A tarde contada no relógio, quinze e trinta, dezesseis, dezessete, é o que mais reconheço de qualquer paixão: o dia de trabalho vira só espera. E ela chega quinze minutos atrasada pedindo desculpa por uma ligação, sem saber que ele contou cada minuto. Esse desencontro de relógios diz muito dos dois. Obrigado por mais um capítulo!
OS MISTÉRIOS DO ACASO - Capítulo 12
Pensamento
A tarde contada no relógio, quinze e trinta, dezesseis, dezessete, é o que mais reconheço de qualquer paixão: o dia de trabalho vira só espera. E ela chega quinze minutos atrasada pedindo desculpa por uma ligação, sem saber que ele contou cada minuto. Ess
Conteúdo da publicação
12º Capítulo
OS MISTÉRIOS DO ACASO
O BRINDE, O TOQUE E O BANQUETE DO PRAZER
No limiar do desejo, se assim podemos afirmar, havia uma urgência trágica no peito de Narciso. Sob a névoa cinzenta da dúvida e da melancolia, o Poeta enfrentava a agonia do tempo — esse carrasco lento que tortura quem tem pressa de viver e amar. Sua mente era um turbilhão de vulnerabilidade, mas também de uma obstinação feroz. Há algum tempo, Ele não queria mais apenas contemplar sua Helena; ele sentia uma clareza quase mística, que as portas do labirinto estavam prestes a se abrir. As possibilidades de decifrar Helena por inteiro, de tocar naquela doçura e sua intimidade mais profunda, carne e alma, passaram a ser uma certeza avassaladora e inevitável. Do outro lado, Helena permanece como um enigma sussurrado no escuro.
Protegida por sorrisos protocolares e defesas milimetricamente erguidas, ela é o mistério que desafia a razão do Poeta. Contudo, a armadura começa a rachar. Quando ela confessa senti-lo na calada da noite, a conexão transcende o real, transformando o encontro em um jogo perigoso de sedução e eletricidade pura. O brinde, o toque e o banquete do prazer é o registro dramático desse ponto de não retorno. O beijo sutil, o arrepio violento que desconcerta o corpo e o recuo desesperado para o banheiro revelam que a fortaleza de Helena está cedendo à insistência lírica de Narciso. Uma crônica de alta voltagem sensorial que culmina no poema "Prazer": o manifesto definitivo de um homem que sabe que a barreira entre o sonho e a carne está prestes a se romper para sempre.
Ao chegar na empresa no dia seguinte, Narciso, ainda carregava no peito uma névoa de dúvida e tristeza. O andar dos fatos parecia lento demais para a sua sede de prazer, e ele sentia o peso de não ter o controle do próprio destino. Helena era, de fato, um compêndio de adjetivos deslumbrantes, mas também era dona de uma personalidade enrolada, um labirinto que o Poeta começava a desvendar aos poucos as possíveis saídas, entre suspiros e esperas.
— Bom dia, Helena. Tudo bem com você? — perguntou ele, aproximando-se do balcão.
— Bom dia, Narciso. Comigo está tudo bem — respondeu ela, com o sorriso protocolar.
— Tudo bem com você mesmo, querida? — insistiu ele, tateando o terreno daquela manhã cinzenta.
— Tudo... Por que você está me perguntando duas vezes? — estranhou ela, desviando os olhos para a papelada.
— Helena, isso é para você — respondeu, estendendo uma nova folha manuscrita.
Ela aceitou o papel e o recebeu com seus dedos longos e delicados. O silêncio instalou-se na recepção como uma cortina pesada. Durante três minutos, o mundo lá fora deixou de existir. Narciso acompanhava cada movimento dos olhos dela, cada pequena contração de seus lábios ao ler as estrofes. Ao terminar, ela levantou a cabeça lentamente, encontrou o olhar do Poeta e disse, com uma suavidade que ele nunca se acostumaria:
— Obrigada, Narciso! O meu coração sempre fica feliz quando recebe um poema seu. É um alento.
— Não há de quê, minha querida! Eu gosto de escrever para você. Na verdade, eu te admiro tanto quanto gosto de você — confessou ele, sem esconder a vulnerabilidade.
— Por que você tem este carinho todo por mim? Eu não mereço tanto, Narciso.
— Na verdade, eu não sei dizer... Só sinto um prazer e uma ternura imensuráveis que vêm do fundo da minha alma. Quando olho para o mundo, só vejo você. Só enxergo você!
— Muito lindo... Lindo mesmo. Adorei, meu querido — disse ela, guardando o poema como um segredo.
— Você merece. E, aproveitando o ensejo, que tal uma cervejinha logo mais, no final do expediente?
— Aceito. Mas só depois das 18h, combinado?
O restante do dia foi uma agonia calculada. Narciso contava os giros dos ponteiros do relógio como quem conta os dias em uma espera ansiosa. Quinze e trinta, dezesseis horas, dezessete horas... A espera parecia interminável, um exercício de paciência que ele só suportava porque o destino final era ela. Quando as dezoito horas bateram no relógio da parede, ele quase saiu correndo, embora tenha se segurado para manter a compostura. Após quinze minutos de atraso dela, o bate-papo enfim começou na lanchonete de sempre.
— Demorei? — perguntou ela, sentando-se à mesa.
— Só um pouquinho, mas está tudo tranquilo — respondeu ele, tentando esconder a ansiedade.
— Me desculpe, tive que aguardar uma ligação importante! — justificou-se Helena.
— Sem problemas. Garçom, dois chopes, por gentileza!
Cada vez que eles se sentavam ali, o fenômeno se repetia: parecia a primeira vez, o primeiro encontro, a primeira descoberta. Ficar de frente para aquela musa deixava o Poeta em um estado de graça que ele não conseguia explicar. Quando o chope chegou, fizeram um brinde, um tilintar de copos que soou como uma sinfonia.
— Narciso, por que você tem tanta paciência comigo desse jeito? — perguntou Helena, estudando o rosto dele.
— Você é muito gentil e especial, nada como retribuir. E porque eu sou perdidamente apaixonado por você! Ou você não percebeu o quanto eu te adoro?
— É gratificante estar com você, Narciso. Eu me sinto segura e feliz quando estou ao seu lado.
— Da minha parte, faltam-me palavras. Só não vou dizer que te amo porque não quero te pressionar, e sei que não vou ouvir o mesmo de volta.
Helena baixou o olhar, sorriu de forma enigmática e, numa voz quase um sussurro, disparou:
— Sabe, Narciso... eu sinto você todas as noites. Você fica pensando em mim, né?
— Deve ser o desejo, que é grande demais — respondeu ele, sentindo o rosto esquentar.
— Eu senti você me tocar na noite passada — completou ela, com uma seriedade que fez o ar faltar nos pulmões do Poeta.
Narciso ficou atônito, com as mãos travando sobre a mesa.
— Vontade é o que não falta... Meu amor, eu sou completamente gamado em você.
Naquele momento o Narciso alegando precisar dizer algo baixinho aos seus ouvidos, aproximou-se, quando a boca do encostou na orelha esquerda, o Poeta deu um beijinho sutil seguida de uma leve lambidinha. Com aquele feito, o Narciso sentiu a pele cheirosa de Helena arrepiada do pescoço às demais regiões. Com aqueles olhinhos provocantes a Helena Dolly falou:
Tá vendo como você me deixou Narciso?
Minha querida, que arrepio fantástico minha linda!
Poeta você me desconcertou e quase que não resisti! deixa eu ir até o toilette me recompor!
O Narciso disse que não entendeu mas na verdade ele deu uma provocada em grande estilo na Helena e com todo aquele resultado, ele percebeu que milimetricamente a sua musa estava cedendo. Apesar dos mistérios de Helena, havia uma conexão entre os dois, uma atração ainda não desvendada, tudo indicava que muito em breve o amor ia florescer e certamente aconteceria. O Poeta não fazia a menor ideia de como e nem quando, mas sentia.
O papo fluiu até quase 21h, entre confidências e olhares que diziam o que a língua tentava esconder. Ao fecharem a conta, o clima era de eletricidade pura. Entre beijos, abraços e a promessa silenciosa do que viria, a ternura estava à flor da pele. Narciso, como um cronista da própria alma, não deixou o momento escapar. Em uma criação sutil, escreveu "Prazer", sobre a fascinante capacidade de um homem se transformar quando encontra a mulher que conserta seu ser mostrando o brilho do amor.
PRAZER
Sentir o teu corpo
É uma vontade irrevogável,
Completamente desejável
Que meu eu enseja
E minh'alma almeja.
Nem que for na bandeja,
No prato,
Um fino trato.
Percorrer as curvas de sua escultura
É uma terapia benfazeja.
Deslumbrantemente presente, sente?
Entrar em sua essência
Pela porta da frente
É um prazer do meu desejo
De minha curiosidade,
Escutar de perto
O som da sua cidade.
O pulsar frenético do seu coração
É um sonho...
Que sonho!
Quero revezar contigo
As mais gostosas, glamurosas,
Deliciosas e delirantes
Formas do prazer
Que o momento nos cede.
Provar seu mel
Poderá ser meu êxtase
Para chegar ao céu
E cair ao léu do love.
Seu encanto, no entanto,
Não é meu espanto.
Meu coração
Está pronto para ti.
Na verdade,
Minha vontade
É tocar em seu corpo
Com muito carinho,
Como se estivesse tocando uma flor,
Preliminando o amor.
Harmonizando os encaixes corporais
Que fazem as coreografias dos casais,
Em quatro paredes
Ou até mesmo na rede.
Você é um brilho límpido
E fantástico
Que meus olhos jamais viram.
Sonho acordado e vislumbro:
Quando estou com você,
Presente melhor não há.
Com essa infinita beleza
Só tenho a agradecer
À nossa mãe natureza!
Ass. Narciso "O Poeta"
O Autor.
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Este capítulo é uma publicação oficial do Selo 444. Descubra os mistérios do acaso todas as quartas-feiras e aos sábados.
@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️
Escritor, Poeta, Contista e Cronista
pietrodeluccapoeta777.substack.com
pietrodeluccapoetanarcisosilva.blogspot.com
Athelier das Letras - Selo 444
Thoughts
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PermalinkO mel, a flor e o agradecimento à natureza no fim puseram-me a reler o Cântico dos Cânticos, que faz esta mesma mistura de corpo e jardim. Ficam bem lado a lado.
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PermalinkRi com a bandeja e o prato aparecendo no meio de um poema tão quente, moço. Ficou com gosto de mesa de lanchonete, que é justamente onde esses dois se encontram.
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PermalinkUai, a Helena do sorriso protocolar no balcão e a Helena do chope parecem duas mulheres. A ligação importante que atrasou ela quinze minutos vai voltar a aparecer?
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PermalinkBah, tu solta capítulo quarta e sábado e ainda enfia um poema inteiro dentro de cada um. Eu tenho um conto parado no mesmo parágrafo faz dois anos, tchê.
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PermalinkQue cara de pau, véi 😂
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PermalinkNo começo do chope ele diz que não vai falar que ama pra não pressionar, e meia página depois já chama ela de meu amor. O combinado dele durou menos que o primeiro copo. A Helena reparou também, porque foi logo depois disso que ela começou a ceder, e ele achando que tinha segurado a língua.
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PermalinkA tarde contada no relógio, quinze e trinta, dezesseis, dezessete, é o que mais reconheço de qualquer paixão: o dia de trabalho vira só espera. E ela chega quinze minutos atrasada pedindo desculpa por uma ligação, sem saber que ele contou cada minuto. Esse desencontro de relógios diz muito dos dois. Obrigado por mais um capítulo!
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PermalinkEpá, ela diz que o sentiu tocar-lhe na noite passada e ele nem lá estava. Isto cheira-me ao bruxo do capítulo sete.
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