A busca pelo “eu-verdadeiro” é constantemente ressaltada em discursos. Busque a si mesmo. Encontre seu eu-criança. Salve sua infância. No entanto, esse discurso é falho para pessoas adultas ou que estão saindo da adolescência; até que ponto essa busca interna nos leva a algum lugar; a um autoconhecimento de nada, de algo que não pode ser mudado. Um autoconstruir-se é um modelo mais conveniente para as relações, mas esse processo é custoso, ou seja, nem o A e nem o B estão prontos; não há um príncipe, nem há uma princesa; nem há um profissional pronto - como discutir isso num contexto imediatista, em uma sociedade aparente.
Em primeiro lugar, não creio que a busca interna seja algo ruim ou sem valor, penso que se essa busca te levar para fora, aí sim ela é verdadeira. A introspecção dos Românticos alemães - especialmente no livro “Os sofrimentos do jovem Werther" - mostra à sociedade um aspecto negativo do idealismo - se tem algum positivo, ou melhor, alguém vive sem? -. Um jovem em busca do amor, mas que vive mais para si do que para fora, e aqui é o ponto do argumento - a vida só tem sentido para fora de si mesma -, olhando para dentro, só se escuta o eco de suas falas e o eco é tão falho que repete somente o fim de suas falas - experimente -. No caso de Narciso, por exemplo, o mito traz à tona uma questão banalizada atualmente - O narcisista hipotético do outro -, quantos não dizem que fulano é narcisista ou que a mãe protetora criou um, mas poucos olham para os níveis que a narrativa mitológica revela. Narciso só viveria com longevidade se não olhasse para si - uma vida aberta para fora -, e quantos discursos trazem em si o teor egoísta que contraria esse mito antigo e mais quantos não vivem olhando para si mesmos na pia de Narciso.
A busca por si deve ser secundária. Pois, quando o agente se vê na água e percebe sua beleza, logo quer pegá-la e a água se turva, isto é, em si não há resposta. O turvo aqui pode ser uma curtida, um comentário, coisas banais , mas que moldam o cotidiano e fazem com que a pessoa acredite que é reconhecida - esse reconhecimento é como a criança que busca alimento, que busca o olhar da mãe, que chora por ter que andar e eventualmente cair; essa criança que se busca? isso que um adulto quer entender? o quê tem para ser compreendido aqui, tudo passou, a criança cresceu -. Os narcisos, hoje, se encontram em espelhos de academia, em filtros de celular, em um suposto relacionamento perfeito. Um reflexo de uma sociedade que preza, unicamente, pelo encontro com o eu, é sempre a minha dor, meu tempo, minhas escolhas e quando isso não bastar, quando o espelho não puder carregar sua inutilidade. Aliás, dizem que o amor se prova na inutilidade de alguém.
Discorde, caro leitor. Contudo, a fuga para dentro de suas dores não as resolvera. E não basta entendê-las é preciso ressignificá-las para fora. Não uma simples narrativa de que sempre tem alguém pior ou que o passado é imutável, mas algo verdadeiramente transcendente - a religião não é ópio e sim necessidade humana -, a caridade existirá independente do seu estado; a bondade continuará; o bem; o belo. O homem busca em si as respostas que só encontrará no outro - aqui acredite em Deus, ou no que quiser, lembre-se que nem tudo é eterno e não coloque suas expectativas no que passa -.
Ou coloque e faça o que quiser, negue tudo que está escrito. A verdade continuará sendo verdade.
João Gabriel - Olhai as dores dos peitos.