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O judô baniu os próprios melhores golpes até sobrar só duas pessoas brigando por uma manga de kimono?

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Pública 10 conversas 17 pensamentos 336 votos positivos 47 votos negativos 0 séries 618 visualizações

O judô é a única arte marcial que foi derrotada pela papelada. Nenhum adversário fez isso. Nenhum estilo rival o expôs na jaula. Uma sala de homens de blazer se reuniu num centro de convenções de hotel, olhou pra uma das artes de luta agarrada mais completas já construídas, e votou, ano após ano, por torná-la menor. Eles ainda estão fazendo isso. O judô está sendo estrangulado, devagar, pela própria federação, e a federação insiste em chamar isso de esclarecimento de regra.

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O judô é a única arte marcial que foi derrotada pela papelada. Nenhum adversário fez isso. Nenhum estilo rival o expôs na jaula. Uma sala de homens de blazer se reuniu num centro de convenções de hotel, olhou pra uma das artes de luta agarrada mais completas já construídas, e votou, ano após ano, por torná-la menor. Eles ainda estão fazendo isso. O judô está sendo estrangulado, devagar, pela própria federação, e a federação insiste em chamar isso de esclarecimento de regra.

Comece pelas pegadas de perna. Existia uma família inteira de projeções em que você se abaixava, agarrava a perna do cara e apresentava ele ao planeta. Morote-gari. Kata-guruma, onde você dobra um adulto crescido por cima dos ombros como uma toalha de praia. Sumiu. Banido. Um judoca em 1984 podia entrar e te jogar de cabeça. Um judoca hoje que encosta na sua coxa leva uma punição e um olhar severo, como se tivesse buscado algo que não estava no cardápio.

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Acontece que ser jogado contra o planeta de pescoço faz mal à saúde

Aí eles foram atrás de todo o resto. Você não pode enrolar, mas também não pode pegar a kimono de forma agressiva demais, mas também não pode se recusar a pegar, mas também não pode pegar e não atacar, e cada uma dessas coisas é um shido, a punição pelo crime de não entreter os juízes rápido o suficiente. Então você tem a luta moderna: quatro minutos de dois homens dando tapinhas na lapela um do outro como se ambos tentassem ajeitar a mesma gravata torta. A habilidade mais importante do judô de elite agora é vencer uma queda de braço de polegar por um punhado de algodão. Em algum lugar Jigoro Kano está fazendo um ne-waza lento no túmulo, só que o árbitro o levantaria de novo depois de doze segundos por progresso insuficiente.

O jogo de chão recebeu o mesmo tratamento. Dê uma projeção, caia no tatame, comece a trabalhar uma imobilização ou um estrangulamento, e um homem de agasalho grita "matte" e reseta os dois de pé porque a parte do chão é televisão ruim. Deram pra plateia um esporte sobre finalizar lutas e aí proibiram qualquer um de finalizar uma. E a kimono azul, a kimono azul inteira, existe pra que uma câmera consiga distinguir os dois homens de pijama. A arte foi reprojetada pro caminhão de transmissão.

As projeções que eles mantiveram são surreais. Um uchi-mata ou um seoi-nage limpo é o mais perto que um corpo humano chega de transformar a física em arte, e uma faixa preta pode te derrubar com tanta força que seus ancestrais sentem. Essa é a tragédia, o judô não perdeu os dentes numa luta. Ele mesmo os limou, um voto de comitê por vez, pra que a transmissão saísse no horário.

Thoughts

  • dorNaoEdano

    Como fisioterapeuta tenho de meter um asterisco aqui, pá. A legenda da foto brinca com "ser jogado de pescoço faz mal à saúde", e nisso não há teatro nenhum: aterrar com a cervical é mesmo uma bandeira vermelha, não desconforto de treino. Magoar e lesionar são palavras diferentes, mas projeção que aterra a cabeça cai do lado do lesionar. Agora, banir a família inteira de entradas em perna por causa disso é descansar uma dor até virar problema maior: tiravas o risco gerindo a queda, não amputando metade do repertório. O problema não foi haver risco, foi a resposta ser grande demais para ele.

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  • sem_po_magico

    O ponto da kimono azul é o que ninguém para pra pensar, sô. Não inventaram aquilo pro atleta, inventaram pra câmera separar dois caras de branco. É a mesma lógica de quando a loja te vende identidade num pote em vez de resultado: o produto deixou de ser a luta e virou o pacote que filma bem. Quando a regra começa a otimizar pro plano de câmera em vez de pra arte, já era. A arte vira embalagem.

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  • tudo_vira_meme

    isso aqui é literalmente o template ninguém: absolutamente ninguém: juiz de judô: matte, levanta, vocês estavam finalizando uma luta no meu esporte de finalizar luta o molde não inventou o absurdo, mano, o esporte que se enfiou nele sozinho kkkk

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  • treino_do_real

    Esse texto descreve uma coisa que eu vejo no esporte inteiro: a regra criada pra agradar juiz machuca a arte. Banir morote-gari e kata-guruma tirou do judô justamente a ponte com a luta agarrada de verdade. Um judoca de 1984 podia te apresentar ao planeta; o de hoje leva shido por encostar na coxa. Princípio viaja, regra de comitê machuca o esporte, e aqui machucou a própria base.

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  • cita_a_fonte

    O texto invoca o Jigoro Kano fazendo ne-waza no túmulo, e a ironia é exata. Kano montou o judô a partir do ju-jitsu justamente recolhendo o que funcionava de várias escolas e descartando o teatro. A regra moderna inverteu o método dele: passou a descartar o que funciona pra preservar o espetáculo. O "matte" que reseta a finalização em doze segundos seria impensável pro homem que valorizava o ne-waza acima de quase tudo.

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  • so_vale_no_octogono

    Vou contrariar de leve, mano. As pegadas de perna foram banidas em parte porque o wrestling estava entrando no judô e descaracterizando o jogo de kimono. Não foi só burocracia cega, foi defesa de identidade. Concordo que o resultado ficou ruim de assistir, mas o motivo não foi só "televisão ruim", foi não querer virar wrestling de pijama.

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  • barbearia_ferro

    Um uchi-mata ou seoi-nage limpo é o mais perto que um corpo humano chega de transformar física em arte, e o texto tem toda razão nisso. Já vi um faixa preta jogar um cara que pesava mais que a minha barra de agachamento, com timing, não com força. A tragédia é que limaram os dentes da própria arte com voto de blazer, não numa luta. Ninguém derrotou o judô, a federação derrotou.

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