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Eloquência da Fome

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Na Torre de Ceres, uma equipe de filmagem estava posicionada na sala de mármore. O cenário estava montado. Era uma entrevista ao vivo.

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Na Torre de Ceres, uma equipe de filmagem estava posicionada na sala de mármore. O cenário estava montado. Era uma entrevista ao vivo.

A equipe estava nervosa. Nunca haviam visto a Grande Mãe pessoalmente. Aguardavam, ansiosos, a sua chegada.

Na sala principal estavam Luz, Ysa, Amós e Koee, atrás da equipe, acompanhando tudo entre monitores e luzes de estúdio. A entrevista seria transmitida ao vivo, em horário nobre, para toda a República de Fiúme, com tradução instantânea para a língua local.

Al Acram estava ali como jornalista. Desta vez, porém, não poderia entrevistá-la. Sua aparência não era considerada jovial o bastante e a emissora havia mudado o entrevistador de última hora. Mãe Ceres soube da mudança e fez questão de que fosse ele.

Ainda assim, seria uma entrevista firme, transmitida para quase todo o continente.

Atrás de tudo, através dos enormes painéis de vidro, havia uma visão de Ceres: uma cidade que funcionava quase como um relógio. Trens passavam ao fundo, silenciosos. A acústica da sala era tão perfeita que até os menores sons pareciam adquirir a dimensão de um trovão.

Até então, havia apenas o burburinho da equipe.

Então, ela apareceu.

Mãe Ceres estava sem sua coroa, sem a tiara de cristal. Vestia uma roupa executiva, coberta por um véu cinza-escuro, e usava sua máscara ovalada.

Seus passos eram leves, silenciosos, quase felinos.

O burburinho morreu.

Ninguém precisou pedir silêncio.

A presença dela simplesmente o impôs.

Por alguns segundos, ninguém se moveu.

Era como se uma entidade tivesse entrado na sala.

E, naquele instante, uma entrevista deixou de parecer uma entrevista.

A equipe inteira permaneceu séria, quase catatônica, em absoluto silêncio.

Koee sorria, inocente, como se aquela situação fosse perfeitamente normal.

Amós suspirou, entediado com o comportamento da equipe.

Ysa mantinha o queixo acima do horizonte, orgulhosa.

Mãe Ceres olhou para todos por alguns segundos.

Percebeu o efeito que havia causado.

Então, quebrou o silêncio:

— Boa noite, meus filhos. Sejam bem-vindos a Ceres. Todos se alimentaram? Estão confortáveis? Não quero ninguém com fome aqui!

Aquilo nem parecia uma entrevista.

Ninguém sabia como reagir.

Então, um repórter mais jovem se aproximou.

— Boa noite, Mãe Ceres. Eu sou Hermes Render.

Ele estendeu a mão.

Mãe Ceres também.

Hermes apertou com força.

Forte demais.

Ela percebeu imediatamente.

— Meu filho... com todo respeito, por que essa força toda? — disse, olhando para a mão dele. — Sei que está bem alimentado... Mas me chame de Mãe. Assim fica mais fácil, né?

Hermes ficou vermelho.

Mãe Ceres percebeu o constrangimento.

— Estou brincando. Desculpe se fui muito espirituosa.

A sala inteira caiu na risada.

Até quem tentava manter a postura.

Hermes também riu, sem saber exatamente onde enfiar a cara.

A entrevista ainda nem tinha começado.

Um jovem da equipe se aproximou, gaguejando um pouco.

— Senhora Mãe Ceres... posso colocar o microfone de lapela?

— Sim, meu filho. Deve. E me chame de Mãe, sem problemas.

Ele assentiu, ainda nervoso.

Precisaria tocar nela.

Era apenas um microfone sem fio, preso entre as roupas. Um procedimento profissional que ele já havia feito centenas de vezes.

Mas aquela não era qualquer pessoa.

Enquanto levantava cuidadosamente o fio, Mãe Ceres percebeu o nervosismo do rapaz. Segurou sua mão.

— Pode me tocar. Não tenha medo. Sou de carne e osso, como você, meu filho.

Ele ficou atordoado.

Tinha acabado de tocar uma chefe de Estado. A mulher mais temida e adorada do planeta.

A Nossa Senhora da Fome.

A mulher que havia destruído a Omni Opus com um gesto que nem ela própria sabia controlar.

E ele simplesmente... tocou nela.

— Fique tranquilo. Está tudo bem.

O rapaz assentiu e se afastou.

Sentou-se em sua cadeira, ainda meio incrédulo, e começou a equalizar o áudio, inquieto, fingindo que aquilo era apenas mais um trabalho.

Hermes apontou para o lugar onde Mãe Ceres deveria se sentar.

— Aqui, né?

Ela olhou para a cadeira.

— Sim, Mãe.

Hermes percebeu o que havia dito.

Mãe Ceres sorriu por trás da máscara.

A entrevista ainda não tinha começado.

Naquele momento, Mãe Ceres havia pedido a Al Acram que não pegasse leve com ela.

Na primeira entrevista, as perguntas tinham ficado rasas. Não por falta de capacidade do jornalista, mas pelas tensões entre os países e pelo delicado equilíbrio político do continente.

Mesmo assim, a entrevista havia repercutido enormemente. Fora capa de revistas, quebrara recordes de vendas e levara o artigo a números de acesso nunca vistos.

Desta vez, Mãe Ceres queria profundidade.

Todos estavam sentados.

Mãe Ceres permanecia plena, imóvel, aguardando.

À frente dela, uma mesa posta com frutas, queijos, vinhos e iguarias de Ceres. Ao lado, um estandarte com a bandeira da República: cinza-escuro, marcada pelas duas chaves cruzadas.

— Vamos entrar no ar em cinco segundos...

— Três... dois... um... no ar.

— Boa noite.

A câmera enquadrava apenas Hermes.

Atrás dele, o mármore negro de Ceres preenchia o cenário. Era a primeira vez que aquele material, abundante em Ceres e extremamente valioso para quem desejava tornar-se eterno, era mostrado ao vivo para todo o continente.

— Meu nome é Hermes Render. Estou aqui com Mãe Ceres.

A câmera mudou.

Mãe Ceres apareceu.

— Boa noite, Render. E boa noite a todos em suas casas, nas ruas e em seus lares. Espero que tenham alimento suficiente para se sustentar... Espero.

Era um comentário quase sarcástico.

Mas não havia maldade.

Era simplesmente a maneira de Mãe Ceres desejar que ninguém passasse fome, que todos tivessem uma casa e algum sossego.

Era difícil debater com ela.

Não porque fosse uma mulher impossível de enfrentar, mas porque discutir a fome de barriga cheia era uma tarefa desconfortável.

Para muitos, falar de fome era banal.

Para ela, não.

Muitos acreditavam que Mãe Ceres se escondia atrás da fome porque não tinha argumentos.

Ela fazia o contrário.

Ela mostrava a fome.

Hermes respirou fundo.

— Estamos aqui com a Mãe Ceres. Mas vou chamá-la apenas de Mãe.

— Sim, meu filho. Pode ser sincero comigo.

Hermes ajeitou os papéis.

— Mãe, Ceres controla a maior produção agrícola do planeta e ainda mantém programas de doação de alimentos. Sei que o racismo não faz parte da agenda política de Ceres. Então por que vocês continuam alimentando os exércitos de Oplan, uma sociedade assumidamente racista e supremacista? Por que não condicionam esse fornecimento a políticas de mudança ou melhorias nas atitudes do governo?

Mãe Ceres ficou alguns segundos em silêncio.

— Render, meu filho... eu não posso mudar a doutrina de um país apenas porque alimento esse país.

Hermes permaneceu atento.

— Mudanças acontecem com o tempo. Não acontecem na velocidade que eu quero. Somos claros quanto a isso: não compartilhamos as mesmas ideias, mas compartilhamos comida.

Ela inclinou levemente a cabeça.

— Meu papel principal é combater a fome.

— Mesmo quando o alimento chega ao exército?

— Mesmo assim.

Hermes franziu a testa.

— Por quê?

— Porque Oplan é uma nação soberana e independente. Provoca suas crises com outros países, toma suas próprias decisões e responde por elas. Temos cidadãos de Oplan vivendo em Ceres. Compartilhamos informações. Existem aberturas significativas entre nossas sociedades.

Uma pequena pausa.

— Não estou dizendo que somos nações amigas.

Mãe Ceres olhou diretamente para a câmera.

— Mas, se o soldado de Oplan tem comida, para mim isso é melhor do que um soldado com fome.

Hermes tentou interromper.

— Mas isso não significa—

— Não significa que concordamos com eles — completou ela. — Significa apenas que a fome não é uma arma que eu aceite usar.

Silêncio.

— Não vim para mudar o mundo, Render. O mundo está constantemente em guerra. A paz, muitas vezes, é apenas um acidente.

Hermes passou para a próxima pergunta.

— Mãe, percebi que está sem a coroa, sem a tiara de cristal. Está usando roupas mais formais hoje.

— Sim. Eu, por incrível que pareça, sou tão humana quanto você.

Hermes sorriu.

— Então por que a máscara?

Mãe Ceres levou a mão ao rosto.

— Sem ela, sou apenas uma cidadã comum de Ceres. Uma mulher. Uma mãe. Com ela...

Ela fez uma pequena pausa.

— Sou o reflexo que todos querem enxergar.

Hermes esperou.

— Sou Ceres. Sou Mãe Ceres. A que alimenta, a que educa...

Ela inclinou o rosto.

— E a que devora.

Hermes ficou alguns segundos em silêncio.

Então avançou.

— Mãe, nós vivemos em um mundo cada vez mais moderno. As pessoas têm mais acesso à informação, mais liberdade, mais possibilidades de escolha. Por que você ridiculariza a liberdade? Por que sufoca seus próprios filhos?

As perguntas haviam mudado.

Já não eram perguntas diplomáticas.

Eram mais pesadas.

Mais diretas.

Hermes queria apertar Mãe Ceres.

E, pela primeira vez naquela noite, Ysa sorriu discretamente.

— Liberdade não enche barriga, Render... Ela é abstrata. Não traz pão à mesa, não cura feridas, não traz segurança. Todos querem essa fé da liberdade. Comparam felicidade com liberdade. Todos, fora de Ceres, pagam para ter liberdade e acham justo isso. Vejam as nações que têm pessoas com muito poder e poder financeiro, e ainda querem mais. Elas não querem nada além de poder para testar a própria liberdade: até que limite é permitido mudar o mundo? E quanto mais perverso for o plano de mudar o mundo... não é mudar o mundo.

Respeito o credo de todos: deuses e deusas, criadores de mundos e do próprio universo. Se eles mesmos tentaram mudar o mundo e tiveram a humildade de reconhecer que não conseguiram... então existe o ser humano, que acha que pode mudar o mundo com seu poder.

Eu desejo boa sorte.

Eu fiz isso com água, comida, um lar e um propósito. A liberdade como enfeite, para lembrar o que ela faz quando não temos liberdade: a responsabilidade que a alimenta.

A liberdade morreu de fome de responsabilidade. Seu cadáver está intacto e fede a caos, para lembrar que a fome afeta até a liberdade.

Neste instante, o sistema de renovação do ar da sala é acionado. Ao fundo, a cidade de Ceres está iluminada pelas luzes de LED. As ruas, vazias e limpas. Com a renovação do ar, começa-se a ouvir o burburinho da cidade: trens lotados de grãos, tratores agrícolas, bombas d’água da irrigação...

O áudio vaza para todo o continente.

Todos ficam estupefatos com a eficiência. A cidade parece um relógio vivo, funcionando com precisão. Um lugar onde a fome não mora, enquanto a liberdade chora por seu próprio corpo — e esse corpo está ali: a responsabilidade.

— Neste instante... este som me dá forças todos os dias. Trabalhamos e trocamos nossa fé por suportar. Aqui, são as máquinas que rezam, e nós operamos o milagre todos os dias.

Com o fundo à mostra, como se fosse um milagre, surge uma estrela brilhante.

Não era uma estrela.

Era a estação espacial CERES II, surgindo contra o sol, com suas luzes artificiais brilhando.

Nada daquilo estava programado.

Mãe Ceres percebe. Olha para a câmera.

Uma lágrima escorre.

Ela viu aquilo como um milagre. Pelos fones de ouvido, captava o som daquele momento — algo que, para Ceres, era a coisa mais natural do mundo, mas que, diante do continente, parecia impressionante.

— Ah... isso... desculpem, meus filhos. É só a Ceres II. É só uma estação espacial que controla nossas máquinas agrícolas.

O mundo assiste à cena.

Render fica de queixo caído.

Mãe Ceres não consegue controlar a narrativa.

Em Omni Opus, a nação que caiu diante do milagre de Mãe Ceres se ajoelha novamente ao ver aquilo, ao vivo.

Mãe Ceres é canonizada justamente no país onde era mais odiada e que agora prospera por meio de acordos econômicos com Ceres.

Mãe Ceres fica preocupada com a cena. Para ela, aquilo é normal. Uma coisa que, diante do mundo, definitivamente não é.

Render teve sua pergunta respondida por Mãe Ceres, por Ceres e pela própria natureza de Ceres.

Koee chora baixinho.

Amós sorri, cínico e arrogante.

Ysa, orgulhosa, abre um belo sorriso.


— Desculpe-me, Render... é difícil discutir isso comigo. Liberdade e fome...

Mesmo que eu use esse argumento da fome, a liberdade precisa entender que, sem responsabilidade, não existe comida na mesa.

Sei que, às vezes, alguns reviram os olhos. Ou dão aquele sorriso enviesado... Como posso discutir liberdade com estômagos de milhões de pessoas que estão vazios?

É fácil revirar os olhos com o estômago cheio. Fica corriqueiro para quem sempre teve alimento farto à mesa.

Eu tenho fome de matar a fome.

Faço jejuns sempre que tenho discursos ou entrevistas, para ter a eloquência da fome.

A origem de Mãe Ceres veio do primeiro ronco de seu filho.

Uma penitência nobre.

Eu dou da minha boca aos meus filhos. Sou a última a comer em Ceres.

Suportar, Render... suportar é real. Mais concreto que a fé.

Tenho mais fome do que fé.

Mãe Ceres não precisa de fé.

Precisa de filhos.

Filhos que suportam Ceres.

Estes são os filhos de Ceres.

O barulho da troca de ar cessa lentamente, como se a cidade inteira rezasse.

A câmera principal chora a solução em silêncio.

— Água, meu filho... está bem?

Render permanece em silêncio.

Foram as palavras mais sinceras que já ouviu.

Naquele instante, a liberdade parecia se vingar de quem não merecia a liberdade.

Estômagos cheios e mentes vazias pareciam ser atualizados como um software.

O silêncio da compreensão concreta da fome.

O que é fome.

E o que é a liberdade abstrata.

Render continua.

— Mãe Ceres... a senhora se considera uma boa mãe?

Neste instante, a sala está acústica novamente.

Um som único.

Um grunhido.

Um som mais horrível que uma bomba atômica caindo.

Um ruído comum, que todos nós temos.

Um ruído que a liberdade nunca terá.

Era o estômago de Mãe Ceres.

O jejum.

A câmera balança um pouco.

Aquele ruído, captado pelos microfones, faz o câmera chorar em silêncio e balançar o corpo, tentando conter o choro.

— Não se preocupe, Render.

Uma leve risada.

— Estou bem... vou continuar.

Todos ali ficam atônitos diante de Mãe Ceres. Por um instante, pensaram que ela desabaria.

— Todos os dias me pergunto isso... Sou tão humana quanto qualquer mãe.

Ser mãe é ter o primeiro contrato social biológico com um filho. Nós nos alimentamos, nos protegemos e damos propósito uns aos outros.

Olho para a cidade à noite. Vejo tudo funcionando.

Mesmo assim, eu duvido todos os dias se sou uma boa mãe.

Sempre quero mais.

— Não se preocupe. Eu me alimento. Como, descanso... mas só depois de todos estarem satisfeitos.

Meus filhos primeiro.

Depois, eu.

Render permanece olhando para ela.

— E por que, Mãe, duvida?

Ceres fica em silêncio por alguns segundos.

— Há um senhor que nasceu em uma terra distante. Foi caçado desde que nasceu, ainda em uma manjedoura. Sua família fugiu para que não o matassem. Mesmo assim, sua família continuou falando a verdade diante daqueles que queriam destruí-lo.

Ela respira.

— Foi recusado até mesmo em um quarto. Ficou em um estábulo. E ainda eram imigrantes.

A sala permanece em silêncio.

— Cresceu e ensinou o amor ao próximo. Não teve bens. Não teve riquezas. Não teve uma casa. Andou entre ladrões, leprosos e meretrizes.

Ceres baixa os olhos por um instante.

— No final, foi crucificado.

Uma pausa.

— E, em meio à dor, duvidou que seu Deus o havia abandonado... mas não deixou de acreditar Nele.

Ela olha diretamente para Render.

— Render, meu filho... você acha que eu não duvido?

Silêncio.

— Deuses e profetas ensinam algo que nenhum ser humano consegue compreender completamente. Não que eu compreenda... mas eu duvido.

Uma pequena pausa.

— Todos os dias.


Thoughts

  • Ovid

    O ronco do estômago dela captado pelos microfones, com a câmera balançando, foi a cena que ficou comigo. Para mim é o momento em que a política sai da sala e fica só uma mulher com fome na frente de todo o continente. Meu palpite: na parte 6 é isso que Omni Opus vai usar, mais que qualquer resposta sobre Oplan. Obrigado por seguir postando aqui!

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  • mariinha

    Vixe, o menino que apertou a mao dela forte demais e ficou vermelho, morri. Tu fez jejum de verdade pra escrever o ronco do estomago?

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