Fiquei com a mochila cinza da Ceres, com as chaves cruzadas, balançando enquanto ela entra no colégio sabendo que o Theo e a Mãe estão olhando. Meu palpite é que essa sensação de nunca estar sozinha vai pesar mais nela do que qualquer soco. Obrigado por continuar postando a série, dá gosto ver a Mãe Ceres crescendo parte por parte!
Pertencimento - Parte 1
No ginásio coberto, a piscina fria parecia esquentar com a batalha de quem pertencia mais.
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Fiquei com a mochila cinza da Ceres, com as chaves cruzadas, balançando enquanto ela entra no colégio sabendo que o Theo e a Mãe estão olhando. Meu palpite é que essa sensação de nunca estar sozinha vai pesar mais nela do que qualquer soco. Obrigado por c
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No ginásio coberto, a piscina fria parecia esquentar com a batalha de quem pertencia mais.
Era uma disputa pela liderança entre três jovens: Gris, Ceres e Ana.
Personalidades completamente diferentes.
Gris era quase sem expressão. Uma garota que era reajustada para cada colégio de Ceres. Sabia que servia de comparação para outra aluna. Era usada como niveladora: disciplina, consistência, desempenho.
Não reclamava. Pensava antes de dizer qualquer coisa.
Mas sentia o ego ferver.
Sabia que havia sido colocada naquele colégio para perturbar a ordem estabelecida em torno de Ceres, uma garota disfuncional em seus comportamentos sociais, que não fazia amizades, permanecia isolada e carregava um olhar profundo capaz de intimidar qualquer pessoa.
Nascida em Silencium, Ceres havia sido renegada pelo próprio pai e criada na Cidade de Ceres. Ninguém sabia disso além de Theo, do colégio e da própria Mãe Ceres.
Ana era disciplinada. Séria.
Já havia sido líder. Já havia vencido Gris anos antes.
Mas perdera a liderança para Ceres.
Ana nunca engoliu aquilo.
As três se odiavam.
Nos exercícios na piscina, Ana e Ceres acordavam cedo e chegavam praticamente no mesmo horário. Ceres sempre dava um pequeno sorriso cínico para Ana, como se dissesse:
— Acordou cedo, donzela?
Ana, com uma expressão de puro ódio, imaginava como seria bom socá-la. Segurava-se. Mordia os lábios até deixar marcas.
Já Gris e Ceres eram outro nível.
Nunca haviam se falado.
Mal haviam trocado olhares em suas vidas.
Nas raias, as três buscavam o menor tempo possível. O professor adorava assistir à piscina fria ferver. A pressão psicológica entre elas era mais interessante do que qualquer jogo oficial.
Na arquibancada, Theo e Daime entraram.
Sentaram-se calmamente e observaram as garotas na piscina.
Havia várias alunas ali, mas ninguém queria ficar perto das três. A aura delas não era boa.
Entre os cinco mil alunos daquele colégio, eram as melhores.
Theo e Daime estavam quietos demais.
Conversavam baixo. Um balançava a cabeça enquanto o outro parecia cheio de dúvidas.
Ana e Ceres perceberam a presença deles.
As duas pensaram que provavelmente estavam falando sobre elas.
Na última vez, Theo e Daime haviam ficado provocando, assoviando e fazendo comentários.
Todos conheciam a relação entre Ana e Daime.
Mas Theo e Ceres...
Eram muralha e tempestade.
Uma simbiose doentia, capaz de terminar em costelas fraturadas ou alguém na enfermaria.
Gris percebeu.
Naquele dia, pela primeira vez, sorriu.
Sabia que a presença dos dois iria perturbar Ana e Ceres.
Era visível.
Ana conhecia a malícia de Daime, suas piadas ácidas e cruéis. Poderiam até ser engraçadas, mas apenas a presença dele já a perturbava.
Às vezes, olhava para ele como se dissesse:
Vai embora, seu desgraçado.
Mas não podia demonstrar fraqueza.
Ceres era diferente.
Estava perturbada pelo comportamento de Theo.
Ele era previsível. Ou pelo menos costumava ser.
Hoje estava mais relaxado, aparentemente indiferente ao colégio. Parecia apenas mais um garoto seguindo o fluxo do sistema.
E isso o tornava imprevisível.
Eu deveria ter quebrado mais costelas dele.
Como ele ainda tem a cara de pau de vir aqui?
As três garotas continuaram se alternando nos diferentes estilos de natação. O professor apenas anotava os tempos.
Ana e Ceres começaram a perder rendimento.
Gris se destacava cada vez mais.
A rivalidade era palpável naquele silêncio, naquela pequena elevação do queixo, nos ombros eretos pelo orgulho.
O professor então as chamou para uma sessão de saltos sincronizados de dez metros.
As três ficaram em frente a ele durante o intervalo.
Ceres, perturbada.
Ana, sem expressão.
Gris sendo Gris.
Os dois garotos continuavam sentados na arquibancada.
Até que Kan chegou e sentou-se um pouco distante.
— É difícil, hein?
— Cala a boca, Kan! — disse Daime.
— Vem me calar, seu desgraçado!
Daime partiu para cima dele.
Theo interveio.
— Querem parar vocês dois? Kan... o que você quer?
— Só vim ver o treino.
Theo olhou sério para ele.
Silêncio.
— Tá certo.
Kan se sentou.
— Ué... quebra ele na porrada! — provocou Daime.
— Chega, Daime.
Kan olhou para ele.
— Mesmo fígado.
Daime levantou a cabeça.
— Senta, Daime. Você é cachorrinho do Theo!
Daime entrou em fúria.
Partiu para cima de Kan.
Os dois trocaram socos na arquibancada.
O professor observou a cena e deu um assobio curto e estridente.
— Vocês... fora daqui!
Os garotos saíram.
Antes de deixar o ginásio, Theo olhou para Ceres e sorriu.
Era como se dissesse:
Você pode fazer melhor que isso.
Ao saírem do ginásio, os três garotos ficaram em silêncio.
Pareciam querer continuar a briga.
Mas outro professor estava por perto. Ele sabia que os três se odiavam, inclusive Theo e Daime, e os acompanhou até o pátio, fazendo vista grossa.
Kan foi em direção ao seu colégio.
Antes de ir, mostrou o dedo do meio para Theo e Daime.
— Que audácia desse infeliz! — disse Daime.
— Deixa ele. Está com medo.
— Você deveria derrubá-lo de primeira quando lutar contra ele pela liderança.
— Nada. Kan não é ninguém.
— Sei... mas e se ele ganhar?
— Acho até melhor. Estou nem aí.
Os dois se olharam.
— Gostei quando a gente fingiu estar falando alguma coisa na arquibancada — disse Daime.
— Foi divertido.
— Ana e Ceres ficaram perturbadas.
— Sim. Foi muito divertido.
Daime ficou alguns segundos em silêncio.
— Mas, Theo... sei lá. Você está nem aí mais, né?
Theo não respondeu.
— Acho que nem detenção mudaria mais seu comportamento. Você era tão sério... “Eu sou filho de Ceres.” Mamãe Ceres tem orgulho.
Theo olhou para ele.
— É isso, Daime. Eu não mudei. Eu sou filho de Mãe Ceres.
— Sei, sei... — Daime imitou uma voz solene. — Que nos alimenta, educa...
— E devora! — completou Theo, sério, olhando para o nada.
Daime ficou quieto por um instante.
Theo continuou:
— Mãe Ceres quer falar comigo. Parece que ela está reunindo alunos de todos os colégios.
— Parece coisa boa.
— Sim, Daime. Mãe Ceres está acrescentando... não mudando.
— Ué, por quê?
— Ninguém muda. Só acrescentamos.
Daime riu.
— Está filosofando demais. Ceres deve ter batido forte demais na sua cabeça.
Theo sorriu.
— Adoraria.
Daime olhou para trás.
— Por falar no diabo... olha o rabo.
Ceres vinha pelo caminho.
Ela parou diante de Theo.
Olhou para ele com ódio.
Depois olhou para Daime como se quisesse expulsá-lo dali.
Daime levantou as mãos.
— Beijo na bunda de vocês dois.
Afastou-se.
Theo e Ceres ficaram sozinhos no pátio.
Os dois se olharam.
Ceres tentava decifrá-lo.
Theo estava sério.
— O que você pensa que está fazendo?
— Nada.
— Aquilo só me deixa com mais raiva.
— Não fiz nada, Ceres.
Ceres respirou fundo.
Continuou olhando para ele.
Seus olhos pareciam procurar uma mentira.
— Que foi?
Ceres continuou parada.
— ...
— É só dizer, Ceres.
— NUNCA!
Silêncio.
Theo finalmente falou:
— Ceres... na estação, amanhã, às 13h.
Naquele momento, Ceres deu um soco forte em Theo, como sempre.
Theo sorriu.
Um pouco de sangue apareceu em sua boca.
Ceres nunca pediria aquilo.
Fazia semanas que ela não o chamava para ir ao silo, ver os pêssegos, observar as plantações, aprender Libras ou simplesmente ver o tempo passar.
Ela agarrou Theo pelo colarinho.
— Por quê você?
Theo a encarou.
— Porque sou o único que suporto. Fico... e sangro por você.
Ceres ficou desconcertada.
Theo mostrara a ela exatamente como ela era, e mesmo assim ela continuava sem se entender.
Um era chumbo rígido.
A outra, chumbo líquido.
Muralha e tempestade.
Theo a segurou com força, trazendo-a para perto do peito.
Ceres olhou para o sangue em sua boca.
Silêncio.
Os dois permaneceram se olhando.
Ceres procurou Theo em seu olhar.
Encontrou o filho de Ceres.
Ainda não entendia como ele conseguia perturbá-la daquela maneira.
Ceres o empurrou.
— Por que você não me deixou morrer?
— Não era para você morrer, Ceres. A Mãe sempre salvou você, mesmo através de mim. Agradeça a ela por eu ser como sou.
Ceres o encarou.
— Não me questione sobre Mãe Ceres, seu desgraçado.
Os dois disseram, quase ao mesmo tempo:
— Mãe Ceres que nos alimenta, educa e devora.
Ceres saiu.
A mochila esportiva cinza, marcada pelas chaves cruzadas de Ceres, balançava em suas costas.
Theo permaneceu parado.
Olhou para ela até desaparecer dentro do colégio.
Ceres sabia que estava sendo observada.
Por Theo.
E pela Mãe.
Thoughts
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PermalinkVixe, o soco no Theo 😬
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PermalinkFiquei com a mochila cinza da Ceres, com as chaves cruzadas, balançando enquanto ela entra no colégio sabendo que o Theo e a Mãe estão olhando. Meu palpite é que essa sensação de nunca estar sozinha vai pesar mais nela do que qualquer soco. Obrigado por continuar postando a série, dá gosto ver a Mãe Ceres crescendo parte por parte!
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