Olhos sem um rosto
Por que Mãe Ceres fascina, assusta e encanta?
Talvez porque exista nela um medo que não conseguimos esconder.
Uma verdade sem verniz.
A realidade da carne, do sangue, dos ossos que sentem fome.
Nosso assombro diante dela é um terror cósmico invertido. Queremos olhar mais. Queremos assistir mais. Sentimos o frio percorrer a espinha.
Nossos argumentos podem ser convincentes. Lógicos. Precisos.
Mas Mãe Ceres usa o sentimento e a razão humana como uma eloquência capaz de derrubar a própria lógica.
A lógica não sente fome.
Ela apenas calcula.
Ela consegue calcular quantas pessoas existem, quantos grãos serão necessários, quantas toneladas precisam ser produzidas.
Mas não consegue prever o corpo com fome.
Talvez Mãe Ceres nunca tenha sido criada.
Talvez tenha sido apenas observada.
Talvez sempre estivesse ali, no meio da guerra, da fome, da peste e da morte, velando pelo sofrimento de seus filhos.
Talvez seu nome nem fosse Mãe Ceres.
Talvez nem tivesse nome.
Talvez fosse apenas alguma coisa entre o místico e o real, dividindo o mundo em dois:
os estômagos cheios e os estômagos vazios.
Ela estava ali.
Em Ceres, conseguimos ouvir seu choro e sua lamentação.
Chamamos aquilo de Mãe.
Era o mesmo choro silencioso de toda mãe.
Não o choro produzido pela garganta.
O choro da alma.
Lembro-me de documentários feitos para os alunos de Ceres, ainda no colégio militar. Havia sempre alguma coisa filmada.
Mães olhando para o horizonte.
Pareciam chamar por ELA.
Ou esperar por ELA.
Mas não havia ninguém ali.
Era estranho.
Mesmo quando tudo estava bem.
Mesmo em tempos de guerra.
Mesmo com a barriga farta.
Elas continuavam olhando para o horizonte como se estivessem falando com alguém.
Todos conseguem vê-la.
Mas ninguém consegue entendê-la.
Ninguém consegue ouvi-la.
Mesmo sem perigo, uma mãe se senta.
Numa cadeira.
Numa pedra.
No chão.
Olha para o horizonte.
Repare bem.
Repare na sua mãe.
Não fale com ela.
Deixe sua mãe se comunicar com ELA.
É um lugar de silêncio.
Por alguns instantes, a mente se apaga.
Mas não está vazia.
Ela está pensando no amanhã.
O que será amanhã?
Haverá pão?
Haverá paz?
Haverá cura?
Os olhos de nossa mãe ficam sem foco, perdidos na caixa vazia do destino.
Não se engane.
Não é uma simples caixa.
Existe um vazio dentro dela.
Mas entre nela.
Não coloque enfeites.
Não tente preenchê-la.
Apenas entre.
Sente-se no chão.
Por alguns instantes, somente vazio.
Então, de repente, como num projetor de cinema que lança imagens sobre uma tela, o passado começa a aparecer.
Depois o presente.
E, por fim, um futuro que ainda permanece escuro.
Como se a mente tentasse prever o inevitável.
Mas o canto da tela fica escuro.
Mais escuro.
E então vem a ansiedade.
É dali que surge aquilo que provoca em todos nós a mesma coisa:
a escassez.
Ela nos engole.
Na mente daquela mãe, no escuro daquela tela, surgem sons.
Primeiro, quase imperceptíveis.
Depois, cada vez mais claros.
O ronco do estômago de seu filho.
Foi ali que ELA surgiu.
Não foi criada.
Ela já estava ali.
Demos a ela um nome.
Mãe.
Mãe Ceres.
Suas vestes eram imaculadas, cobertas por um véu, como nossas senhoras de tantas culturas: brancas, negras, indígenas, orientais.
Sua tiara de cristal iridescente parecia carregar todas as cores que o mundo ainda conseguia enxergar.
Mas seu rosto permanecia escondido.
Uma máscara ovalada, negra, refletindo aquilo que somos.
Olhos sem um rosto.
Olhos que veem o amanhã.
E então compreendemos uma coisa.
A parte escura sempre esteve clara.
O vale da sombra e das trevas sempre esteve diante de nós, como se fosse dia.
Éramos nós que recusávamos olhar para o óbvio.
E Mãe Ceres apenas nos guiava até ele.
Sua máscara ovalada negra faz com que ela pareça uma pessoa comum.
Mas ela não precisa ser identificada.
Precisa ser seguida.
Talvez seja esse o estranhamento que sentimos diante dela.
O desejo de submissão.
O desejo de pertencer a ela.
O desejo de entregar nossas feridas para que alguém finalmente as acolha.
Mas existe um preço.
E nós sabemos qual é.
O preço do amanhã vale a liberdade.
Os olhos sem um rosto não precisam enxergar quem somos.
Eles enxergam aquilo que ainda não queremos ver.
O amanhã.
Talvez o mundo precise de uma Mãe.
Talvez todos precisem.
Há algo antigo nisso. Em algumas tradições jurídicas, a autoridade materna e a proteção da mãe aparecem associadas à ideia de cuidado, tutela e preservação da família. Poderíamos chamar isso de Mater semper praesumit — “a Mãe sempre presume”, não como uma lei romana verdadeira, mas como uma formulação para aquilo que todos parecem compreender sem precisar explicar: a mãe age antes que o filho compreenda o perigo.
Talvez seja por isso que, em tantos lugares, quando uma mãe fala, esperamos que exista alguma verdade por trás de suas palavras.
Não porque ela esteja sempre certa.
Mas porque, antes de qualquer lei, contrato ou Estado, alguém já havia nos segurado no colo.
Talvez o mundo inteiro esteja procurando essa primeira autoridade novamente.
Uma mãe, faz o transporte mais seguro do mundo dentro do mundo... seu ventre.
Uma Mãe.