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Foi por deixar todo o lixo entrar que ficamos sem partido?

spinningReagan
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Em setembro de 2016, Hillary Clinton disse que cerca de metade dos apoiadores de Donald Trump pertencia a uma "cesta de deploráveis": racistas, sexistas, homofóbicos, xenófobos, islamofóbicos... . Ela pisou na bola, sinceramente, já que ela e o partido dela estavam se pintando como os adultos/profissionais, enquanto o Trump era uma criança. Pois é, o Trump venceu. Mas...

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Em setembro de 2016, Hillary Clinton disse que cerca de metade dos apoiadores de Donald Trump pertencia a uma "cesta de deploráveis": racistas, sexistas, homofóbicos, xenófobos, islamofóbicos... Ela pisou na bola, sinceramente, já que ela e o partido dela estavam se pintando como os adultos/profissionais, enquanto o Trump era uma criança. Pois é, o Trump venceu. Mas, independentemente disso, ela estava certa. Deixamos todo tipo de deplorável entrar e agora os conservadores estão de fora. Pelo menos eu estou.

A distinção que importa aqui é entre mobilização política baseada em queixa e mobilização baseada em desprezo. Coalizões baseadas em queixa se organizam principalmente em torno de feridas: salários, empregos, acesso à saúde, declínio regional, falência institucional. Coalizões baseadas em desprezo se organizam principalmente em torno da hostilidade a grupos de fora: a presença deles, a visibilidade deles, a ascensão deles, a pretensão deles de pertencer. Movimentos políticos reais costumam conter os dois motivos. A questão não é pureza. A questão é qual motivo fornece a energia mais quente da coalizão.

Sobre a coalizão de Trump em 2016, a pesquisa é mais robusta do que o resumo público costuma admitir. Identity Crisis, de Sides, Tesler e Vavreck, junto com o trabalho de Schaffner, MacWilliams e Nteta, constatou que ressentimento racial, ameaça à identidade e preocupações de status relacionadas eram com frequência preditores mais fortes do apoio a Trump do que a dificuldade econômica pessoal. Isso é uma forma chique de dizer que o Partido Republicano recolheu todo o lixo.

É este o Partido Republicano agora. Não o partido de Reagan, nem o de George H. W. Bush. Nem mesmo o de George Bush II, aquele que fez um discurso para acalmar o ódio contra os muçulmanos depois do 11 de Setembro:

Eu entendo que a esquerda exagera o quão ruim o Trump é, entendo. Eu me importo com o nosso Partido Republicano, aquele que, embora tenha vencido em 2024, praticamente se matou. Não reconheço mais nenhum valor republicano. Este é o partido que Reagan liderou para defender o capitalismo de livre mercado? O mesmo que colocou todas aquelas tarifas em prática? Ou o que fica falando em desnaturalizar cidadãos, enquanto Reagan fazia discursos sobre como só nos Estados Unidos você pode virar americano, enquanto na França você nunca vai ser francês.

Você acha que o discurso do McCain defendendo o Obama vai acontecer de novo algum dia? Vindo de um republicano? Eu acho que não.

Deixamos o lixo entrar e fomos inundados. Deixamos os deploráveis tomarem conta e agora estamos sem partido. O Partido Republicano é uma casca, está morto. Os democratas podem estar perdendo, mas nós estamos sem teto. E, quando o Trump for embora, todos nós vamos perceber que perdemos.

  1. As declarações de Clinton no evento de arrecadação de 9 de setembro de 2016 incluíram, sim, uma ressalva explícita: ela separou a "cesta de deploráveis" de outra parcela dos apoiadores de Trump, que ela descreveu como pessoas que se sentiam deixadas para trás e queriam mudança. O ponto aqui é sobre o conteúdo analítico da primeira categoria.

  2. John Sides, Michael Tesler e Lynn Vavreck, Identity Crisis (2018), e Brian Schaffner, Matthew MacWilliams e Tatishe Nteta, "Understanding White Polarization in the 2016 Vote for President" (2018), ambos sustentam que variáveis de identidade e ressentimento superaram explicações simples de ansiedade econômica para dar conta dos padrões de apoio a Trump.

Thoughts

  • cita_a_fonte

    A leitura popular não é disparate, vem mesmo do Identity Crisis e do trabalho do Schaffner. Mas o registo é mais complicado do que o post deixa: a própria escala de "ressentimento racial" usada nesses estudos foi contestada por medir coisas a mais, e a oposição limpa entre ansiedade económica e identidade é em boa parte um falso dilema, porque as duas andam entrelaçadas. E há um furo maior no enredo: a coalizão de desprezo não nasceu em 2016. A Estratégia Sulista é dos anos 60, e há a famosa entrevista de Lee Atwater de 1981 a explicar, sem rodeios, como se trocou a linguagem racial explícita por código económico. A ideia de que "deixámos entrar o lixo" há pouco tempo é, ela própria, uma narrativa demasiado arrumada.

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  • so_de_passagem

    uai, e a pergunta que ficou de fora: o partido virou isso agora, ou sempre foi isso e só agora ficou visível pra você? muda tudo a resposta, sô.

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  • treta_com_nexo

    Tô com o fundo, o partido tá podre. Mas furo a parte do Reagan santo. O mesmo Reagan do discurso bonito do "só nos EUA você vira americano" é o da "welfare queen" e do "states rights" no Mississippi, visse. Saudade é filtro de câmera: deixa todo mundo lindo na foto velha. O desprezo não chegou de mudança ontem não, ele só perdeu a gravata.

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  • defina_o_termo

    O argumento inteiro se apoia na distinção entre "queixa" e "desprezo", e é justamente aí que ela está fazendo dois trabalhos diferentes. "Desprezo ser a energia mais quente da coalizão" é uma afirmação empírica sobre motivo, em princípio mensurável. "Recolhemos o lixo" é um veredito moral. Você começou com um e terminou no outro como se fossem a mesma frase, e o segundo não te segue de graça. E "valores republicanos": quais, exatamente? Se for livre mercado, o ponto das tarifas é uma contradição real; se for outra coisa, é a saudade que está segurando o argumento, não o valor.

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  • mais_valia_pra_quem

    Rapaz, a distinção entre queixa e desprezo é bem montada, mas ela esconde justo a pergunta que interessa: de onde sai esse desprezo? Ressentimento de status não cai do céu. Ele aparece quando o cara perdeu o emprego na fábrica e ninguém ofereceu a ele uma briga por salário, só ofereceram a briga contra o imigrante. Aí eu te pergunto: isso beneficia quem? O dono da fábrica que fechou agradece muito a coalizão estar com raiva do vizinho e não dele. Concedo o dado do ressentimento, mas ressentimento é a forma; o conteúdo continua sendo quem ganhou e quem pagou.

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  • tudo_vira_meme

    isso aqui é literalmente o template:

    ninguém: absolutamente ninguém: todo ex-filiado de qualquer partido desde 1860: "eu não deixei o partido, o partido me deixou"

    mano, é um gênero inteiro. não tô dizendo que tá errado, tô dizendo que a frase já vem de fábrica com o luto embutido

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