Vixe, ela dizendo que limpa o quarto da liberdade todo dia e nao dorme nele, isso me deu um aperto. tu ja sabia desde o comeco que ia terminar com o Render agradecendo?
Eloquência da Fome - Parte 7 final
Render estava prestes a finalizar suas perguntas.
Em séries
In groups
Pensamento
Vixe, ela dizendo que limpa o quarto da liberdade todo dia e nao dorme nele, isso me deu um aperto. tu ja sabia desde o comeco que ia terminar com o Render agradecendo?
Conteúdo da publicação
A Mãe Leviatã
Render estava prestes a finalizar suas perguntas.
— Mãe, por que a senhora se veste de branco na maioria das vezes? A máscara, eu sei. Sua bandeira é cinza-escura, neutra, e este local é negro, revestido de mármore. Mas como vivem os cidadãos de Ceres? Como vivem até o fim de suas vidas aqui, digamos... nessa ditadura do bem-estar? Não seria uma armadilha? Uma jaula confortável?
— Render, eu me visto de branco, com meu véu, por um luto invertido. A liberdade morreu, e seu corpo está aqui. Eu o vejo todos os dias.
Ela fez uma breve pausa.
— Sabe o que é a saudade? É limpar o quarto de um ente querido que já morreu. Eu limpo esse quarto todos os dias, mas não durmo nele. A liberdade merece respeito. Infelizmente, depois de morta, queremos elogiá-la, embora tenhamos sido nós mesmos que a sacrificamos em nome do desejo por uma mudança ilusória.
Mãe Ceres ajeitou levemente o véu.
— O mundo não precisa ser salvo, Render. Precisa ser continuado. Devemos deixá-lo o mais próximo possível de como o recebemos. Como um livro, Render. Devolvê-lo à biblioteca da vida e permitir que sobreviva ao caos que somos. Devemos preservar sua capa e seu conteúdo o máximo possível, para que outros possam lê-lo.
Ela inclinou a cabeça.
— Talvez possamos deixar que nossos livros ensinem isso às gerações futuras. Mas o conhecimento nem sempre é suficiente. Existem pessoas instruídas e inteligentes que provocam coisas terríveis neste mundo. Conhecimento não é apenas possuir livros ou espalhá-los. Livros também podem pegar fogo quando são utilizados da maneira errada.
Render permaneceu em silêncio por alguns instantes.
— Todos os cidadãos de Ceres vivem em harmonia. Não digo que não existam conflitos ou que todos se amem. Eles suportam uns aos outros para alcançar o amanhã que o mundo lá fora não consegue garantir. Eu repito isso constantemente: liberdade não enche barriga. Propósito enche barriga.
Sua voz tornou-se mais firme.
— Na velhice, não abandonamos nossos cidadãos. Eles merecem respeito e dignidade até o último suspiro. Comida, uma cama, cuidados médicos, lazer e dignidade. Eu não abandono ninguém. Por isso, não ofereço apenas palavras, Render. Eu mostro.
Ela voltou o rosto para a câmera.
— Podem dizer que vivemos em uma ditadura do bem-estar. Mas me mostre um sistema que funcione, Render. Olhe para o mundo. Temos tantos recursos e o maior dom que a humanidade já produziu: a tecnologia. Temos conhecimento. Mas ainda temos mais escravos do que em séculos passados. E metade deles são mulheres e crianças, Render. Escravas sexuais.
Mãe Ceres fez uma pausa.
— O que é mais fácil? Levantar-se contra quem oprime e escraviza você ou contra alguém que alimenta, educa e oferece um propósito? Render, garanto que você frequentou boas universidades. Mas qual delas lhe provoca mais ansiedade quando pensa em deixar Ceres?
Ela ergueu uma das mãos, num gesto discreto.
— Não se ofenda. É apenas uma pergunta retórica, mas uma retórica mais concreta. Quero que compreenda a realidade, e não um sonho infantil de liberdade. Tão infantil quanto levitar, ficar invisível ou voar usando apenas a força da mente.
Render ficou desconcertado.
Mãe Ceres havia trocado os sentimentos dele por chumbo.
— Obrigado, Mãe Ceres... por permitir que eu compreenda, ainda que parcialmente, a ordem e a lógica de Ceres — disse ele, com uma mistura de respeito e humildade.
Mãe Ceres inclinou levemente a cabeça. A lente negra de sua máscara refletiu Render em silêncio, como se avaliasse algo que ele próprio não conseguia enxergar.
— Você será sempre bem-vindo a Ceres, por intermédio de Amós.
Houve uma breve pausa. Apenas o vento que passava pelas janelas do alto da Torre interrompia o silêncio.
Então, ela continuou, com a voz firme:
— Explicar a emoção de ser da Mãe Ceres a um cidadão de Ceres é totalmente desnecessário.
Ela olhou diretamente para Hermes Render.
— Mas, para quem não é da Mãe Ceres... é simplesmente impossível.
Thoughts
-
PermalinkA saudade descrita como limpar o quarto de quem morreu e não dormir nele ficou comigo o resto do dia.
-
PermalinkFechou assim, ó.
-
PermalinkNão é todo dia que eu acompanho esse tipo de papo, mas a ideia de devolver o mundo pra biblioteca da vida igual livro caiu certinho aqui. Só que livro devolvido todo gasto ninguém aceita de volta, e ela tá falando justamente de aceitar.
-
PermalinkÓ, ela ganha a discussão trocando liberdade por barriga cheia e perde a pessoa na mesma frase. Ganhar assim é fácil demais.
-
PermalinkA ideia de devolver o mundo à biblioteca da vida como quem devolve um livro me fez pensar nos livros de biblioteca que voltam sublinhados por dez pessoas diferentes. Aposto que em Ceres ninguém pode sublinhar nada. Fechar a parte 7 com uma frase que deixa o leitor de fora foi a escolha mais dura do capítulo.
-
PermalinkVixe, ela dizendo que limpa o quarto da liberdade todo dia e nao dorme nele, isso me deu um aperto. tu ja sabia desde o comeco que ia terminar com o Render agradecendo?
Related posts
-
Pertencimento - Parte 1
No ginásio coberto, a piscina fria parecia esquentar com a batalha de quem pertencia mais.
-
O Pálido Ponto Cinza - Major Tomas - Parte 1
Estou há quase seis meses aqui, estudando sementes que crescem sob raios ultravioleta. Muitos pensam que vim para a estação espacial Ceres 2 para forjar uma nova arma, um vírus ou alguma tecnologia…
-
Eloquência da Fome - Parte 5
Neste momento, o verniz rasga.
-
Eloquência da Fome - Parte 6
Era a última sequência de perguntas com Mãe Ceres.
-
O Pálido Ponto Cinza - Major Tomas - Parte 4
Sofremos espionagem constantemente.
-
O Pálido Ponto Cinza - Major Tomas - Parte 5
Por que Mãe Ceres fascina, assusta e encanta?
-
Eloquencia da Fome - Parte 3
— Liberdade não enche barriga, Render... Ela é abstrata. Não traz pão à mesa, não cura feridas, não traz segurança. Todos querem essa fé da liberdade. Comparam felicidade com liberdade. Todos, fora…
-
O Caderno de Perguntas - Parte 1
Uma bela refeição. Todos satisfeitos.