— Liberdade não enche barriga, Render... Ela é abstrata. Não traz pão à mesa, não cura feridas, não traz segurança. Todos querem essa fé da liberdade. Comparam felicidade com liberdade. Todos, fora de Ceres, pagam para ter liberdade e acham justo isso. Vejam as nações que têm pessoas com muito poder e poder financeiro, e ainda querem mais. Elas não querem nada além de poder para testar a própria liberdade: até que limite é permitido mudar o mundo? E quanto mais perverso for o plano de mudar o mundo... não é mudar o mundo.
Respeito o credo de todos: deuses e deusas, criadores de mundos e do próprio universo. Se eles mesmos tentaram mudar o mundo e tiveram a humildade de reconhecer que não conseguiram... então existe o ser humano, que acha que pode mudar o mundo com seu poder.
Eu desejo boa sorte.
Eu fiz isso com água, comida, um lar e um propósito. A liberdade como enfeite, para lembrar o que ela faz quando não temos liberdade: a responsabilidade que a alimenta.
A liberdade morreu de fome de responsabilidade. Seu cadáver está intacto e fede a caos, para lembrar que a fome afeta até a liberdade.
Neste instante, o sistema de renovação do ar da sala é acionado. Ao fundo, a cidade de Ceres está iluminada pelas luzes de LED. As ruas, vazias e limpas. Com a renovação do ar, começa-se a ouvir o burburinho da cidade: trens lotados de grãos, tratores agrícolas, bombas d’água da irrigação...
O áudio vaza para todo o continente.
Todos ficam estupefatos com a eficiência. A cidade parece um relógio vivo, funcionando com precisão. Um lugar onde a fome não mora, enquanto a liberdade chora por seu próprio corpo — e esse corpo está ali: a responsabilidade.
— Neste instante... este som me dá forças todos os dias. Trabalhamos e trocamos nossa fé por suportar. Aqui, são as máquinas que rezam, e nós operamos o milagre todos os dias.
Com o fundo à mostra, como se fosse um milagre, surge uma estrela brilhante.
Não era uma estrela.
Era a estação espacial CERES II, surgindo contra o sol, com suas luzes artificiais brilhando.
Nada daquilo estava programado.
Mãe Ceres percebe. Olha para a câmera.
Uma lágrima escorre.
Ela viu aquilo como um milagre. Pelos fones de ouvido, captava o som daquele momento — algo que, para Ceres, era a coisa mais natural do mundo, mas que, diante do continente, parecia impressionante.
— Ah... isso... desculpem, meus filhos. É só a Ceres II. É só uma estação espacial que controla nossas máquinas agrícolas.
O mundo assiste à cena.
Render fica de queixo caído.
Mãe Ceres não consegue controlar a narrativa.
Em Omni Opus, a nação que caiu diante do milagre de Mãe Ceres se ajoelha novamente ao ver aquilo, ao vivo.
Mãe Ceres é canonizada justamente no país onde era mais odiada e que agora prospera por meio de acordos econômicos com Ceres.
Mãe Ceres fica preocupada com a cena. Para ela, aquilo é normal. Uma coisa que, diante do mundo, definitivamente não é.
Render teve sua pergunta respondida por Mãe Ceres, por Ceres e pela própria natureza de Ceres.
Koee chora baixinho.
Amós sorri, cínico e arrogante.
Ysa, orgulhosa, abre um belo sorriso.