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O Radio parou...

lucasardove

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Sempre gostei de ouvir rádio.

Quando eu era adolescente, havia o rádio AM. Não existiam as facilidades de hoje, nem aquela quantidade quase infinita de músicas ao alcance de um toque. Havia o rádio. E isso bastava.

Eu gostava de ficar ouvindo.

Gostava principalmente das músicas antigas. As internacionais dos anos 70, 80 e 90 sempre tiveram um lugar especial dentro de mim. As americanas, as francesas, as italianas. E também as clássicas, aquelas que pareciam não pertencer a nenhuma época.

Talvez eu gostasse mais da música do que da letra.

Nunca fui muito preocupado em entender cada palavra. Havia alguma coisa antes delas. Uma emoção escondida na melodia, nos acordes, no som de um piano, de um violino, de um saxofone.

Uma música instrumental, às vezes, conseguia me dizer muito mais do que uma canção inteira.

Com o tempo, descobri que eram as músicas mais lentas que mais me atraíam.

As tristes.

Havia nelas uma espécie de silêncio que eu reconhecia, embora ainda não soubesse exatamente o que ele significava.

Eu gostava de ouvi-las.

E o mais estranho é que, mesmo sendo tristes, elas me faziam bem.

Hoje sei que algumas músicas não foram feitas para nos deixar felizes. Foram feitas para nos acompanhar quando a felicidade não é exatamente o que estamos procurando.

Elas nos encontram onde estamos.

Talvez por isso algumas tenham permanecido comigo durante tantos anos.

Everybody Hurts, do R.E.M.

Nothing Compares 2 U, na voz de Sinéad O'Connor.

Triste, de Almir Rogério.

Take My Breath Away, do Berlin.

Pra Onde É Que Eu Vou, de Os Incríveis.

O Fortuna, de Carl Orff.

São músicas muito diferentes entre si. Algumas falam de dor, outras de amor, outras parecem carregar dentro delas uma espécie de drama que nem precisa de palavras.

Mas existe algo em comum entre elas.

Todas me levam para algum lugar.

Não necessariamente para uma lembrança específica. Às vezes é apenas uma sensação. Uma atmosfera. Uma época que não consigo localizar exatamente.

Nostalgia.

Melancolia.

Saudade de alguma coisa que talvez nem tenha acontecido.

E talvez essa seja uma das coisas mais estranhas da memória: podemos sentir saudade até daquilo que não sabemos se realmente tivemos.

Às vezes me pergunto por que me sinto triste?

Por que sou assim?

E, principalmente, por que existe em mim uma espécie de atração pela tristeza.

Talvez tudo tenha começado com o rádio.

Não porque o rádio me deixasse triste.

Era justamente o contrário.

O rádio me permitia sentir a tristeza.

Naquela época eu ainda não sabia disso.

Eu apenas gostava de ouvir. Gostava das músicas lentas, das vozes dos locutores, dos intervalos entre uma canção e outra. Gostava daquela atmosfera que se formava dentro de casa quando o rádio estava ligado.

Havia alguma coisa naquelas músicas que parecia conversar com uma parte de mim que eu ainda não conhecia.

As músicas alegres passavam.

As tristes ficavam.

Eu não sabia por quê.

Talvez porque a tristeza, quando transformada em música, deixasse de ser uma coisa assustadora.

Ela ficava bonita.

Ficava suportável.

Ficava até confortável.

Eu podia estar triste sem precisar saber exatamente o motivo. Bastava ligar o rádio e deixar que uma música dissesse por mim aquilo que eu não conseguia dizer.

Talvez fosse essa a função secreta do rádio na minha adolescência.

Ele dava som ao que eu sentia.

E não eram apenas as músicas que me fascinavam.

Eu gostava das vozes.

Ficava ouvindo os locutores apresentando os programas. Algumas vozes eram graves e pausadas. Outras tinham uma alegria quase teatral. Havia aqueles que apresentavam uma música como quem conta uma pequena história.

Eu gostava de esperar.

Às vezes, esperava a música terminar só para ouvir o que o locutor diria depois.

Essas vozes ficaram.

Nunca conheci aquelas pessoas. Talvez elas nem imaginassem que alguém, em algum lugar, prestava atenção em cada palavra.

Mas eu estava ali.

Ouvindo.

E algumas delas me marcaram.

Talvez porque, naquela idade, uma voz desconhecida pudesse se transformar em companhia.

O locutor não sabia meu nome.

Não sabia que eu estava ali.

Não sabia absolutamente nada sobre mim.

Mas entrava na minha casa todos os dias.

E, de certa maneira, também entrava na minha vida.

Foi então que, em algum momento da adolescência, o rádio parou. O rádio parou.

Não de verdade.

Ele continuava ali.

Funcionando perfeitamente.

As músicas continuavam chegando pelas ondas do rádio. Os locutores continuavam falando. As vozes continuavam atravessando a casa.

O rádio não tinha parado.

Quem havia mudado era eu.

E talvez tenha sido nesse momento que percebi que havia dentro de mim uma tristeza quieta.

Não uma tristeza permanente. Eu ria, vivia, fazia planos.

Mas havia um lugar dentro de mim onde a melancolia morava.

Eu ainda não sabia dar nome àquilo.

Apenas sentia.

Depois veio a FM.

Vieram as fitas cassete, os CDs, a televisão, os computadores, o celular.

E hoje temos o Spotify.

Milhões de músicas disponíveis em poucos segundos.

Podemos escolher exatamente o que queremos ouvir.

Mas alguma coisa ficou para trás.

Onde estão os locutores?

Onde estão aquelas vozes que entravam na nossa casa sem pedir licença?

Hoje temos todas as músicas.

Mas não temos mais aquela espera.

Antes, alguém escolhia uma música e dizia algumas palavras antes de ela começar.

Havia uma pessoa do outro lado.

Uma voz.

Uma presença.

Hoje escolhemos.

Antes, esperávamos.

E talvez exista uma diferença enorme entre essas duas coisas.

Quando ouço música hoje, posso escolher exatamente aquela que quero.

Mas quando ouvia rádio, havia surpresa.

Podia vir uma música alegre.

Podia vir uma música de amor.

Podia vir uma daquelas músicas lentas, doloridas, que faziam alguma coisa dentro de mim se mover.

E eu ficava ali.

Ouvindo.

Sem entender que, enquanto escutava o rádio, estava também aprendendo a escutar a mim mesmo.

Até hoje, quando acordo com o astral baixo, faço praticamente a mesma coisa.

Procuro uma música triste.

Pode parecer estranho.

Se estou triste, por que procurar algo que pode me deixar ainda mais triste?

Mas não funciona assim.

Quando estou para baixo, uma música alegre parece uma mentira.

É como alguém sorrindo para você quando você não está com vontade de sorrir.

A música triste, não.

Ela não tenta me convencer de nada.

Ela simplesmente senta ao meu lado.

E fica.

Talvez seja isso que eu tenha procurado no rádio durante todos aqueles anos.

Não música.

Companhia.

Talvez eu não tenha descoberto que era uma pessoa triste quando o rádio parou.

Talvez tenha descoberto justamente porque ele existia.

Porque o rádio me ensinou que a tristeza também tem som.

Tem piano.

Tem violino.

Tem vozes.

Tem silêncio.

E, às vezes, tem beleza.

O rádio não parou quando surgiu a FM.

Não parou quando chegaram as fitas cassete.

Nem quando a televisão tomou conta das nossas salas.

Nem quando o Spotify colocou milhões de músicas dentro de um celular.

O rádio parou quando as vozes ficaram silenciosas.

Quando deixamos de precisar de alguém para nos dizer o que ouvir.

E talvez seja por isso que ainda sinto tanta falta dele.

Não do aparelho.

Da voz.

Da espera.

Da companhia.

Daquela sensação de que havia alguém do outro lado.

Algumas noites, quando a casa está silenciosa e uma música antiga começa a tocar, eu fecho os olhos.

E por alguns segundos volto a ser aquele garoto.

Ouvindo uma voz desconhecida.

Esperando a próxima música.

Sem saber ainda que, muitos anos depois, sentiria saudade até daquilo que nunca soube que estava vivendo.

Talvez seja isso a memória.

A gente só percebe que uma coisa era parte de nós quando ela já não pode mais voltar.

E talvez seja por isso que, quando uma música triste toca, eu não a desligo.

Eu deixo tocar até o fim.

Porque, no fundo, talvez eu não esteja ouvindo uma música.

Talvez esteja ouvindo o último lugar onde o rádio ainda não parou.

Thoughts

  • Lucimar

    Gosto da ideia de que as músicas tristes fazem companhia em vez de alegrar. No poema “Caminho da Transformação”, a dor também acaba virando algo bonito.

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  • malaExtraviada

    As músicas tristes que mesmo assim faziam bem eu reconheço, eram as que a gente deixava tocar no rádio sem prestar atenção na letra. O conto «Pão com alho» guarda uma tristeza de adolescente parecida, vivida entre uma prova e a cantina.

    Permalink
  • lucasardove

    Essas sensações ou sentimentos de tristeza ou alegrias eu sentia isso. É real. Anos 70, 80

    Permalink
  • Lucimar

    A música alegre parecendo mentira eu discuto um pouco. Tem dia que um forró no rádio do vizinho me levanta sem pedir licença. E no rádio antigo nem dava pra escolher a triste, vinha o que viesse.

    Permalink
  • malaExtraviada

    Bah, pra mim o centro do texto é o locutor que não sabia o nome dele e entrava na casa todo dia. Li mais como saudade de alguém escolhendo por ti do que de música triste.

    Permalink

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