O Wing Chun tem a melhor lenda de todas as artes marciais, e é exatamente esse o seu problema. Ip Man treinou Bruce Lee, Bruce Lee virou Bruce Lee, e agora uma aula numa galeria de lojinhas numa terça-feira pode tomar emprestado todo o brilho de dois dos homens mais carismáticos que já existiram. Você não se inscreveu num sistema de luta. Você se inscreveu numa cinebiografia com orçamento de cadeira dobrável, e o trailer está fazendo cem por cento do marketing.
Aí você conhece o chi sao. Mãos pegajosas. A joia da coroa. Duas pessoas pressionam os antebraços uma contra a outra e balançam para frente e para trás, sentindo as aberturas, sem que nenhuma das duas possa sair. É vendido como o segredo da sensibilidade, e é genuinamente uma ideia esperta, e também se parece exatamente com um jogo de bate-mãos muito tenso entre dois homens que combinaram de antemão não bater de verdade um no outro. Você pode fazer isso por dez anos. Muitos fizeram. Eles saem com antebraços capazes de detectar uma mudança de pressão do outro lado da sala e uma incapacidade total de lidar com um cara que simplesmente não encosta o pulso no seu.
Porque essa é a pegadinha que a lenda nunca menciona. As mãos pegajosas EXIGEM que o outro homem seja pegajoso. O sistema inteiro pressupõe um oponente cooperativo que aparece, cola o antebraço no seu e fica na exata distância curta onde vive todo o seu treino. Um estranho dando socos num estacionamento não leu a ementa do curso. Ele não está interessado na ponte. Ele está soltando um gancho largo e feio de um palmo longe demais, e o seu lindo trapping não tem nada para travar, porque travar precisa de um membro que se voluntarie.
E o soco em cadeia. O golpe de assinatura. Uma rajada de punhos verticais minúsculos disparados bem pelo meio, tão rápidos e tão leves que o homem genuinamente parece estar digitando no ar com raiva. É hipnotizante num parceiro parado. Num alvo em movimento, são mil toquinhos que somam mais ou menos um e-mail irritado. Além disso, onde você bate, exatamente? O oponente deveria manter o rosto parado para toda a cadeia acertar?
Aí tem as guerras de linhagem, em que toda escola é o único Wing Chun verdadeiro e toda outra escola é heresia, cisma por causa do ângulo de um passo, homens que nunca fizeram sparring com um lutador de luta agarrada furiosos com a forma como um mestre morto segurava o cotovelo em 1955.
Aqui vem a virada: as ideias são até espertas. Sensibilidade, economia de movimento, dominar a distância curta, golpear na entrada em vez de armar o golpe primeiro, tudo isso genuinamente importa, e influenciou gente que depois foi destruir todo mundo. A tragédia é que o Wing Chun construiu uma teoria brilhante do jogo de dentro e depois passou uma eternidade ensaiando-a com um parceiro que já tinha concordado em colaborar, então a única luta que ele não consegue vencer é a que ninguém agendou. E, mesmo que funcionasse, o que é um grande SE, sem habilidades de luta agarrada, o Wing Chun se sairia como aquele de "Era Uma Vez em... Hollywood", que foi zoado...