Uma bela refeição. Todos satisfeitos.
Dark está calmo, envolto em uma paz assustadora. Ao seu lado, Dru fala sem parar sobre as novas descobertas de seus experimentos. Ela está empolgada, gesticulando enquanto mostra seu caderno verde.
Dark, porém, não parece prestar atenção. Seus olhos estão concentrados em uma mosca que voa sobre a mesa, acompanhando cada movimento do inseto como se o resto do refeitório tivesse desaparecido.
— Dark! Você está me escutando?
— Sim. Seus experimentos...
Dru para por um instante e o observa.
— Você me assusta, sabia?
— Eu sei...
Do outro lado do refeitório, Theo e Daime brincam com tampas de garrafas de água. Depois da refeição, improvisaram um jogo de futebol sobre a mesa. Com os dedos, fazem os gols e usam petelecos para movimentar as tampinhas.
Theo marca um gol.
Daime dá um peteleco na tampa, mas Theo nem parece interessado no resultado. Vira-se para Ceres, sentada sozinha a algumas mesas de distância, e pisca para ela.
— Se liga, cara! Comemora, porque é gol!
— Anda logo, para de teatro...
— Ummm... nervosinho, hein?
Theo olha novamente para Ceres.
Ela acompanha a cena com o desdém de sempre. Para ela, aquela brincadeira é ridícula. Quando Theo pisca em sua direção, Ceres se levanta abruptamente e deixa o refeitório, visivelmente revoltada.
Theo abre um sorriso.
— GOOOOOOL!
Daime ergue os braços.
— Essa mulher me ama!
— Cara, eu fiz o gol e você está paquerando a Ceres? E o nosso jogo?
— Cala a boca, Daime.
— Ceres pode até ter alguma coisa com você, mas ela não ama ninguém. Está sempre com aquele olhão. Qualquer um que chega perto parece que vai ser revistado. Ela quebrou as costelas de um amigo meu, sabia? E aquele imbecil humano, com cara de cavalo, que você chama de chefe... você é um ser boçal.
Theo começa a rir.
— Você mudou, hein? Está mais solto... Não está nem aí para as regras. Cabelos grandes, essa mecha branca... Engraçado, porque Ceres tem uma igual à sua. Só que invertida.
Daime dá de ombros.
— Ela busca reconhecimento e pertencimento.
— Mais ainda? Já tem o nome da Mãe. O que ela quer mais?
Theo o encara por um segundo.
— Me matar?
Os dois caem na risada.
— Bem, até eu quero te matar, cara... Mas tenho preguiça demais.
Daime faz uma pausa, depois pergunta:
— E você e a Ana? Estão bem?
— Demais. Tudo de boa. Se não fosse ela, eu namoraria você!
— Que nojo, cara! Vai tomar no cu!
— Não faz isso, não. Eu me apaixono fácil, mechudo. Bora ser um par um do outro? Dividir a cama no dormitório?
— Eu, hein! Sai fora!
Theo se levanta rindo e começa a sair.
Daime acompanha sua partida com os olhos. Então, de repente, se ajoelha no chão e grita, chamando a atenção de praticamente todo o refeitório.
— THEO! VOCÊ ME COME E NÃO ME PAGOU! NÃO VÁ, THEO!
Theo continua andando devagar, rindo. Não olha para trás. Apenas balança a cabeça de um lado para o outro, incapaz de conter o riso.
Daime permanece ajoelhado, clamando por Theo, até que uma pescotapa bem dada estala em sua nuca. O barulho ecoa pelo refeitório.
É Ana.
— Tá maluco?!
Daime leva a mão à nuca.
— Que isso, mulher? Eu estou apaixonado, ué!
— Mas você é um imbecil, hein...
Ana dá outro tapa, ainda mais barulhento.
— Pô, Ana, doeu!
Daime se senta na cadeira, fazendo uma careta.
— Acho é pouco, seu cretino.
De repente, Daime a surpreende. Agarra Ana por trás e a ergue no colo, esfregando o queixo nas costas dela.
— Para... para!
— Eu sei que você me ama...
— Sabe nada! — responde ela, emburrada.
Daime finalmente a solta.
— Senta aí, nervosa. É por causa do dia da briga pela liderança?
Silêncio.
A brincadeira perde o sentido.
Era exatamente isso que Daime havia tocado.
A disputa pela liderança do colégio. Gris, Kan, Theo, Ceres e Ana. Todos haviam se enfrentado. Cada um com seus motivos, suas feridas e sua própria ideia do que significava liderar.
Daime se senta ao lado de Ana.
Os dois permanecem em silêncio.
Por alguns segundos, olham para frente. Depois, um para o outro.
Sérios.
Ana desvia os olhos. Daime mantém a expressão rígida, como se estivesse tentando parecer absolutamente indiferente.
Um músculo treme no canto da boca de Ana.
Daime percebe.
Ela percebe que ele percebeu.
Os dois continuam sérios, lutando contra o riso.
Quanto mais Daime se esforça para não rir, mais difícil fica.
Ana aperta os lábios.
Daime respira fundo.
Um silêncio quase solene se instala entre os dois.
Até que o canto da boca de Ana volta a tremer.
E Daime perde a batalha.
Na mesa de Dru e Dark, havia algo impressionante: Dru era a única pessoa que conversava com Dark. Todos tinham pavor dele e conheciam sua natureza, algo que causava arrepios. Dru sabia disso, mas seu desespero por atenção em Ceres era maior do que o medo da solidão.
— Dark...
Dark pega uma mosca, coloca-a sobre a mesa e começa a desmembrá-la. Permanece sério, examinando cada parte como se fosse um brinquedo, sem demonstrar qualquer preocupação com Dru.
Ela arregala os olhos, mas tenta abstrair.
— Dark! Me escuta... Quero ir aos trilhos. Vem comigo.
Dark, com sua habitual apatia, apenas dá um peteleco na mosca desmembrada, que ainda se mexia, e segue Dru.
O refeitório não presta atenção neles. Há muito burburinho, cada um envolvido em seu próprio clima após a refeição. Ao longe, ouve-se o som da aproximação do trem.
Dark e Dru seguem até a estação atrás do colégio. Dru procurava mantimentos que caíam durante o descarregamento. Sempre havia alguma surpresa. Dark, por sua vez, observava Dru com a curiosidade de um rato de laboratório, mas sem más intenções. Era apenas seu tédio sendo substituído pela curiosidade.
Ele parecia estar sendo guiado por sons e comandos, como se estivesse fora do ar.
Quando chegam aos trilhos, o trem passa e começa a parar lentamente. Era um trem blindado de aproximadamente um quilômetro de comprimento, completamente carregado.
Escondidos, observam o descarregamento. Materiais de pesquisa para laboratórios de ciência, marcenaria, pintura, alimentos... Algumas caixas caem dos vagões. Sempre havia sobras.
Os descarregadores recolhem os materiais e levam tudo para dentro do colégio. Dru observa com os olhos brilhando, atenta ao que havia caído nos trilhos.
Dark percebe o entusiasmo dela.
Quando os trabalhadores finalmente saem, os dois se aproximam do trem blindado. Dru está ansiosa para descobrir o que encontraria entre os mantimentos caídos.
Mas algo chama sua atenção.
Preso à lateral do trem havia um objeto coberto por couro, repleto de cinzas da mesma cor do vagão. Ainda assim, havia algo diferente nele. Uma diferença sutil, quase imperceptível.
Dark pega a caixa que havia caído. Era óbvio que faria isso.
Dru, porém, se aproxima e retira a bolsa presa ao trem.
Ambos saem em silêncio e se escondem pela estação. Levaria mais de quarenta minutos até que pudessem deixar aquele lugar sem serem vistos.
A cena era estranha: Dark carregava a caixa, enquanto Dru contemplava a bolsa diferente. Era quadrada, retangular, com uma alça e uma fivela.
Eles se escondem atrás da estação, onde ninguém os incomodaria.
Permanecem debaixo de uma árvore frutífera, sobre a grama fresca. Em Ceres, as árvores não existiam apenas para enfeitar o ambiente. Tinham uma função. Seus frutos pertenciam a todos os que viviam ali.
Na sombra, Dru colhe algumas amoras vermelhas e as leva à boca, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
— Que interessante...
Dark permanece em silêncio.
Ele coloca a caixa sobre a grama.
Ambos se sentam à sombra da árvore. Dru abre a bolsa enquanto come as amoras.
— Nossa, um livro... Grande coisa.
Ela retira um livro grande e surrado. A capa parecia ter décadas de existência, marcada por cinzas dos trilhos e pelo desgaste do tempo. As páginas estavam amareladas, e havia muitas anotações manuscritas.
Dru vira o livro e lê a contracapa.
Caderno de Perguntas
Para aquele que abre o Caderno de Perguntas: deixe aqui suas respostas.
Um momento de liberdade em Ceres. Deixe seu epitáfio e seu testemunho sem que ninguém saiba seu nome.
As perguntas são feitas e se aprofundam de acordo com aquilo que você suporta.