Havia, numa floresta onde os animais nasciam com um estranho segredo, uma marca gravada no peito de cada criatura. Não era uma tatuagem, tampouco uma cicatriz. Era um número que indicava quantas vidas ainda lhe restavam. Quando uma vida se perdia, um algarismo desaparecia, como se o próprio destino apagasse uma possibilidade de continuar existindo.
Alguns animais possuíam dezenas de vidas. Outros, poucas. Ninguém sabia ao certo quem decidia aquela contagem, mas todos aprendiam desde cedo a protegê-la.
Foi naquela floresta que dois tigres se encontraram.
Ele se chamava Dante. Ela, Serena.
Dante possuía nove vidas, e Serena, sete. Apaixonaram-se com a urgência de quem acredita ter encontrado algo raro demais para ser desperdiçado. Caçavam juntos, dormiam sob a mesma copa de árvores e passavam horas imaginando quantas vidas compartilhariam antes de a velhice lhes alcançar.
Quando decidiram se casar, a floresta inteira celebrou. O casamento aconteceu diante de uma cachoeira, sob o testemunho de corujas e cervos, e os dois juraram não abandonar um ao outro enquanto lhes restasse fôlego.
Na noite de núpcias, já recolhidos à caverna que seria o lar dos recém-casados, Dante ajudou Serena a retirar o vestido de folhas prateadas que ela usara na cerimônia.
Foi então que viu.
No peito da tigresa, onde esperava encontrar o número sete, havia apenas um algarismo: 1.
Dante recuou, incapaz de compreender o que seus olhos lhe mostravam.
— Serena, o que aconteceu com suas vidas?
Ela cobriu o peito com as patas. Seus olhos se encheram de lágrimas, mas nenhuma palavra saiu de sua boca.
Dante insistiu. Ela permaneceu em silêncio.
Naquela floresta, perder vidas não era algo banal. Cada uma representava uma sobrevivência, uma oportunidade, uma manhã que ainda poderia ser contemplada. Descobrir que a mulher com quem acabara de se casar possuía apenas uma vida restante fez Dante imaginar todas as formas pelas quais poderia perdê-la.
Naquela mesma noite, sem esperar pelo amanhecer, partiu em busca do único ser que conhecia os caminhos da morte.
O predador vivia numa caverna além das montanhas. Diziam que ele não precisava perseguir suas vítimas: bastava tocá-las para arrancar-lhes uma vida. Era uma criatura antiga, de corpo coberto por escamas escuras e olhos sem brilho, conhecida por negociar com aqueles que chegavam desesperados.
Dante apresentou-se diante dela.
— Quero que me tire todas as vidas que me restam, menos uma.
O predador inclinou a cabeça.
— Tens nove. Por que desejas conservar apenas uma?
— Minha esposa tem somente uma. Não suportaria viver muitas vidas depois que ela partisse. Quero que, se o destino a levar, não me deixe muito distante dela.
O predador observou o tigre por um longo instante.
— Sabes que não posso escolher por ti o momento em que perderás a última?
— Sei.
— E sabes que o amor não obriga ninguém a morrer na mesma hora que o outro?
Dante não respondeu.
O predador ergueu uma de suas patas.
Ao primeiro toque, o peito do tigre perdeu um número. Ao segundo, perdeu outro. E assim prosseguiu, retirando-lhe uma vida de cada vez, até que o algarismo nove desapareceu, depois o oito, o sete, o seis, o cinco, o quatro e o três.
Quando terminou, Dante possuía uma única vida.
Cambaleou para fora da caverna. Seu corpo doía, mas ele sorria. Agora, pensava, ele e Serena eram iguais. Nenhum dos dois precisaria enfrentar sozinho uma longa eternidade de saudade.
Atravessou a floresta durante toda a madrugada, imaginando a expressão de sua esposa quando descobrisse o que fizera. Talvez ela chorasse. Talvez o abraçasse. Talvez finalmente lhe contasse por que suas vidas haviam desaparecido.
Ao chegar em casa, encontrou a entrada da caverna entreaberta.
Ouviu risadas.
Aproximou-se devagar, até enxergar, através de uma fresta entre as pedras, uma cena que fez o mundo inteiro parecer perder o som.
Serena estava nos braços de outro animal.
Era um flamingo, de plumagem rosada e pernas finas, que Dante conhecia de vista. O mesmo flamingo que costumava visitar o lago próximo à caverna, sempre que Serena dizia precisar de um passeio solitário.
Os dois estavam deitados sobre as peles que Dante preparara para a noite de núpcias.
O tigre não rugiu. Não avançou. Não quebrou as paredes da caverna, como teria feito em outros tempos.
Apenas permaneceu imóvel.
Então ouviu Serena dizer:
— Ele acredita que me ama mais do que a própria vida.
O flamingo inclinou o pescoço.
— E tu o amas?
Serena demorou a responder.
— Amo o que ele faz por mim. Não sei se amo quem ele é.
Dante sentiu aquelas palavras atravessarem-no de um modo que nenhuma garra jamais conseguiria.
O algarismo único em seu peito pareceu pesar mais do que as oito vidas que entregara. Não porque a morte estivesse próxima, mas porque, pela primeira vez, compreendeu que havia oferecido algo irreversível a alguém que talvez nunca tivesse pedido aquele sacrifício.
Recuou sem fazer barulho.
Caminhou sem rumo, atravessando o bosque, descendo as encostas e deixando para trás o lar que construíra em sua imaginação. Quando o sol nasceu, já estava diante de um penhasco, onde o vento soprava tão forte que parecia querer arrancar do mundo tudo aquilo que não encontrasse lugar para permanecer.
Lá embaixo, as águas golpeavam as pedras.
Dante olhou para o próprio peito.
Restava-lhe uma vida.
Uma única oportunidade de continuar respirando, de voltar a conhecer outras criaturas, de aprender o que ainda não sabia sobre si mesmo. Mas, naquele instante, tudo o que conseguia enxergar era a humilhação de ter se diminuído para caber na fragilidade de outra pessoa.
Pensou em saltar.
Acreditou que, se acabasse com aquela última vida, acabaria também com a lembrança, com a vergonha e com a dor de ter sido enganado. Durante muito tempo, permaneceu à beira do abismo, convencido de que não havia distância maior do que aquela entre o animal que fora e o que restara dele.
Então, uma pequena aranha surgiu sobre uma pedra próxima.
Trazia entre as patas um fio de seda, que o vento arrancava de suas mãos a cada tentativa de atravessar uma fenda. Ela recomeçava sempre que o fio se rompia, sem reclamar da pedra, do vento ou da própria fragilidade.
Dante observou-a por um longo tempo.
— Por que continuas? — perguntou. — O vento sempre destrói o que tentas construir.
A aranha não parou de trabalhar.
— O vento destrói o fio. Não é ele quem decide se ainda quero tecer.
Dante abaixou a cabeça.
Pela primeira vez desde que deixara a caverna do predador, pensou que talvez sua última vida não fosse uma sentença. Talvez fosse apenas a parte de sua existência que ainda não havia sido entregue a ninguém.
Afastou-se do penhasco.
Não voltou para Serena naquela manhã. Não procurou o flamingo. Não sabia se algum dia conseguiria perdoá-los, tampouco se desejaria fazê-lo. Sabia apenas que não queria transformar a traição de alguém na decisão definitiva sobre o próprio destino.
Desceu a montanha sozinho, levando consigo a dor, a vida restante e uma pergunta que não encontrou resposta naquele dia.
Se o amor deveria ser uma escolha entre dois seres livres, por que ele havia confundido amar alguém com diminuir a si mesmo?
Naquela floresta, continuaram contando as vidas no peito dos animais. Alguns passaram a dizer que Dante fora tolo por entregar oito delas. Outros afirmaram que Serena jamais merecera tamanho sacrifício. Houve ainda quem culpasse o flamingo, o predador ou a própria natureza daquele mundo.
Dante, porém, nunca voltou a discutir quem merecia a culpa.
Aprendeu que nenhuma criatura pode oferecer a outra a garantia de que será amada de volta. E que, embora o amor possa inspirar sacrifícios, não deveria exigir que alguém se tornasse tão pequeno a ponto de já não reconhecer a própria existência.
Semente reflexiva: Às vezes, não é a traição que nos deixa sem vida, mas a descoberta de quantas partes de nós mesmos entregamos na esperança de sermos escolhidos. Quando o outro não nos escolhe, ainda nos resta a difícil liberdade de não nos abandonarmos também.