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Rock City - Parte 3

aleroz
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Um recado no WhatsApp, depois de um telefonema técnico. A mensagem dizia:

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mariinha

Menino, a resposta do lider dos x-men na entrevista, eu ia botar isso na minha tambem se tivesse coragem kkk

Menino, a resposta do lider dos x-men na entrevista, eu ia botar isso na minha tambem se tivesse coragem kkk

Conteúdo da publicação

Um recado no WhatsApp, depois de um telefonema técnico.
A mensagem dizia:

“Estúdio Pearl reservado! Aparece lá depois. Brejas!”

Gojo sorri.
Hoje tem ensaio das seis bandas que toca.

Apesar do talento, não espera fama. Dinheiro… sempre bem-vindo.
Se recrimina por sonhar alto, mas sonha mesmo assim.

Lembra da última entrevista numa agência de publicidade — onde Lucas trabalha hoje.
Na porta de entrada, sala de visitas, entregaram-lhe um papel.
Antes de falar com o RH. Gojo odeia RH. Os fofoqueiros das empresas.
Sabem da vida de todos.

Lembra da última conversa com alguém do RH:

— Se você tivesse um aumento de quinze reais no salário, ficaria feliz?
— Sim. Muito feliz. Pela participação, por ser efetivado. Sinal de que a empresa me vê.

Gojo ficou sério.
Parecia ouvir uma máquina respondendo.

No papel da entrevista, a pergunta maldita:

“Como você se imagina na empresa daqui a cinco anos?”

As veias da cabeça e do pescoço saltam só de lembrar.
Respondeu com letras tortas, de propósito:

“Quero ser líder dos X-Men.”

Que ser humano quer o pior de si?
Nem um mendigo quer o pior dele.

Lucas passou no processo. Gojo, não.
Mudou de área.

Foi para TI numa empresa de balanço fiscal.
Tinha aptidão para lógica de programação.
Organizou processos, montou arquitetura de informação.

Bom salário.
Não vê ninguém.

Só telefone, recados de backup, assistência técnica, correção de bugs.
Home office quase sempre.
Recebe bem. Assim como Lucas.

Mas Lucas lida com gente.
Sabe se vender.

Gojo não.
Visual sem verniz.

15h30.
Banho.
Se ajeita. Camisa preta cavada. Cabelo até os ombros.
Confere as tatuagens fechando os dois braços.
Odeia sol. Gosta de praia — mas só na sombra.

16h15.
Elevador. Portaria. Rua.

Sai pela Rua das Palmeiras, lado esquerdo.
Direção Estação Marechal Deodoro.

Olha a praça: mendigos, playground ocupado, roupas secando ao sol.
Atravessa a Avenida Angélica.
Bancas de revista. Motoboy atrasado.

Gente indo e vindo.
Telefone público coberto de anúncios de amor barato. Até em telefone de cartão.

“Será que ainda existem cartões telefônicos?”

Desce as escadas da estação.
Passa a catraca.

Placa grande:

“Deixe a esquerda livre.”

Desce a escada rolante olhando para frente.
Um quadro de Gontran na parede.

Plataforma sentido Barra Funda–Itaquera.
Quase horário de pico.

Todos entram como sardinhas.
Cidade de aço. Engolidora de sonhos e delírios.
O preço é a saúde mental.

— Próxima estação… The next station… Santa Cecília.

Um homem tira um violino.
Abre o case no chão para as moedas.

Gojo observa.

O violinista toca “Por una Cabeza”.
Execução perfeita. Ritmo. Alma.

Alguns emburrados.
Outros sorrindo.
Alguns filmando com o celular.

Quase escorre uma lágrima.
A alma transpira naquela minhoca de metal.

Gojo deixa algumas moedas no case.

A música cessa.

— Estação… Station… Santa Cecília.

Coincidência.
Padroeira dos músicos.

Gojo carrega uma mochila preta simples.
Moletom preto da banda Tool.
Baquetas.
Garrafa d’água.
Guarda-chuva.
Capa de chuva.

Esquece o celular de propósito.
Ele odeia celular.

Não era uma expedição.
Era São Paulo.

Frio de 13 °C pela manhã.
35 °C à tarde.
16 °C às 18 horas.

Todas as estações do ano em um único dia.
Em São Paulo, você é batizado nos quatro elementos.

Gojo pensa na própria vida.
Pensa em quando fez faculdade de publicidade.
Criação, junto com Lucas, que sonha com Gran Prix, Leão de Ouro de Cannes.

O Leão de Ouro também foi o sonho de Gojo.
Mas em algum ponto ele perdeu a anestesia.
O Leão emagreceu, virou chumbo.

Para Lucas, não.
A cada dia mais dourado.

Gojo sabe que a vida cobra esse tipo de sonho.
E sabe também que esse sonho não depende só do Lucas.
Depende dos outros.
Dos caçadores.

Sai do pensamento quando percebe que já está em frente à Pearl Instrumentos Musicais e Estúdio.
Teodoro Sampaio, estação Clínicas.

No caminho, passou pelos hospitais.
Doentes que veem os sadios nas ruas.
Veem na cabeça deles a coroa da saúde.
Mendigos deitados no chão, sem problemas nas costas.
Cemitérios e necrotérios dos silenciados.

Entra na loja.

Vê um sujeito careca e barbudo. Não era brasileiro.
Parente do Vicente. Franceses que vieram ao Brasil nos anos 80.
Abriram a loja ali. Cresceram. Evoluíram.

Prédio único, fachada grande.
Loja ampla, pé-direito alto.
No segundo andar, estúdios de gravação — amadores e profissionais.
No terceiro, onde moram.

— Opa, fala meu querido! Tô indo pro estúdio, posso subir?
— Gojo, você tá quase morando aqui… quer as chaves.
— Meu sonho, Lui.
— Vou avisar a Pearl pra abrir a porta de segurança.
— Ué, não vejo mais o Vicente.
— Viaja muito… sempre.

Gojo sente o ar da mentira.
Mas deixa pra lá.

Sobe.
Câmera. Liberação. Elevador.

Corredor silencioso.
Paredes forradas em bordo, madeira até a metade.
Quadros e pôsteres de bandas de rock. Algumas nasceram ali.

Estúdio sete.

Abre a porta. Vê o Brejas.

Careca, barbudo, vinte e cinco anos, algumas tatuagens, já meio calvo. Óculos escuros. Bom humor.

— Fala, infeliz! Estamos quase lá. Sessão começa às 17h50.
— Beleza, meu querido e infeliz inimigo!

Risadas.

Gojo ajeita a bateria.
Pedais. Banco. Altura dos pratos.

— Gojo, bate devagar nessa batera. Ninguém é surdo.
— Como assim? Você que fica com essas guitarras e baixo no talo.

Se encaram.
Riem.

Gojo olha pro lado.

Atrás da vitrine: Pearl.

Ela ri, olhando pra ele.
Loira, olhos verdes grandes. Pouca maquiagem.
Camisa xadrez. Camiseta preta da Halestorm por baixo.

Gojo devolve o sorriso. Arqueia a sobrancelha.

Brejas fala algo enquanto afina a guitarra:

— Pearl, aumenta a guita!

Gojo e Pearl reviram os olhos ao mesmo tempo.
Não é volume.
É posição.

Jack mal colocado.

Gojo observa.
Pearl ajusta a saída na mesa de som, atrás da cabine.

— Pô, Pearl, ajeita meu baixo, minha querida!

Gojo ri.
Olha pra Pearl com um sorriso plano, como quem diz: paciência.

Ela responde igual.
Sorriso de canto. Irônico.
Acena a cabeça devagar.

Concordam.

Nunca conversaram.
Só gestos.

Antes, quem cuidava era o pai dela. Vicente.

Brejas, meio irritado:

— Pearl, ajeita minha guita!

Ela aumenta.
Ruído.

Ele se assusta.

Gojo ri alto.

— Toma! Acho é pouco!
— Ajeita seu jack, tá com ruído.

Brejas ajeita.

— Ih… é mesmo. Foi mal, Pearl.

Gojo e Pearl se olham.
Tentam segurar o riso.

Não conseguem.

Brejas ri também.

Entre sequências de viradas, Gojo olha para Pearl.
Queria que abaixasse o som do baixo.
Pearl entende.

Ele olha para o baixista, marca o tempo com a bateria.
Depois encara Brejas, pede que olhe pra ele.
Sincronia.

Gojo bate forte.
Brejas entende o recado.

Virada.
A guitarra entra no tempo da bateria, encaixa.

Pearl percebe.
A execução é muito boa — mas diferente.
Ela já ouviu muitos bateristas.
Aquilo não era só bateria.
Era o Gojo.

Baixo e guitarra respiram certo.
Gojo alinha a harmonia entre eles.
Orgânico. Fluido. Mesmo com ruídos distorcidos.

A bateria pede tensão.
Ele entrega.

Por quase uma hora é assim.
Flui. Diverte. Puxa.
Virtuoso sem exibicionismo.

Todos satisfeitos.

Pearl fala, no microfone da cabine:
— E aí, galerinha do mal… quinze minutos extras. Encerrando a sessão!

Gojo olha pra ela.
Pearl devolve o olhar.

Brejas finaliza o take.

— Que isso, mano… tu é foda.
— Curto teu jeito funkeado.
— O tempo voou.
— Segue o ritmo.
— Sem pressa.

Gojo relaxa.
Baquetas ainda nas mãos.
Estica os braços pra cima, torce os pulsos.

Os outros guardam instrumentos.
Menos Gojo — a bateria é do estúdio.

Ele abre a mochila, termina a água da garrafa.
Pega o moletom da banda favorita.

Brejas comenta, fechando o case da guitarra:
— Gojo, talvez role outra sessão segunda-feira.
— Vamos ver o horário.
— Nada sério. Só ensaio.
— Pelo jeito o trampo tá rendendo, hein?
— Startup cresceu.

— Fico feliz pelo teu sucesso.
— Tocar é hobby. Desestressa.
— Bora uma breja ali no barzinho?
— Sextou, meu querido!

Pearl ouve tudo, da cabine.

Ambos saem do estúdio.
Todos fazem um sinal para Pearl.

Do lado de fora da loja, um bar colado na parede.

O garçom chega.

— O que vão querer, meus convocados?
— Desce aquela que parece canela de pedreiro! — diz Brejas.

Gojo emenda:
— Brejas pedindo breja.

— Você é o único que faz essa piada comigo, sabia?
— É sério?
— Óbvio que não, infeliz!

Os dois riem.

O garçom volta com as cervejas.
— Mas tá frio, hein… tomar breja gelada?

— Cala a boca, não seja insensível e beba.

O garçom enche os copos.
Eles brindam.
Goles rápidos, de sede.

— Tá frio hein… — insiste Brejas.

Gojo dá um gole e quase cospe de rir.

Ele ri alto e olha para o fundo do bar.
Uma mesa de sinuca.
Bar-pizzaria com sinuca.
Gente jogando.
A TV ligada no jornal, quase entrando a novela.
Estufa de salgados, tabela de preços.
Tudo em cerâmica vermelha, chão industrial.

— E o baixista, onde foi?
— Saiu correndo. Filho pequeno em casa… o cara é gente boa.
— Ele toca bem.
— Como vai o Lucas?
— Persistindo no sonho dele, né.
— Caçador de Leões! Grande Luquita! E você?
— Desisti, cara. Escolhi estabilidade. Viver. Não quero acabar como meu tio.

Brejas para.
— Aquele que se matou?

— Ele mesmo.
— Pô… tinha uma vibe boa. Lamento.
— Tinha uma profissão boa. Veio pra Sampa nos anos 90.

Gojo dá um gole seco.

— Viveu 14 anos aqui. A maior parte do salário foi pro aluguel.

Brejas limpa a barba suja de cerveja.
— Tô ligado… e aí?

— Chegou aos 43, voltou pra Minas.
— Sem trampo?
— Sem trampo. Muita experiência. Tentou se realocar.
O mercado engoliu ele.
Quem vai pagar alguém com experiência demais?
Quem paga por isso?

Brejas escuta em silêncio.

— Não teve família, filhos…
Como alguém constrói isso sem recurso?
Virou invisível.
Virou uma barata, tipo Kafka.
Sem utilidade.
Invisível ao sistema.

Gojo pausa.

— Se matou.

Brejas solta o ar.
— Pesadão…

— É pesado. Por isso desisti.
O mundo é de quem suporta.
Não de quem merece.

Silêncio curto.

— Bora rachar uma batata frita?
— Manda ver.

Brejas assovia com os lábios, chama o garçom.
— Desce umas batatas aí, meu consagrado!

Gojo dá um gole.
Brejas coça a careca.

Um homem sai da cozinha ajeitando uma pizza. Fala algo, não dá pra ouvir. Um cliente reclama: quer ver a novela.
Brejas responde qualquer coisa.

— Luquita é fera.
— É sim. Determinado pra caralho. Torço por ele.
— Quanto tempo vocês se conhecem?
— Ele colocou um anúncio no Facebook. Queria dividir aluguel numa república.
— E aí?
— Falei com ele, ele falou comigo. Nos demos bem. Recém-formados.

Um carroceiro passa subindo a Teodoro Sampaio. Crianças sentadas em cima do papelão, rindo. Um cachorro caramelo pequeno corre ao lado.
Gojo e Brejas olham.

— Fomos pro apê da Rua das Palmeiras.
— Nó… apê animal.
— Cento e cinquenta metros quadrados. Pegamos uns móveis da rua.

Brejas ri depois de um gole.
— E aí, tiraram a febre do rato?
— Claro. Higienizamos tudo. Geladeira, fogão, máquina de lavar… tudo de pregão.
— Nem parece usado.
— Eu e o Lucas damos um trato.

Gojo continua.
— Puff, rede, cadeira suspensa… pôsteres da Galeria do Rock. A sala virou estúdio.
— Um Santa Cecília lifestyle.
— Marketing imobiliário puro. Mas funciona.

O atendente entrega uma caixa de pizza para Pearl. Ela pega e sai.
Gojo e Brejas acenam com a cabeça.

— Faz tempo que não vejo o Vicente.
— A filha dele que tá cuidando do estúdio agora.
— De boa. A mina é fera. Jeitão reservado do pai.
— O pai fez sucesso na França, largou tudo e veio pra cá. Ou sumiu.
— Deve estar na França, né. Francês.
— Não. Angolano. Não viu o sotaque? A cor da pele? Óbvio que é francês.

Brejas ri. As batatas chegam, com molhos.

— Desce mais uma trincando pra nós! Perfavore! — sotaque italiano macarrônico.

Gojo só observa.

— Amanhã é sábado…
Brejas corta.
— E depois de amanhã é domingo!
— Sim. E ontem foi quinta!

Silêncio. Depois risos.

— Amanhã à tarde vou reunir a galera lá no apê. Se pá, cola.
— Se pá, vou. Tenho que resolver umas tretas da startup.
— Orgulhoso de você, cara.
— Estão querendo comprar. Vou vender.
— Ué, por quê?
— É o momento. Antes sucesso era manter. Hoje é ser comprado.

Gojo dá um gole.
— Sem glamour. Minha saúde foi pro espaço. Acha que fiquei careca por quê?
— Vou cagar horrores depois dessas batatas.
— Dinheiro custa tudo. Saúde também.
— Homem que sabe o que quer e tem grana não quer guerra com ninguém.

Eles olham para a parede do bar.
Em letras tortas, escrito à mão:

ODEIO SEU ÓDIO.


Thoughts

  • cadernoPreto

    ODEIO SEU ÓDIO em letra torta na parede do bar. Levo essa comigo hoje.

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  • brunocosta

    Vim para a cidade aos vinte e um atrás de trabalho e ainda cá estou, por isso o tio dos catorze anos a pagar renda ficou-me a rondar a tarde toda. O Gojo diz que desistiu, mas foi ao ensaio na mesma.

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  • Simao

    O Vicente viaja muito, sempre, e o Gojo percebe a mentira e deixa passar. Isto começou a cheirar-me a desaparecimento e é isso que me prende. Epá, o que aconteceu ao Vicente?

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  • Rui_Salgueiro

    O baixista foi-se embora a correr por causa do miúdo e ninguém ligou. Esse ainda vai contar para alguma coisa mais à frente?

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  • Ovid

    O violinista tocando Por una Cabeza e logo depois a estação Santa Cecília, padroeira dos músicos, me fez pensar em quantas vezes a cidade dá uma piscadela dessas e a gente passa direto olhando o celular. Aposto que o Gojo só viu porque esqueceu o telefone de propósito. Já vou pra parte 4, @aleroz!

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  • mariinha

    Menino, a resposta do lider dos x-men na entrevista, eu ia botar isso na minha tambem se tivesse coragem kkk

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