Vixe, o soco no Theo đŹ
Pertencimento - Parte 1
No ginĂĄsio coberto, a piscina fria parecia esquentar com a batalha de quem pertencia mais.
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Vixe, o soco no Theo đŹ
ConteĂșdo da publicação
No ginĂĄsio coberto, a piscina fria parecia esquentar com a batalha de quem pertencia mais.
Era uma disputa pela liderança entre trĂȘs jovens: Gris, Ceres e Ana.
Personalidades completamente diferentes.
Gris era quase sem expressĂŁo. Uma garota que era reajustada para cada colĂ©gio de Ceres. Sabia que servia de comparação para outra aluna. Era usada como niveladora: disciplina, consistĂȘncia, desempenho.
NĂŁo reclamava. Pensava antes de dizer qualquer coisa.
Mas sentia o ego ferver.
Sabia que havia sido colocada naquele colégio para perturbar a ordem estabelecida em torno de Ceres, uma garota disfuncional em seus comportamentos sociais, que não fazia amizades, permanecia isolada e carregava um olhar profundo capaz de intimidar qualquer pessoa.
Nascida em Silencium, Ceres havia sido renegada pelo próprio pai e criada na Cidade de Ceres. Ninguém sabia disso além de Theo, do colégio e da própria Mãe Ceres.
Ana era disciplinada. Séria.
JĂĄ havia sido lĂder. JĂĄ havia vencido Gris anos antes.
Mas perdera a liderança para Ceres.
Ana nunca engoliu aquilo.
As trĂȘs se odiavam.
Nos exercĂcios na piscina, Ana e Ceres acordavam cedo e chegavam praticamente no mesmo horĂĄrio. Ceres sempre dava um pequeno sorriso cĂnico para Ana, como se dissesse:
â Acordou cedo, donzela?
Ana, com uma expressão de puro ódio, imaginava como seria bom socå-la. Segurava-se. Mordia os låbios até deixar marcas.
JĂĄ Gris e Ceres eram outro nĂvel.
Nunca haviam se falado.
Mal haviam trocado olhares em suas vidas.
Nas raias, as trĂȘs buscavam o menor tempo possĂvel. O professor adorava assistir Ă piscina fria ferver. A pressĂŁo psicolĂłgica entre elas era mais interessante do que qualquer jogo oficial.
Na arquibancada, Theo e Daime entraram.
Sentaram-se calmamente e observaram as garotas na piscina.
Havia vĂĄrias alunas ali, mas ninguĂ©m queria ficar perto das trĂȘs. A aura delas nĂŁo era boa.
Entre os cinco mil alunos daquele colégio, eram as melhores.
Theo e Daime estavam quietos demais.
Conversavam baixo. Um balançava a cabeça enquanto o outro parecia cheio de dĂșvidas.
Ana e Ceres perceberam a presença deles.
As duas pensaram que provavelmente estavam falando sobre elas.
Na Ășltima vez, Theo e Daime haviam ficado provocando, assoviando e fazendo comentĂĄrios.
Todos conheciam a relação entre Ana e Daime.
Mas Theo e Ceres...
Eram muralha e tempestade.
Uma simbiose doentia, capaz de terminar em costelas fraturadas ou alguém na enfermaria.
Gris percebeu.
Naquele dia, pela primeira vez, sorriu.
Sabia que a presença dos dois iria perturbar Ana e Ceres.
Era visĂvel.
Ana conhecia a malĂcia de Daime, suas piadas ĂĄcidas e cruĂ©is. Poderiam atĂ© ser engraçadas, mas apenas a presença dele jĂĄ a perturbava.
Ăs vezes, olhava para ele como se dissesse:
Vai embora, seu desgraçado.
Mas nĂŁo podia demonstrar fraqueza.
Ceres era diferente.
Estava perturbada pelo comportamento de Theo.
Ele era previsĂvel. Ou pelo menos costumava ser.
Hoje estava mais relaxado, aparentemente indiferente ao colégio. Parecia apenas mais um garoto seguindo o fluxo do sistema.
E isso o tornava imprevisĂvel.
Eu deveria ter quebrado mais costelas dele.
Como ele ainda tem a cara de pau de vir aqui?
As trĂȘs garotas continuaram se alternando nos diferentes estilos de natação. O professor apenas anotava os tempos.
Ana e Ceres começaram a perder rendimento.
Gris se destacava cada vez mais.
A rivalidade era palpĂĄvel naquele silĂȘncio, naquela pequena elevação do queixo, nos ombros eretos pelo orgulho.
O professor entĂŁo as chamou para uma sessĂŁo de saltos sincronizados de dez metros.
As trĂȘs ficaram em frente a ele durante o intervalo.
Ceres, perturbada.
Ana, sem expressĂŁo.
Gris sendo Gris.
Os dois garotos continuavam sentados na arquibancada.
Até que Kan chegou e sentou-se um pouco distante.
â Ă difĂcil, hein?
â Cala a boca, Kan! â disse Daime.
â Vem me calar, seu desgraçado!
Daime partiu para cima dele.
Theo interveio.
â Querem parar vocĂȘs dois? Kan... o que vocĂȘ quer?
â SĂł vim ver o treino.
Theo olhou sério para ele.
SilĂȘncio.
â TĂĄ certo.
Kan se sentou.
â UĂ©... quebra ele na porrada! â provocou Daime.
â Chega, Daime.
Kan olhou para ele.
â Mesmo fĂgado.
Daime levantou a cabeça.
â Senta, Daime. VocĂȘ Ă© cachorrinho do Theo!
Daime entrou em fĂșria.
Partiu para cima de Kan.
Os dois trocaram socos na arquibancada.
O professor observou a cena e deu um assobio curto e estridente.
â VocĂȘs... fora daqui!
Os garotos saĂram.
Antes de deixar o ginĂĄsio, Theo olhou para Ceres e sorriu.
Era como se dissesse:
VocĂȘ pode fazer melhor que isso.
Ao saĂrem do ginĂĄsio, os trĂȘs garotos ficaram em silĂȘncio.
Pareciam querer continuar a briga.
Mas outro professor estava por perto. Ele sabia que os trĂȘs se odiavam, inclusive Theo e Daime, e os acompanhou atĂ© o pĂĄtio, fazendo vista grossa.
Kan foi em direção ao seu colégio.
Antes de ir, mostrou o dedo do meio para Theo e Daime.
â Que audĂĄcia desse infeliz! â disse Daime.
â Deixa ele. EstĂĄ com medo.
â VocĂȘ deveria derrubĂĄ-lo de primeira quando lutar contra ele pela liderança.
â Nada. Kan nĂŁo Ă© ninguĂ©m.
â Sei... mas e se ele ganhar?
â Acho atĂ© melhor. Estou nem aĂ.
Os dois se olharam.
â Gostei quando a gente fingiu estar falando alguma coisa na arquibancada â disse Daime.
â Foi divertido.
â Ana e Ceres ficaram perturbadas.
â Sim. Foi muito divertido.
Daime ficou alguns segundos em silĂȘncio.
â Mas, Theo... sei lĂĄ. VocĂȘ estĂĄ nem aĂ mais, nĂ©?
Theo nĂŁo respondeu.
â Acho que nem detenção mudaria mais seu comportamento. VocĂȘ era tĂŁo sĂ©rio... âEu sou filho de Ceres.â MamĂŁe Ceres tem orgulho.
Theo olhou para ele.
â Ă isso, Daime. Eu nĂŁo mudei. Eu sou filho de MĂŁe Ceres.
â Sei, sei... â Daime imitou uma voz solene. â Que nos alimenta, educa...
â E devora! â completou Theo, sĂ©rio, olhando para o nada.
Daime ficou quieto por um instante.
Theo continuou:
â MĂŁe Ceres quer falar comigo. Parece que ela estĂĄ reunindo alunos de todos os colĂ©gios.
â Parece coisa boa.
â Sim, Daime. MĂŁe Ceres estĂĄ acrescentando... nĂŁo mudando.
â UĂ©, por quĂȘ?
â NinguĂ©m muda. SĂł acrescentamos.
Daime riu.
â EstĂĄ filosofando demais. Ceres deve ter batido forte demais na sua cabeça.
Theo sorriu.
â Adoraria.
Daime olhou para trĂĄs.
â Por falar no diabo... olha o rabo.
Ceres vinha pelo caminho.
Ela parou diante de Theo.
Olhou para ele com Ăłdio.
Depois olhou para Daime como se quisesse expulsĂĄ-lo dali.
Daime levantou as mĂŁos.
â Beijo na bunda de vocĂȘs dois.
Afastou-se.
Theo e Ceres ficaram sozinhos no pĂĄtio.
Os dois se olharam.
Ceres tentava decifrĂĄ-lo.
Theo estava sério.
â O que vocĂȘ pensa que estĂĄ fazendo?
â Nada.
â Aquilo sĂł me deixa com mais raiva.
â NĂŁo fiz nada, Ceres.
Ceres respirou fundo.
Continuou olhando para ele.
Seus olhos pareciam procurar uma mentira.
â Que foi?
Ceres continuou parada.
â ...
â Ă sĂł dizer, Ceres.
â NUNCA!
SilĂȘncio.
Theo finalmente falou:
â Ceres... na estação, amanhĂŁ, Ă s 13h.
Naquele momento, Ceres deu um soco forte em Theo, como sempre.
Theo sorriu.
Um pouco de sangue apareceu em sua boca.
Ceres nunca pediria aquilo.
Fazia semanas que ela nĂŁo o chamava para ir ao silo, ver os pĂȘssegos, observar as plantaçÔes, aprender Libras ou simplesmente ver o tempo passar.
Ela agarrou Theo pelo colarinho.
â Por quĂȘ vocĂȘ?
Theo a encarou.
â Porque sou o Ășnico que suporto. Fico... e sangro por vocĂȘ.
Ceres ficou desconcertada.
Theo mostrara a ela exatamente como ela era, e mesmo assim ela continuava sem se entender.
Um era chumbo rĂgido.
A outra, chumbo lĂquido.
Muralha e tempestade.
Theo a segurou com força, trazendo-a para perto do peito.
Ceres olhou para o sangue em sua boca.
SilĂȘncio.
Os dois permaneceram se olhando.
Ceres procurou Theo em seu olhar.
Encontrou o filho de Ceres.
Ainda nĂŁo entendia como ele conseguia perturbĂĄ-la daquela maneira.
Ceres o empurrou.
â Por que vocĂȘ nĂŁo me deixou morrer?
â NĂŁo era para vocĂȘ morrer, Ceres. A MĂŁe sempre salvou vocĂȘ, mesmo atravĂ©s de mim. Agradeça a ela por eu ser como sou.
Ceres o encarou.
â NĂŁo me questione sobre MĂŁe Ceres, seu desgraçado.
Os dois disseram, quase ao mesmo tempo:
â MĂŁe Ceres que nos alimenta, educa e devora.
Ceres saiu.
A mochila esportiva cinza, marcada pelas chaves cruzadas de Ceres, balançava em suas costas.
Theo permaneceu parado.
Olhou para ela até desaparecer dentro do colégio.
Ceres sabia que estava sendo observada.
Por Theo.
E pela MĂŁe.
Thoughts
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PermalinkVixe, o soco no Theo đŹ
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PermalinkFiquei com a mochila cinza da Ceres, com as chaves cruzadas, balançando enquanto ela entra no colégio sabendo que o Theo e a Mãe estão olhando. Meu palpite é que essa sensação de nunca estar sozinha vai pesar mais nela do que qualquer soco. Obrigado por continuar postando a série, då gosto ver a Mãe Ceres crescendo parte por parte!
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