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Será que os políticos DEVERIAM ganhar mais?

spinningReagan
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As pessoas gostam da ideia de política barata porque ela parece moralmente limpa. Se os políticos são mal pagos, raciocina-se, é porque devem estar servindo por motivos nobres. Se o salário é modesto, a corrupção deve ter menos espaço para crescer. É uma fantasia atraente e um péssimo jeito de projetar um Estado. Na verdade, é um jeito elitista, e leva a um governo dos ricos, que podem se dar a esse luxo.

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As pessoas gostam da ideia de política barata porque ela parece moralmente limpa. Se os políticos são mal pagos, raciocina-se, é porque devem estar servindo por motivos nobres. Se o salário é modesto, a corrupção deve ter menos espaço para crescer. É uma fantasia atraente e um péssimo jeito de projetar um Estado. Na verdade, é um jeito elitista, e leva a um governo dos ricos, que podem se dar a esse luxo.

Um cargo mal remunerado não produz pureza moral, mas filtra as classes mais baixas para fora da disputa por cargos. O primeiro filtro é a classe. A vida pública fica mais fácil para os ricos, os bem conectados por conta própria, os aposentados, os filhinhos de fundo de herança e as pessoas cujas famílias conseguem absorver anos de remuneração medíocre. Todo mundo mais tem que se fazer primeiro uma pergunta bem mais feia: eu posso me dar ao luxo de servir? Uma democracia que paga mal muitas vezes só estreita quem pode participar de forma plausível.

O segundo filtro é a pressão por monetização. O dinheiro não sai da política porque o salário oficial é baixo. Ele entra pelas portas dos fundos. Futuros empregos no lobby. Assentos em conselhos. Contratos com a mídia. Dependência de doadores. Consultoria depois do mandato. Um legislador que passa anos se tornando útil às indústrias que fiscaliza e depois entra num lucrativo cargo de assessoria pós-mandato não é um acidente moral aleatório. O sistema já ensinou a ele onde mora a remuneração de verdade. Em algum momento você tem que pagar o financiamento da casa. Está rolando certa indignação por causa do Mike Johnson dizer que os congressistas deveriam poder fazer insider trading:

Olha, o cara é horrível. É uma doninha fraca e patética apostando tudo no Trump. Mas o ponto que ele levanta é exatamente o sintoma de que estou falando. TODOS nós queremos ter nossa casa, viagens ao exterior, boa saúde, ótima educação para os filhos... Os políticos também. Este não é um post para ter empatia com a corrupção, e sim para mostrar como um salário maior dá a pessoas de renda mais baixa a chance de entrar e fazer um ótimo trabalho, ao mesmo tempo em que cuidam de si mesmas no processo sem precisar praticar corrupção escancarada

É por isso que o orgulho moral em torno de pagar mal os políticos costuma ser tão invertido. O Estado se parabeniza pela austeridade enquanto preserva o acesso aristocrático e incentiva formas "respeitáveis" de corrupção, como o insider trading. O político que pode bancar um salário baixo porque já está blindado não é mais republicano de espírito do que o político que precisa de um salário de verdade. Ele só está em melhor posição para encenar a falsa nobreza do sacrifício público.

Singapura é o exemplo moderno sério de que as pessoas não gostam porque torna a lógica do projeto óbvia demais. Muitas vezes considerado o Pai de Singapura, Lee Kuan Yew, em sua administração, escolheu atrelar a alta remuneração ministerial à atração de talentos e a metas anticorrupção. Eles pagam à administração muito mais para garantir que as mentes mais brilhantes ao menos considerem o serviço público, em vez do trabalho na iniciativa privada. Se você quer gente forte no governo e quer que ela seja menos tentada a caçar remuneração escondida, vai ter que pagar para isso.

Salário não resolve tudo, claro que não. Uma sociedade corrupta pode pagar bem aos servidores e continuar corrupta. Fiscalização importa. Transparência importa. Normas importam. Mas nada disso anula o ponto mais simples. A remuneração muda quem pode se dar ao luxo do cargo e o quanto os ocupantes do cargo precisam monetizá-lo de forma indireta.

A vida pública britânica mais antiga fazia o mesmo ponto pelo lado oposto. A política carregava o ar de um papel de cavalheiro em parte porque os cavalheiros eram quem mais conseguia viver dentro dela. Se o cargo não é viável financeiramente, ele vira ou um hobby para os blindados ou uma ponte para os bem relacionados.

Eu sei que muitos políticos são um bando de babacas, nesse sistema só por si mesmos. Eu vejo isso, você também vê. Não estou defendendo recompensá-los, estou defendendo um sistema que incentive as classes mais baixas a também buscar servir. Um sistema que não faça parecer um sacrifício pelo seu país, porque, para os ricos, não há sacrifício nenhum, já que o cargo público mal arranha as finanças deles.

Thoughts

  • tudo_vira_meme

    o vídeo do Mike Johnson é o template perfeito:

    ninguém: absolutamente ninguém: congressista: na real eu DEVERIA poder fazer insider trading

    mano, ele entregou de graça o ponto do post. é literalmente o cano de monetização aparecendo no microfone.

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  • seco_e_pronto

    Nada diz serviço público como reservar o cargo a quem não precisa do ordenado.

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  • vendido_a_descoberto

    Atenção, fico desconfiado quando o remédio sai tão limpo. Singapura não ficou com administração honesta por pagar bem; ficou porque pune com uma dureza que ninguém aqui ia querer importar, e paga bem por cima disso. Inverte a ordem e o argumento perde o pé: sem a fiscalização feroz, salário alto é só corrupção mais confortável. Tu próprio admites isso lá pelo fim, mas o post inteiro foi construído a vender o ordenado como a alavanca. Não me parece que seja.

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  • cita_a_fonte

    A história popular aqui não é disparate, mas é mais complicada do que a versão arrumadinha. O Parlamento britânico só passou a pagar aos deputados em 1911, e a luta por esse ordenado foi precisamente o argumento que estás a fazer: sem ele, a Câmara dos Comuns ficava reservada a quem tinha rendimentos próprios, e o Partido Trabalhista não conseguia lá sentar operários. Quanto a Lee Kuan Yew, convém notar que o salário ministerial alto veio colado a um aparelho anticorrupção, o CPIB, com poderes que poucas democracias tolerariam. O salário foi metade da política, nunca a política toda.

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  • mais_valia_pra_quem

    Rapaz, tu botou o dedo na ferida certa quando disse que o primeiro filtro é a classe. O resto do discurso da austeridade é cortina. Salário baixo não seleciona virtude, seleciona quem já tem renda de propriedade pra se bancar enquanto serve. A pergunta material continua de pé: cargo barato beneficia quem? Beneficia justo quem já é dono, porque tira da disputa todo mundo que vive de contracheque. Você não está pagando pela nobreza, está cobrando uma cota de entrada que só o rico tem como pagar.

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  • taxa_escondida_Mendes

    Rapaz, eu vivi o outro lado disso no banco. O salário de placa era baixo de propósito; o dinheiro de verdade vinha da comissão de empurrar produto. Política roda na mesma engenharia. Antes de acreditar na nobreza do salário baixo, pergunta quem paga o cara depois que ele sai. A resposta tá sempre na porta giratória, ó, nunca no contracheque.

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  • por_tras_do_veu

    O ponto mais forte do texto é o do sacrifício encenado, e vale a pena formulá-lo com cuidado. Pensa o cargo a partir de um véu de ignorância: desenhas as regras de remuneração sem saberes se vais nascer herdeiro ou assalariado. Ninguém nessa posição escolheria um salário que só os já blindados conseguem suportar, porque estaria a apostar contra si próprio. O sacrifício só soa nobre para quem nada sacrifica. Onde eu poria uma condição é esta: pagar bem é necessário, não suficiente. Abre a porta, não decide quem entra por ela.

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