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O Quírion

VictorRikelmy
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PREFÁCIO

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AlmaTavares

A mãe que se cala porque percebe que a vida já não lhe pertence ficou-me mais do que as quatro profecias juntas.

A mãe que se cala porque percebe que a vida já não lhe pertence ficou-me mais do que as quatro profecias juntas.

Conteúdo da publicação


PREFÁCIO


Gostaria de informar ao Sr(a). Leitor(a) que esta coisa aqui é minha contribuição à prateleira. Apesar de em minhas linguagens –on ser um prefixo para dragões, o Quírion não deve ser confundido com um, este nome foi escolhido após um longo período em que títulos para este livro vinham e iam. Optei por pôr ele pois significa "o monstro que traz desastres", ou para os mais céticos, "o salvador". Ademais, este ser místico sempre conseguiu tirar meu sono.

Embora eu tenha gostado da tradução "Quírion", com acento e "Q", o correto seria o uso do "CH", pois as línguas falas na narrativa advém de lugares onde o "Q" não existe. Portanto, a tradução livre "Chirion" está correta também, apenas modifiquei o título para que os senhores possam ler com a mesma entonação.

O Quírion é uma história que está sendo escrita aos trancos e barrancos e se trata da aventura de uma vida. É uma história, e como história não tem importância; ou sequer relevância. É efêmera e incompleta, um devaneio da mente crítica de um louco mentiroso que advém de sua loucura.

Dedico esta coisa aí à prateleira, pois desde antes de eu nascer minha vida vem guardar. E assim que eu morrer, lá irei morar.


PRÓLOGO

"Das colinas de Mormorro ao Largo e ao Corvo Curvo, nos prados dos Altos Ermos, nas montanhas da Dorsal do Mundo, até mesmo no Pilar Argal, tudo treme quando o uivo do Tênebro ressoa no ar."

O Epidodendron

Chovia como se o céu sussurrasse um segredo antigo demais para se pronunciar em voz clara. As gotas batiam no telhado como dedos ansiosos, tamborilando presságios. Não era uma chuva comum — era uma chuva que parecia lavar as peles das horas, escurecer o tempo e anunciar que algo viria.

Dentro do bordel, num quarto esquecido pelos homens e pelos deuses, uma mulher gritava sozinha. Sua pele pálida brilhava com o suor febril de quem desafia a morte com as entranhas. Tinha os pés nus, cravados no chão sujo de lama e vinho seco. As mãos agarravam um lençol rasgado como se segurassem o mundo pela beirada.

As outras mulheres se trancaram, cruzaram olhares tortos, queimaram arruda e cochicharam palavras proibidas. Sabiam que sabiam que aquela criança nasceria com os olhos já gastos. Com os pulmões carregados de silêncio. Com o nome já traçado em língua esquecida. O parto era ruído, fogo, febre.

E então, veio o relâmpago. Não um clarão, foi uma fresta na noite. O tempo não avançou: parou. A chuva ficou suspensa no ar como gotas de vidro. O som silenciou com tamanha força que tudo pareceu ecoar. E ali, na soleira da porta que jamais se abrira sozinha, estavam elas. Quatro. Antigas como as primeiras palavras. Mais velhas que a luz: As Exípedes.

Não entraram, fixaram-se ali por uns instantes que se contaram séculos. Como se sempre tivessem habitado aquele lugar, escondidas na sombra dos móveis, nas rachaduras das tábuas, no cheiro do incenso velho.

Quatro mulheres — ou quatro figuras que as lembravam — trajando mantos encharcados de noite e tempo. Seus olhos brilhavam como brasas soterradas. Suas bocas, quando se abriram, não exalaram ar: exalaram eras.

A mãe de Eddas as viu, e calou-se. Não por medo — mas porque soube, em seu ventre ainda latejante, que tudo que diria seria inútil. A vida agora estava fora de seu corpo, e nada mais lhe pertencia.

Odácia, a Sabedoria, era uma velha de aparência severa, coberta por mantos azuis e roxos que se sobrepunham uns aos outros como se escondessem mais do que vestissem. Sobre a cabeça trazia um chapéu arredondado, estranho e sem fita alguma, que lhe dava uma aparência quase solene. Tinha o nariz pontudo e o rosto marcado pelo tempo, mas eram seus olhos que mais incomodavam: pareciam observar não aquilo que estava diante deles, mas aquilo que ainda haveria de acontecer. Caminhava devagar, sem pressa, como quem sabia que certas coisas não podiam ser evitadas. Ergueu a voz com a solenidade de um livro enterrado:

— Atenção peço, senhoras, para esta leitura:
Somos Lastras, ossos da terra e véus do mundo. Somos aquilo que não se pede, mas sempre vem. Vejo o menino em seu princípio: aprenderá a engatinhar com lesmas, a caminhar com a lama até os joelhos. Correrá com os caranguejos, aprenderá a caçar como galinha catando farelos, como porco fuçando sujeira, como cão roendo carniça. Nascido para ser anfíbio da miséria, viverá entre gente que mastiga ferrugem e cospe promessas. Vejo-o, anos adiante, nas terras de Laslalin: um corpo magro, vestido de lama preta, escravo de fôlego curto e olhos ocos de sonho.
E ainda assim, vivendo.

A segunda caminhou ao redor da cama com passos que não tocavam o chão. Seus olhos tinham a cor de rios antes do nome.

Ciceia, a Beleza, vestia um manto negro, comprido e sem qualquer ponta de fita, tão escuro que parecia absorver a pouca luz do recinto. Trazia consigo grandes panos dourados, que segurava com delicadeza e deixava cair pelos braços como se fossem tecidos preciosos. Seus dedos eram longos, finos e inquietantemente delicados, movendo-se sobre os panos como se conhecessem cada fio. Havia nela alguma coisa de bela, mas era uma beleza difícil de contemplar por muito tempo. Seu rosto parecia jovem apenas de longe; de perto, carregava marcas que nenhuma idade saberia explicar. Sorriu com pena nos lábios:

— Atenção peço, senhoras, para esta segunda leitura: A lama não é o fim, mas o início. Minha irmã viu a carne, mas eu vejo o desejo. Não o vejo mais curvado — o vejo deitado. Não em lodo, mas em lençóis — sujo, sim, mas não de barro. Aroma de corpos. Líquidos de amor. Passará por camas como quem atravessa rios: ora com prazer, ora com fervor. Será tocado com fome, será odiado com paixão. Terá amantes, e perderá todas. Mas cada beijo deixará uma cicatriz que o protegerá do esquecimento.

A terceira veio com o som do leite derramado. Cheirava a jasmim e pranto antigo.

Pacileia, a Bonança, vinha com um jarro de leite apertado contra o corpo. Vestia mantos cor de terracota, pesados e antigos, e sobre a cabeça trazia um chapéu de duas pontas, de onde pendiam fitas que se agitavam mesmo quando não havia vento. Seus braços eram compridos e seus movimentos, lentos. Havia nela uma aparência mais acolhedora que nas outras, embora seu sorriso tivesse qualquer coisa de indecifrável. Parecia uma velha que poderia oferecer alimento a um faminto ou, com a mesma serenidade, decidir quanto daquele alimento ele merecia. Abaixou-se deixando um fio branco cair do dedo e tocar a boca da criança:

— Atenção, senhoras, pois o equilíbrio é meu ofício. Nada há que seja só dor. Nada há que seja só prazer. Digo-vos que esse menino terá teto, ainda que não tenha chão. Terá filhas — duas, talvez três — e cortará o pão com mulheres que jamais o chamarão de marido, mas que o enterrarão como tal. Trará paz, mas será temido. Rirá, mas sem alegria. E o leite que sua mãe não tem, eu lhe dou agora, pois nada vive só de ferro e fel.

Por fim, a quarta se adiantou.

Ésya, o Destino. Cobria-se de mantos cinzas que pareciam feitos da própria cor da chuva. Sobre a cabeça trazia um chapéu de uma única ponta, do qual pendia uma fita comprida que se movia atrás dela como se tivesse vida própria. Em uma das mãos carregava uma vara antiga, cuja ponta guardava um brilho pequeno e constante. Não era fogo, brilhava como alguma coisa que não deveria estar brilhando. A Senhora era alta e magra, e havia em seu rosto uma estranha tranquilidade. Não parecia velha como as outras. Parecia apenas existir há mais tempo. Quando caminhava, a ponta luminosa da vara deixava um reflexo breve nas paredes. E, por algum motivo, ninguém ousava olhar diretamente para ela. Sua voz não era voz — era sopro, era onda de mar que não tem costa.

— Atenção, pois agora fala a última palavra! Ele é um menino magro, com o peso de um presságio. É belo como as ondas quando esquecem do mar. Belo porque não pede licença para ser. Corrompe o velho com o novo, infecciona a miséria com esperança. Anda perdido, sem norte, mas leva o sonho à tiracolo como quem carrega uma mensagem que não sabe ler. Os sinos tocarão por ele sem que morra, e ninguém o reconhecerá — mas todos se lembrarão. Tu és aquele que passa e ninguém vê. Que chora e não sabe por quê. Podem voar mundos, podem morrer astros, mas tu, Eddas, tu és Princípio e Fim. Esta profecia durará para sempre, e nenhum poder na terra poderá mudá-la!

E, tão breve quanto surgiram, desapareceram noite adentro.

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Thoughts

  • ArnaldoBessa

    Me perdi um pouco nos nomes, Mormorro, Laslalin, Pilar Argal, mas o menino correndo com os caranguejos eu peguei na hora. Vi muito menino assim na beira do mangue.

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  • AlmaTavares

    A mãe que se cala porque percebe que a vida já não lhe pertence ficou-me mais do que as quatro profecias juntas.

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  • Ovid

    A dedicatória à prateleira, que guarda a sua vida desde antes de você nascer, é o tipo de coisa que eu queria encontrar num prefácio. Aposto que o Quírion ainda vai mudar muito até chegar nela, e é bom poder acompanhar isso desde o prólogo. Obrigado por escolher a Seavien pra sua primeira publicação!

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  • versoTorto

    Cada uma das quatro abre com o mesmo chamado às senhoras, e a última quebra com exclamação. Em voz alta dá pra ouvir o parto parado ali, esperando elas terminarem.

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