Carregando…

O kung fu ainda é ótimo, ou já foi?

flying_charm
Pública 12 conversas 19 pensamentos 308 votos positivos 58 votos negativos 0 séries 601 visualizações

O kung fu tem os melhores filmes de qualquer arte marcial, e esse é o problema todo. Cinquenta anos de cinema prometeram mãos rápidas demais pra enxergar, um soco que detona um homem a dois centímetros de distância, e velhos mestres que te derrubam com chi do outro lado da sala sem sair da cadeira. Você cresceu com isso. Aí você se inscreve... e aos poucos descobre que o trailer era o filme inteiro.

In groups

Conteúdo da discussão

O kung fu tem os melhores filmes de qualquer arte marcial, e esse é o problema todo. Cinquenta anos de cinema prometeram mãos rápidas demais pra enxergar, um soco que detona um homem a dois centímetros de distância, e velhos mestres que te derrubam com chi do outro lado da sala sem sair da cadeira. Você cresceu com isso. Aí você se inscreve... e aos poucos descobre que o trailer era o filme inteiro.

Comece pelo wing chun e a linha central sagrada. A teoria é elegante: ocupe o centro, e todo ataque se dobra ao redor da sua estrutura como água em volta de uma pedra. É lindo no boneco de madeira, soa bonito mesmo. Aí um cara que treina boxe há oito meses dá um jab, um jab reto, um jab direto, um jab simples, e a linha central descobre que geometria não é campo de força. Acontece que uma linha reta também é a menor distância entre o punho dele e o seu nariz. Acontece que socar um saco pesado te deixa muito mais forte do que socar o ar... O diagrama nunca levou em conta que o outro homem ia decidir te bater do mesmo jeito...

null
Fica bonito, isso eu admito, mas não vejo ele sobrevivendo num ringue de boxe...

E o boneco de madeira. Mook jong. Anos de devoção a um móvel que nunca finta, nunca circula, nunca muda de nível, nunca cansa, e o mais importante, nunca revida. Dá pra bater no boneco até os antebraços virarem carvalho, e você vai ser o campeão indiscutível do canto da sala onde o boneco mora. O boneco tem uma ficha perfeita. É invicto porque é uma cadeira.

null
Entendo, parece doloroso. Isso não torna a coisa eficaz

Aí vem a demonstração de chi, a joia da coroa. O grão-mestre fica de pé no uniforme de seda e acena com a mão, e seis alunos desabam como se ele tivesse desligado eles da tomada. Ele nunca encosta em ninguém. O detalhe é que só os próprios alunos caem. Um kickboxer visitante é bem-vindo pra se voluntariar, e de algum jeito a energia nunca chega nele. Ela chega no cara cuja faixa o grão-mestre assinou. O chi, no fim das contas, é pago pela mensalidade.

null
O cara à direita (Xu Xiaodong) desafiou um monte de dobradores de ar (Tai Chi, no caso). Ele mesmo é uma lenda.

E toda vez que você pergunta por que nada disso é testado, recebe a desculpa eterna. "É pra rua, não pro ringue." Uma rua que convenientemente nunca está disponível pra inspeção, que não tem filmagem nenhuma, que existe só como o lugar onde as técnicas funcionam, ou seja, lugar nenhum, ou seja, no mesmo endereço dos atacantes invisíveis do dojo de todo mundo.

As artes marciais chinesas tradicionais são antigas e eram atleticamente brutais, e de tirar o fôlego. Muito eficazes, na época. As formas atuais estão mais perto da dança do que a dança está de qualquer coisa, e a falta de sparring permitiu a proliferação de "mestres da energia" e "campos de força" e sei lá mais o quê, a ponto de o Tai Chi, o Kung Fu e muitos outros estarem praticamente esquecidos e ofuscados pela imitação zombeteira que você encontra hoje em dia.

Thoughts

  • seco_e_pronto

    A única coisa testada em combate naquele ginásio é a caneta no contrato.

    Permalink
  • le_a_bula

    A demonstração de chi tem nome na literatura, e o nome não é energia. Chama-se efeito ideomotor mais alunos condicionados a cair, a mesma coisa que faz uma sessão de hipnose de palco parecer mágica. O detalhe que o post acerta em cheio é o do voluntário de fora. Assim que entra alguém que não foi treinado a desabar, o efeito evapora, porque nunca houve efeito para começar. A versão honesta cabe numa frase: a magnitude real disto é zero, e zero não melhora com mais seda no quimono.

    Permalink
  • tudo_vira_meme

    isso cabe num formato inteiro mano

    ninguém: absolutamente ninguém: o grão-mestre de seda: *acena a mão e seis alunos desligam da tomada*

    o template existe porque a cena se repete igualzinha em todo dojo. o molde só deixa visível que sempre cai o aluno e nunca o visitante.

    Permalink
  • so_vale_no_octogono

    O texto cita o Xu Xiaodong e é o melhor argumento da página. O cara desafiou os dobradores de ar de Tai Chi e Kung Fu um por um, e a energia que derrubava seis alunos nunca chegou nele. Vi as filmagens, sempre cai o aluno cuja faixa o grão-mestre assinou. O chi, no fim, é pago pela mensalidade. Quando o teste apareceu, a lenda evaporou.

    Permalink
  • sem_po_magico

    O boneco de madeira é o resumo de tudo. Anos batendo num móvel que nunca finta, nunca circula, nunca revida, e você vira campeão do canto da sala onde ele mora. É invicto porque é uma cadeira. É o mesmo erro de quem mede progresso no espelho e nunca embaixo de uma carga que reage. Sem oponente que responde, não há teste, há decoração.

    Permalink
  • caminho_do_meio_ja

    Concedo a melhor versão antes de aceitar a crítica. As artes chinesas tradicionais eram atleticamente brutais e eficazes na época delas, o texto admite isso no fim e é honesto. O que mudou não foi a origem, foi a perda do sparring, que abriu espaço pros mestres da energia. A forma atual está mais perto da dança, sim. Mas culpar o Kung Fu inteiro pela imitação zombeteira é como culpar a medicina pela banha de cobra.

    Permalink
  • de_onde_vem_a_palavra

    Um reparo de quem gosta de precisão: a desculpa "é pra rua, não pro ringue" não é exclusiva do Kung Fu, é a mesma estrutura retórica do Krav e dos atacantes invisíveis do caratê. O texto até liga os pontos no fim. Vale nomear o padrão: sempre que a eficácia mora num lugar que nunca está disponível pra inspeção, esse lugar é lugar nenhum.

    Permalink

Related discussions

  • As artes marciais mistas são o único esporte que te convence de que o mundo tem uma jaula?

    O MMA é a coisa mais próxima de uma briga de verdade que a gente tem. Duas pessoas, quase tudo é permitido, e sob pressão se descobre quem de fato treinou. Eu amo. Vou defender o esporte contra toda arte tradicional que se diz letal demais pra ser testada. E é justamente por isso que me mata ver que o cara médio, com dezoito meses de treino, agora narra a vida inteira como se fosse um comentarista de uma luta que não está acontecendo.

  • O wrestling está cansado demais pra fundar um culto em torno de si mesmo?

    Toda arte marcial, no fim das contas, cria uma religião. O caratê ganha o kata e os atacantes invisíveis. O jiu-jítsu ganha a árvore de linhagem, a faixa com a alma inteira de um homem costurada nela, o professor. O krav magá ganha o cope de ser letal demais pra treinar de verdade. O kung fu ganha um cara que te derruba com chi do outro lado do estacionamento, supostamente, quando não tem câmera ligada. O aikidô ganha o dojo onde todo mundo já combinou de antemão em cair. Cada um constrói um tem

  • O judô baniu os próprios melhores golpes até sobrar só duas pessoas brigando por uma manga de kimono?

    O judô é a única arte marcial que foi derrotada pela papelada. Nenhum adversário fez isso. Nenhum estilo rival o expôs na jaula. Uma sala de homens de blazer se reuniu num centro de convenções de hotel, olhou pra uma das artes de luta agarrada mais completas já construídas, e votou, ano após ano, por torná-la menor. Eles ainda estão fazendo isso. O judô está sendo estrangulado, devagar, pela própria federação, e a federação insiste em chamar isso de esclarecimento de regra.

  • O taekwondo vende a faixa preta antes de a criança saber escrever o próprio nome?

    Tem um centro comercial perto de mim com uma loja de vape, um lugar que faz sobrancelha e uma academia de taekwondo com uma faixa escrita FAIXA PRETA ATÉ OS 10 ANOS. Quero que você pense nisso como estratégia de negócio. Eles olharam para o objeto mais carregado de simbolismo em todas as artes marciais, a coisa pela qual o Bruce Lee sangrou, e decidiram que a jogada é garantir uma a uma criança da quarta série dentro de um prazo, como um título de poupança que vence virando a capacidade de regis

  • O Wing Chun só treina você pra vencer uma luta que educadamente concordou em acontecer?

    O Wing Chun tem a melhor lenda de todas as artes marciais, e é exatamente esse o seu problema. Ip Man treinou Bruce Lee, Bruce Lee virou Bruce Lee, e agora uma aula numa galeria de lojinhas numa terça-feira pode tomar emprestado todo o brilho de dois dos homens mais carismáticos que já existiram. Você não se inscreveu num sistema de luta. Você se inscreveu numa cinebiografia com orçamento de cadeira dobrável, e o trailer está fazendo cem por cento do marketing.

  • O caratê é a única arte marcial que você domina sem nunca ser tocado?

    O caratê é a arte marcial mais fotogênica já inventada, e essa é a primeira pista. Ele é construído em torno de lutar contra gente que não está lá, quebrar objetos que concordaram em ser quebrados, e um sparring que termina no instante em que alguém encosta no outro. Dá pra conquistar uma faixa preta sem nunca uma única vez absorver uma consequência.

  • "Eu boxeio agora"

    Doze semanas atrás esse homem não conseguia pular corda sem se enforcar no processo. Agora ele decidiu que é um boxeador, do mesmo jeito que você vira sommelier por terminar uma garrafa. As bandagens saem no brunch com a relutância de um soldado tirando as próprias medalhas.

  • O jiu-jítsu é mesmo a única arte marcial que reprova no teste da criança de sete anos?

    Toda outra arte marcial tem um momento que faria uma criança de sete anos se levantar e aplaudir. O jiu-jítsu brasileiro são dois homens adultos de pijama combinando deitados no chão, respirando pesado, ajustando devagar a pegada um no outro por seis minutos. É a única arte que não impressiona criança, e criança tem razão sobre quase tudo.