A Mãe Leviatã
Render estava prestes a finalizar suas perguntas.
— Mãe, por que a senhora se veste de branco na maioria das vezes? A máscara, eu sei. Sua bandeira é cinza-escura, neutra, e este local é negro, revestido de mármore. Mas como vivem os cidadãos de Ceres? Como vivem até o fim de suas vidas aqui, digamos... nessa ditadura do bem-estar? Não seria uma armadilha? Uma jaula confortável?
— Render, eu me visto de branco, com meu véu, por um luto invertido. A liberdade morreu, e seu corpo está aqui. Eu o vejo todos os dias.
Ela fez uma breve pausa.
— Sabe o que é a saudade? É limpar o quarto de um ente querido que já morreu. Eu limpo esse quarto todos os dias, mas não durmo nele. A liberdade merece respeito. Infelizmente, depois de morta, queremos elogiá-la, embora tenhamos sido nós mesmos que a sacrificamos em nome do desejo por uma mudança ilusória.
Mãe Ceres ajeitou levemente o véu.
— O mundo não precisa ser salvo, Render. Precisa ser continuado. Devemos deixá-lo o mais próximo possível de como o recebemos. Como um livro, Render. Devolvê-lo à biblioteca da vida e permitir que sobreviva ao caos que somos. Devemos preservar sua capa e seu conteúdo o máximo possível, para que outros possam lê-lo.
Ela inclinou a cabeça.
— Talvez possamos deixar que nossos livros ensinem isso às gerações futuras. Mas o conhecimento nem sempre é suficiente. Existem pessoas instruídas e inteligentes que provocam coisas terríveis neste mundo. Conhecimento não é apenas possuir livros ou espalhá-los. Livros também podem pegar fogo quando são utilizados da maneira errada.
Render permaneceu em silêncio por alguns instantes.
— Todos os cidadãos de Ceres vivem em harmonia. Não digo que não existam conflitos ou que todos se amem. Eles suportam uns aos outros para alcançar o amanhã que o mundo lá fora não consegue garantir. Eu repito isso constantemente: liberdade não enche barriga. Propósito enche barriga.
Sua voz tornou-se mais firme.
— Na velhice, não abandonamos nossos cidadãos. Eles merecem respeito e dignidade até o último suspiro. Comida, uma cama, cuidados médicos, lazer e dignidade. Eu não abandono ninguém. Por isso, não ofereço apenas palavras, Render. Eu mostro.
Ela voltou o rosto para a câmera.
— Podem dizer que vivemos em uma ditadura do bem-estar. Mas me mostre um sistema que funcione, Render. Olhe para o mundo. Temos tantos recursos e o maior dom que a humanidade já produziu: a tecnologia. Temos conhecimento. Mas ainda temos mais escravos do que em séculos passados. E metade deles são mulheres e crianças, Render. Escravas sexuais.
Mãe Ceres fez uma pausa.
— O que é mais fácil? Levantar-se contra quem oprime e escraviza você ou contra alguém que alimenta, educa e oferece um propósito? Render, garanto que você frequentou boas universidades. Mas qual delas lhe provoca mais ansiedade quando pensa em deixar Ceres?
Ela ergueu uma das mãos, num gesto discreto.
— Não se ofenda. É apenas uma pergunta retórica, mas uma retórica mais concreta. Quero que compreenda a realidade, e não um sonho infantil de liberdade. Tão infantil quanto levitar, ficar invisível ou voar usando apenas a força da mente.
Render ficou desconcertado.
Mãe Ceres havia trocado os sentimentos dele por chumbo.
— Obrigado, Mãe Ceres... por permitir que eu compreenda, ainda que parcialmente, a ordem e a lógica de Ceres — disse ele, com uma mistura de respeito e humildade.
Mãe Ceres inclinou levemente a cabeça. A lente negra de sua máscara refletiu Render em silêncio, como se avaliasse algo que ele próprio não conseguia enxergar.
— Você será sempre bem-vindo a Ceres, por intermédio de Amós.
Houve uma breve pausa. Apenas o vento que passava pelas janelas do alto da Torre interrompia o silêncio.
Então, ela continuou, com a voz firme:
— Explicar a emoção de ser da Mãe Ceres a um cidadão de Ceres é totalmente desnecessário.
Ela olhou diretamente para Hermes Render.
— Mas, para quem não é da Mãe Ceres... é simplesmente impossível.