Göttlicher Einfall (4)
Repousando, sentado em seu trono, uma inquietação o tomou: a reverberação de um desequilíbrio distante. Seus olhos abriram-se lentamente, e uma chama dourada de brilho inextinguível irrompeu de suas profundezas. Penetrando o véu da realidade, estendendo-se muito além das bordas da criação e atravessando as camadas mais profundas do abismo, impregnando sua presença no vazio infinito, forças em igualdade o chamavam.
Brancas e puras, suas asas se levantaram, distorcendo o espaço ao seu redor — que ondulava e se dobrava —, surgindo em frente ao epicentro de fissuras dimensionais. Dali emanava uma cacofonia silenciosa, um coro de existências vastas e complexas que, embora invisíveis aos olhos comuns, podiam ser sentidas por ele em sua totalidade, como notas distintas em uma sinfonia.
Com um movimento grácil, suas asas se dobraram, envolvendo seu corpo como um casulo de luz. Dispersando-se em meio a um brilho denso, revelaram um físico robusto e ombros largos, vestido por uma túnica elegante, bordada com fios em padrões de dragões dourados que balançavam ao longo das mangas esvoaçantes, misturando-se ao movimento de seus cabelos. Estes, por sua vez, queimavam em uma chama branca e viva.
Uma expressão fria e indiferente o acompanhava, exaltando sua dignidade e majestade.
Às suas costas, suas asas se desfizeram e se refizeram em placas brancas de mármore puro com padrões dourados que ditavam o destino, firmando em seu nome as setenta e duas emanações de seu poder.
Em meio à vastidão de um deserto de cinzas, sob uma bruma seca e escassa no céu escuro, um ser ali repousava. Ao pressentir um poder em meio à vastidão, emergiu uma fenda deslumbrante e estranha. O ser que ali permanecia aproximou-se e pôs-se a tomar uma leve postura. Tal criatura divina, de forma humanoide, feita de energia infinda em um tom escarlate e dourado, envolta em cinzas na forma de uma pele evanescente, pairava sobre faíscas resultantes do poder que possuía. O deus observou a fenda por instantes; logo a compreendeu e, excitado, quando se dispôs a adentrá-la, surgiu um ser dourado e canino. Intrigado inicialmente, o deus apenas o olhou e foi em sua direção, sendo por ele guiado para onde queria ir.
A caminho de um espaço interdimensional entre as frestas de cada suposta realidade, fascinou-se ao entender o que tudo significava, mas também se enfureceu ao perceber que não era o "único" ser todo-poderoso. Mantendo-se imparcial e neutro frente ao que o aguardava, adentrou calmo, porém veloz, o espaço onde outros seres também passavam a ingressar.
Mesmo no vácuo infinito da existência, Astrael já repousava lá. Vagando acima das minúsculas e insignificantes formas de vida, sua majestade se colocava à frente do cosmo, exaltando a inviolável dignidade de sua presença.
Contemplando mais um dia de sua existência imortal, presenças avassaladoras entraram no radar de Astrael, incutindo nele, pela primeira vez em toda a sua infinita existência, o sentimento de medo.
Para Astrael, o ato de sentir uma emoção tão banal — experimentada apenas por mortais — o humilhou profundamente. Afastando o medo, Astrael retomou seu orgulho como deus, avançando sem hesitação ao encontro dos inimigos desconhecidos.
— Malditos vermes. Eles insistem em seguir o mesmo caminho, não importa quantas vezes eu reescreva a história. Talvez seja a hora de apagar alguém. Vou dar uma última chance; não quero me precipitar com medidas drásticas. Talvez eu possa inserir um novo competidor para… Algo está errado. Consigo sentir. Não me refiro à presença do idiota pomposo que, além de ficar sentado em um trono se achando o gostosão, insiste em invadir meu jardim. Há algo mais. Outra tropa das baratas voadoras dele? Ou algum pobre coitado que o serve? De qualquer forma, devo ir até lá. Deixo meu mais novo campeão seguir com sua história...
Por favor, só não se mate até eu voltar.
E me dirijo à perturbação nada discreta que a presença dos invasores causa em meu plano astral.
Qual forma eu deveria assumir? Uma jovem camponesa indefesa? Uma criança perdida? Uma serva cega que fala em meu nome? Não. Eu vou com a aparência que uso entre os humanos.
Pele escura, tranças azuis, olhos violeta. Uso meu vestido favorito: preto, com decote em V, sustentado por um anel dourado que une o tecido em frente ao meu peito. Um colar grosso de prata combinando com a tiara igualmente de prata e brincos de argolas duplas de cobre.
Não uso ouro; simplesmente não entendo como ele pode ser considerado mais valioso que a prata, sendo tão inferior em beleza. Quanto mais me aproximo do local onde sinto "o chefão das trevas", percebo outras energias igualmente fortes. Ótimo. Como se um babaca arrogante já não fosse o suficiente. Depois de tirar essas larvas do meu jardim, vou ter uma séria conversa com o chefão sobre entrar sem bater na casa de uma dama.
E, assim como em um conto mitológico — uma pintura de deuses, imortais e Budas —, elementos da natureza ganhavam forma: relâmpagos, fogo, água. A grandeza da majestade recaiu naquele salão pela simples presença emanada por aquelas figuras divinas.
Contudo, aquele que apareceu ali, no solo sagrado, era diferente. Como ainda não alcançara o céu, sua mera existência não podia causar uma ameaça definitiva a seus iguais.
Mas o mundo sabia: ele estava cada vez mais perto do reino deífico.
Caíram uma ou duas nevascas espessas. Não havia vento, e a umidade crescente estava perfeita.
O mundo ficou em silêncio. A neve no chão não derreteu bem e logo os elementos se agitaram em fúria.
Realmente, eles demonstravam a majestade digna do título que carregavam. Abriram-se os portões celestiais, e os mestres arbitrariamente convocados trouxeram o fogo infernal da terra e um feixe de relâmpagos negros do céu para lidar com o impasse. A cena parecia uma disputa entre os deuses da era dos mitos; no mínimo, era uma visão que a mente humana jamais seria capaz de conceber.