte de pedras atravessava as árvores e as ruas pareciam existir em camadas umas sobre as outras.

Jeremy e Pollyanna caminhavam lado a lado.

Manna ia entre eles, puxando a pequena corda presa à coleira e parando de vez em quando para cheirar alguma coisa.

— Jeremy, minha avó gostaria de ajudar com sua dislexia — disse Pollyanna. — Você consegue, sabe?

Jeremy olhou para ela.

— Por quê? Você acha que eu sou retardado?

Pollyanna parou de andar.

— Não! Nunca pense isso de mim. Eu sou sua melhor amiga!

Jeremy apenas sorriu.

Ela voltou a caminhar.

— E eu só tenho você como melhor amigo também. Nossa... somos os renegados do colégio, né?

— Até quando?

Pollyanna olhou para ele.

— Mas nós temos um ao outro. Já basta, não?

Jeremy pensou por alguns segundos.

Então abriu um sorriso.

— Ah! É! A bruxa e o mariquinha. Perfeito!

Pollyanna arqueou uma sobrancelha.

— Você é um mariquinha?

Jeremy parou.

Olhou para ela.

— Você é uma bruxa?

Os dois começaram a rir.

Continuaram andando por alguns metros.

— Vou deixar você sozinha — disse Jeremy, fingindo seriedade.

— Não vai, não.

Eles pararam novamente.

Ficaram frente a frente.

Por alguns instantes, nenhum dos dois disse nada.

Apenas se olharam.

Os olhos de Pollyanna refletiam cores diferentes. Jeremy parecia procurar alguma coisa neles, embora nem ele soubesse exatamente o quê.

Ela sorriu.

Ele sorriu de volta.

A mão de Pollyanna apertava e afrouxava lentamente a pequena corda de Manna.

Era um daqueles momentos em que o mundo parecia ter diminuído de tamanho.

Até que vozes surgiram do outro lado da ponte.

Miguel Fangio.

E seus amigos.

Eles apareceram entre as pedras e cercaram os dois.

Miguel abriu um sorriso.

— Olha só! Namorados! Que bizarro. A bruxa e o mariquinha!

Jeremy ficou imóvel.

— Se vocês forem trepar, eu quero um filhote, Jeremy! — Miguel continuou. — Com certeza a mulherzinha deve ser você!

Pollyanna deu um passo à frente.

— Para, Miguel! Vai embora e deixa a gente em paz!

Manna começou a rosnar.

Pollyanna colocou-se diante de Jeremy.

— Ah...

Jeremy tentou falar alguma coisa.

Miguel apontou para ele.

— Cala a boca, Jeremy! Você nasceu calado, vai continuar calado e vai morrer calado!

Um dos garotos riu.

— Dá uma porrada nele! Vai! Quebra a cara dele de novo!

Pollyanna começou a entrar em pânico.

— Não! Não! Não! Não!

Miguel avançou.

Foi quando Manna disparou.

A cachorrinha mordeu o braço de Miguel com força e não soltou.

— AHH!

Miguel tentou arrancá-la.

Manna ficou presa ao braço dele, rosnando.

Desesperado e furioso, Miguel começou a bater nela.

Pollyanna gritou.

— NÃO!

Num movimento brutal, Miguel conseguiu afastar a cachorrinha.

Manna foi lançada para longe, desaparecendo do outro lado da ponte de pedras.

Por um instante, ninguém se mexeu.

O mundo pareceu parar.

Jeremy olhou para o lugar onde Manna havia desaparecido.

Então correu.

Desceu desesperadamente entre as pedras.

Miguel olhou para o próprio braço ensanguentado.

Um dos amigos o puxou.

— Vamos cair fora! Sujou! Sujou! Bora, Miguel!

Miguel ainda olhou para trás.

E então fugiu.


Jeremy encontrou Manna embaixo da ponte.

Ela estava caída entre as pedras.

Respirava devagar.

Havia sangue em seu pelo.

Jeremy caiu de joelhos.

— Não...

Pegou Manna nos braços.

— Não! Não! Não, Manna...

A respiração dela era cada vez mais fraca.

— Respira... respira... por favor...

As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dele.

— Meu Deus, por favor...

Pollyanna chegou logo depois.

Parou.

Olhou para Manna.

Depois para Jeremy.

Não conseguia acreditar.

Jeremy apertou a cachorrinha contra o peito.

— Por favor... por favor... respira...

Sua voz se desmanchava.

— Vamos para casa, Manna. Vai ficar tudo bem. Por favor...

Pollyanna levou as mãos à cabeça.

Começou a chorar.

— Manna morreu...

Jeremy levantou os olhos.

— Cala a boca!

— Manna morreu.

— Não diz isso!

Ele apertou Manna ainda mais.

— Ela não morreu!

Pollyanna chorava.

— Manna morreu!

— Cala a boca, sua bruxa!

Pollyanna gritou de volta:

— Manna morreu, seu mariquinha desgraçado!

Os dois ficaram se encarando entre lágrimas.

Então Pollyanna segurou o rosto de Jeremy com as duas mãos.

Manna permanecia imóvel nos braços dele.

O ódio desapareceu.

Restou apenas a dor.

Jeremy soluçou.

— Me perdoa...

Pollyanna continuou segurando seu rosto.

— Pelo quê?

— Por favor... não me deixe sozinho.

Ela o abraçou.

— Nunca vou deixar você sozinho.


Mais tarde, no quintal da casa de Inês, havia um buraco aberto na terra.

Uma pá estava caída ao lado.

Algumas flores esperavam sobre o chão.

Manna estava envolta em uma velha camiseta de uma banda de rock, a mesma onde costumava dormir.

Jeremy e Pollyanna enterraram a cachorrinha em silêncio.

Inês observava tudo pela janela.

Não interrompeu.

Depois deixou a cozinha e foi para seu quarto.

Era uma tristeza que não precisava de palavras.

Quando terminaram, Jeremy e Pollyanna permaneceram ajoelhados diante da pequena sepultura.

Olharam um para o outro.

Pollyanna chorava sem emitir som.

Jeremy também.

Então se aproximaram.

E se beijaram.

Foi um beijo pequeno, triste, quase tímido.

Não havia paixão.

Havia luto.

Havia medo.

Havia duas crianças tentando encontrar algum lugar para colocar uma dor que era grande demais para seus corpos.


A morte nos uniu.

E somente a morte poderia nos separar.

Ela nos ensinou tanto que, nos momentos de tristeza, aprendemos coisas que a felicidade nunca conseguiria nos ensinar.

Na minha infelicidade, encontrei alguém que me entendia.

Alguém que compartilhava minha dor.

Nesse mundo onde eu sempre me escondi, alguém me encontrou no escuro.

Alguém ouviu minha solidão.

Jeremy não apareceu como um anjo.

Ele apareceu como amigo.

Como companheiro.

Como alguém que, sem quase dizer uma palavra, tocou minha alma sem sequer perceber.

Pela primeira vez, parecia que eu podia confiar em alguém.

Alguém que havia encontrado meus demônios e, sem perceber, começado a expulsá-los.

Eu já não tinha tanto medo do escuro.

Mas uma pergunta continuava dentro de mim.

Manna morreu para que eu pudesse ser feliz?

Nunca.

A vida estava pregando uma peça em nós?

Talvez fosse o destino.

Talvez fosse apenas acaso.

Ou talvez fôssemos somente bonecos presos a um jogo cruel demais para compreender.

A vida é difícil.

Rara.

Triste.

Mas é a única que temos.

E, por isso, talvez precisemos agarrar cada pequeno momento de felicidade que ela nos oferece.


Desde os oito anos, eu tinha pesadelos.

Sempre o mesmo quarto.

Escuro.

Fechado.

O chão coberto por uma lama fria.

Havia uma pessoa ali.

Mas ela não tinha rosto.

Era apenas uma silhueta coberta pela escuridão.

Fazia muito frio.

Muito.

Eu tinha asas.

E elas ficavam sujas de lama.

Depois eram arrancadas.

Eu sentia alguma coisa apertar meu pescoço até quase não conseguir respirar.

Tentava gritar.

Não conseguia.

A lama fria cobria meu corpo.

No sonho, eu perdia qualquer sensação de quem eu era.

Deixava de ser uma pessoa.

Era apenas algo abandonado.

Descartado.

Um recipiente vazio, sem essência.

Então acordava.

Com um gosto ruim na boca.

Chorando.

Sempre chorando.

Mas havia uma força estranha dentro de mim.

Alguma coisa que me fazia continuar viva todos os dias.

Talvez fosse fé.

Talvez fosse apenas instinto.

Ela aparecia quando eu tinha medo.

Me mantinha viva.

E depois desaparecia, deixando-me sozinha outra vez.

Agora aquela força havia voltado.

Talvez fosse Jeremy.

Jeremy tinha chegado.

Meu Jeremy.

E, de alguma maneira, ele havia me salvado.


No domingo, Inês estava sentada com Jeremy na varanda do quintal.

Explicava a ele sobre instituições gratuitas que poderiam ajudá-lo com a dislexia.

Jeremy escutava atentamente.

Mais tarde, ele e Pollyanna ficaram juntos na varanda.

Abraçados.

Ainda sentiam a ausência de Manna.

Fazia frio.

Nenhum dos dois queria falar sobre ela.


No dia seguinte, na sala de aula, Jeremy observou a aula passar rapidamente diante de seus olhos.

As palavras.

Os movimentos.

Os alunos.

O relógio.

Tudo parecia distante.

Quando chegou o recreio, encontrou Pollyanna no pátio.

Ela se aproximou devagar.

— Oi?

Jeremy respondeu baixinho:

— Oi.

Pollyanna parecia um pouco envergonhada.

— O Miguel foi transferido para o norte. Foi para a casa dos pais.

Jeremy ficou olhando para ela.

— Mas...

— Esquece.

Ela sorriu delicadamente.

— Você está em paz agora.

Jeremy queria entender.

Queria uma justificativa.

Às vezes, pensamos que precisamos responder à violência com os punhos.

Queremos transformar nossa dor em outra dor.

Mas nenhuma dor é curada por outra.

O tempo não apaga tudo, mas ensina a carregar aquilo que ficou.

Cada pessoa trava uma batalha dentro de si.

E todas essas batalhas precisam ser respeitadas.

Erramos.

Aprendemos.

Praticamos.

E, então, aprendemos novamente.

Jeremy tentou falar.

— Mas...

Pollyanna interrompeu.

— Você tem a mim.

Ele olhou para ela.

— O resto é passado.

Jeremy sorriu.

— Tudo bem.

Pollyanna colocou as mãos atrás das costas.

— Feche os olhos. Tenho uma surpresa.

Jeremy fechou.

Pollyanna aproximou-se e colocou alguma coisa em seu pescoço.

— Pode abrir.

Jeremy olhou para baixo.

Era uma medalha.

Uma pequena corrente.

E, pendurada nela, estava a bala.

A mesma bala que ele havia carregado no bolso.

A mesma bala que, naquele dia, representava sua vontade de morrer.

Agora estava transformada em outra coisa.

Jeremy tocou a medalha com os dedos.

Leu a pequena inscrição.

— Aos sobreviventes...

Olhou para Pollyanna.

— Uma medalha.

Ela sorriu.

— Adorei.

Jeremy ficou em silêncio.

Durante alguns segundos, apenas observou o presente.

Era estranho pensar que aquele pequeno objeto, que um dia havia representado a morte, agora significava outra coisa.

Esperança.

Ele olhava para a medalha com os olhos de uma criança que começava novamente a acreditar que o futuro podia existir.

Como se tudo de ruim pudesse, por alguns instantes, desaparecer.

Não era apenas um presente.

Era algo que vinha de alguém especial.

De alguém que sabia transformar pequenas coisas em grandes significados.

De Polly para Jeremy.

Ele se sentiu querido.

Protegido.

Como se, naquele instante, ninguém pudesse machucá-lo.

Então se aproximou do ouvido dela e sussurrou:

— Com você, sempre estarei em casa.

Sempre.

Aquelas palavras me deram uma força que eu não sabia que existia.

Tive vontade de contar para o mundo inteiro.

De gritar.

De dizer o que estava acontecendo dentro de mim.

Era uma sensação estranha no estômago que subia até a cabeça, quase me deixando tonta.

Um nó na garganta.

E uma vontade de fazer uma promessa a mim mesma.

Como uma oração:

Eu te amo.

Com Jeremy, o amor finalmente fez sentido.

Era como se aquele instante pudesse durar para sempre.

Um único segundo eterno.

Um lugar onde poderíamos permanecer juntos sem medo.

Sem culpa.

Sem dor.

Sem solidão.

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Thoughts

  • kalell

    A medalha é um símbolo muito significativo: a bala que antes representava a vontade de morrer passa a representar a sobrevivência e a esperança. Gostei especialmente da maneira como o capítulo associa o luto à aproximação de Jeremy e Pollyanna, mostrando que, mesmo em meio à dor, podemos encontrar alguém com quem dividir o peso da existência. A frase “Com você, sempre estarei em casa” sintetiza muito bem essa ideia de pertencimento: às vezes, encontramos em outra pessoa a segurança que o mundo não conseguiu nos oferecer. Um capítulo doloroso, mas que termina apontando para a possibilidade de recomeçar.

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  • deixoumarca

    A bala do bolso virando medalha no pescoço dele. Tem coisa que a pessoa só consegue levar quando muda de forma.

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  • so_o_texto_diz

    A Polly descarta na hora a ideia de que a Manna morreu pra ela poder ser feliz, e logo depois deixa abertos o destino, o acaso, os bonecos num jogo cruel. Gostei que ela não fecha isso. Quem cresceu ouvindo que tudo tem um propósito conhece a tentação de arrumar um sentido pra morte de um bicho, e ela recusa sem fazer discurso.

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